Brasil disputa investimentos em data centers em meio a desafios estruturais
Um dos temas mais relevantes para a economia brasileira é a competição já existente pela atração de investimentos locais e externos para data centers

O data center, ou centro de dados, é uma infraestrutura física ou virtual utilizada para armazenar, processar e distribuir dados e aplicações. Ele reúne servidores, sistemas de armazenamento, redes, energia elétrica redundante, refrigeração e mecanismos de segurança. Empresas, governos e plataformas digitais dependem desses centros para manter a espinha dorsal da economia digital. Sem eles, boa parte do que utilizamos diariamente simplesmente não existiria.
Serviços como WhatsApp, Instagram e Netflix dependem de data centers para operar. Plataformas de armazenamento em nuvem, como Amazon Web Services e Microsoft Azure, hospedam dados de empresas e usuários. Essas estruturas também sustentam a transformação digital ao viabilizar tecnologias como inteligência artificial, big data e internet das coisas, além de permitir o funcionamento do comércio eletrônico, dos bancos digitais e de serviços financeiros. Também garantem segurança, continuidade, backup e recuperação de dados.
Apesar de sua relevância, existem desafios significativos para a instalação de data centers, como o elevado consumo de energia elétrica, questões relacionadas ao clima e à refrigeração, conectividade, burocracia e regulamentação, além de aspectos de segurança, localização e custo de equipamentos.
Dessa forma, os data centers são essenciais para o funcionamento do mundo digital moderno, mas sua expansão no Brasil depende da superação de entraves ligados à energia, infraestrutura, custos e regulação.
Cabe destacar que o mercado de data centers voltados à inteligência artificial cresceu nos últimos anos, impulsionado pelo uso desses espaços para abrigar supercomputadores responsáveis pelo treinamento de modelos de linguagem, como o ChatGPT. Esse mercado pode ser dividido em dois segmentos principais: o de nuvem, voltado à operação de serviços na internet, e o de inteligência artificial, direcionado ao treinamento de modelos complexos. O Brasil conta com 188 data centers, todos voltados à nuvem, ocupando a 12ª posição no ranking global, segundo dados do site Data Center Map. Enquanto um data center de inteligência artificial pode consumir energia equivalente à de milhões de residências, um data center convencional apresenta demanda significativamente menor.
O maior data center do país, movido a energia eólica, terá investimento estimado em R$ 200 bilhões. Construído pela Omnia, empresa da Pátria Investimentos, estará localizado no Complexo do Pecém, próximo a Fortaleza.
Estimativas indicam que os investimentos no setor no Brasil podem atingir US$ 92 bilhões entre 2025 e 2031. Ainda assim, os data centers instalados no País atendem apenas cerca de 40% da demanda nacional, enquanto aproximadamente 60% dos serviços digitais consumidos internamente ainda são processados no exterior.
O interesse global no Brasil é evidente. O País foi escolhido como o primeiro a receber um programa global de capacitação de talentos para data centers, com a participação de empresas como Equinix Foundation, Cisco e Odata, e turmas previstas para junho de 2026. No entanto, essa aposta depende de condições tributárias mais competitivas.
Em setembro de 2025, a Medida Provisória 1.318 instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, o Redata, que previa a suspensão de PIS/Pasep, Cofins, IPI e Imposto de Importação sobre equipamentos destinados ao setor. Essa suspensão seria convertida em alíquota zero após o cumprimento de compromissos relacionados a investimento em pesquisa e desenvolvimento, sustentabilidade, energia limpa e disponibilização de capacidade ao mercado interno. A medida, contudo, perdeu validade em 25 de fevereiro de 2026. Soma-se a esse cenário a Resolução Gecex nº 852/2026, que elevou as alíquotas do Imposto de Importação sobre servidores, equipamentos de rede, semicondutores e circuitos integrados, variando entre 7,2% e 25%.
Com o Redata paralisado, a atenção se voltou aos estados. O Confaz analisa uma proposta de convênio que permite a redução de até 90% do ICMS sobre equipamentos de tecnologia da informação e comunicação destinados a data centers. Atualmente, o ICMS representa cerca de 64% da carga tributária que encarece esses projetos, tornando o custo de implantação aproximadamente 34% superior ao dos Estados Unidos, segundo dados da Brasscom e da Teletime. A reunião do Confaz, realizada em 27 de março de 2026, avaliou o apoio manifestado por estados como Rio Grande do Sul, Ceará, Minas Gerais e São Paulo.
Ainda assim, o convênio estadual não é suficiente. O Brasil necessita de uma agenda coordenada que inclua a revisão das alíquotas do Imposto de Importação elevadas pela Resolução Gecex nº 852/2026, a retomada de um regime federal de suspensão de PIS, Cofins e IPI para o setor, a implementação de depreciação acelerada para equipamentos e a criação de linhas de financiamento específicas por meio do BNDES e da Finep.
O cenário internacional reforça a dimensão do desafio. A justificativa do Projeto de Lei 278/2026 aponta que o Brasil ocupa apenas a 10ª posição no mercado global de data centers, com participação de cerca de 2%, atrás de países como Japão e Holanda. Cerca de 60% das cargas digitais nacionais dependem de serviços processados no exterior, o que resultou em um déficit de US$ 7,1 bilhões na balança de serviços de telecomunicações e computação em 2024.
Paralelamente, o Paraguai, concorrente direto do Brasil devido à energia mais barata proveniente de Itaipu e à carga tributária reduzida, tem avançado no desenvolvimento de sua infraestrutura digital. O governo paraguaio contratou consultoria especializada para gerir e supervisionar a construção de um data center estatal, iniciativa vinculada ao Programa de Apoio à Agenda Digital, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, com apoio do governo dos Estados Unidos. O objetivo é reforçar a soberania tecnológica e oferecer serviços digitais mais seguros, escaláveis e eficientes, além de reduzir a dependência externa.
Diante desse contexto, o Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), e a Point Comunicação e Marketing organizam, em São Paulo, no dia 23 de junho, o 1º Fórum Brasileiro de Data Centers. Com apoio da Associação Brasileira de Data Centers, da Brasscom, da Associação Brasileira de Logística, da Associação Brasileira de Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil e da SP Negócios, o evento reunirá representantes do governo e da iniciativa privada com o objetivo de fomentar um ambiente favorável à instalação de data centers no País.
O encontro pretende criar um espaço de diálogo entre setor público e privado, conectando empresas, operadores, investidores e entidades representativas em torno de uma agenda comum. Essa agenda deverá contemplar temas como energia, planejamento, financiamento, regulação e visão de longo prazo, com o objetivo de fortalecer o papel do Brasil na infraestrutura digital global.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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