Brasil tem urgência em se preparar para o mundo que emerge
País não pode escolher o mundo em que viverá, mas pode escolher o grau de preparo com que o enfrentará. Permanecer como está é aceitar que cada crise internacional produza, aqui, efeitos mais intensos do que deveria

O Brasil assiste à reorganização da ordem internacional sem apresentar, no plano interno, os requisitos mínimos de solidez para enfrentar os efeitos dessa transição.
O mundo ingressa em uma fase marcada por maior instabilidade estratégica, recrudescimento de rivalidades entre potências, conflitos armados com impacto global e desaceleração econômica em centros decisivos da produção e do consumo.
Nesse contexto, países institucionalmente frágeis, fiscalmente pressionados e economicamente desorganizados tendem a sofrer de maneira mais intensa.
O problema brasileiro, portanto, não está apenas no que acontece fora de suas fronteiras, mas na incapacidade de se preparar para as consequências inevitáveis dessas mudanças.
Os fatores externos que compõem esse novo cenário são numerosos e convergentes. A eleição de Donald Trump reintroduz, no centro da maior economia do planeta, uma lógica mais protecionista, aplicando pressão tarifária e instrumentalização da política comercial. Ao mesmo tempo, as guerras entre Irã-EUA e Ucrânia-Rússia ampliam a instabilidade energética global, pressionando preços do petróleo e, por consequência, da gasolina e de diversos insumos estratégicos.
‘O mundo torna-se mais caro, mais tenso e menos previsível, o que cobra um preço de economias que já convivem com desequilíbrios internos relevantes’
Some-se a isso a redução do ritmo de crescimento chinês, que tende a afetar mercados emergentes dependentes da exportação de commodities e da dinâmica do comércio internacional. O mundo torna-se, assim, mais caro, mais tenso e menos previsível, o que, indubitavelmente, cobra um preço de economias que já convivem com desequilíbrios internos relevantes.
É justamente aí que a fragilidade brasileira se revela com mais nitidez. O país convive com juros elevados, expansão persistente do gasto público, aumento da dívida e baixíssima margem para o aumento da carga tributária, que já é excessiva para um país em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o crescimento recente da atividade econômica não parece decorrer de um salto estrutural de produtividade, mas, em larga medida, do impulso dado pelo aumento do gasto governamental e pela aceleração do consumo.
Trata-se de um crescimento que pode produzir números favoráveis no curto prazo, mas que não resolve os entraves centrais da economia nacional e tampouco prepara o país para um ambiente internacional adverso.
Mais além, esse modelo de expansão baseado em gasto e consumo tende a produzir pressões inflacionárias adicionais em uma economia que já opera sob custo elevado de capital, baixa eficiência e limitada capacidade de resposta produtiva.
‘Em vez de fortalecer a economia para enfrentar choques externos, o Brasil acaba ampliando a própria vulnerabilidade diante deles’
Quando o gasto público cresce sem o correspondente ganho de produtividade ou sem contrapartidas institucionais que elevem a eficiência do país, o resultado tende a ser conhecido: inflação resistente, juros persistentemente altos, desconfiança dos agentes econômicos e deterioração das expectativas de longo prazo. Em vez de fortalecer a economia para enfrentar choques externos, o Brasil acaba ampliando a própria vulnerabilidade diante deles.
Essa vulnerabilidade é agravada por um problema mais profundo: a permanência de um arranjo estatal excessivamente burocrático, oneroso e pouco funcional.
O país ainda impõe à produção uma teia de entraves regulatórios, custos administrativos, insegurança jurídica e complexidade tributária que desestimula o investimento, reduz a competitividade e compromete a capacidade nacional de reagir com agilidade aos choques.
‘Em um mundo no qual as nações disputam capital, tecnologia, cadeias produtivas e relevância geopolítica, o Brasil segue dificultando internamente aquilo que mais deveria estimular’
Em um mundo no qual as nações disputam capital, tecnologia, cadeias produtivas e relevância geopolítica, o Brasil segue dificultando internamente aquilo que mais deveria estimular. A consequência é a perda contínua de dinamismo, justamente quando a eficiência institucional se torna um diferencial decisivo.
No plano político, o quadro tampouco inspira tranquilidade. O país caminha para mais uma eleição fortemente polarizada, e há o risco de que os grandes temas nacionais voltem a ser soterrados por uma disputa emocional, personalista e improdutiva.
Questões essenciais como responsabilidade fiscal, produtividade, modernização do Estado, inserção internacional e fortalecimento institucional podem mais uma vez ceder espaço à retórica exausta da divisão permanente entre “nós” e “eles”, reproduzida por diferentes campos políticos. Trata-se de uma dinâmica que empobrece o debate público e impede que o país enfrente com seriedade os desafios que realmente definirão sua posição no mundo nas próximas décadas.
‘O país precisa recuperar a capacidade de pensar estrategicamente o seu futuro e, para isso, terá de enfrentar uma agenda de reformas estruturais que há muito vem sendo adiada’
Por isso, a resposta brasileira à nova geopolítica não pode ser improvisada, nem meramente discursiva. O país precisa recuperar a capacidade de pensar estrategicamente o seu futuro e, para isso, terá de enfrentar uma agenda de reformas estruturais que há muito vem sendo adiada.
Será necessário aprofundar a reforma tributária, avançar em uma reforma administrativa que torne o Estado mais eficiente, enfrentar a sustentabilidade do gasto previdenciário e concluir a modernização das relações de trabalho. Essas mudanças não devem ser vistas como um fim em si mesmas, mas como instrumentos para elevar a produtividade, reorganizar as contas públicas, reduzir incertezas e ampliar a capacidade nacional de crescer de forma sustentável e em um passo mais acelerado.
Ao final, a questão central é simples: o Brasil não pode escolher o mundo em que viverá, mas pode escolher o grau de preparo com que o enfrentará. Permanecer como está é aceitar que cada crise internacional produza, aqui, efeitos mais intensos do que deveria.
Reformar-se, ao contrário, é construir as bases para uma economia mais resiliente, juros mais baixos, inflação mais bem comportada, maior atração de investimento e melhores oportunidades de desenvolvimento.
Em um tempo de transição global, a verdadeira soberania não se afirma apenas no discurso, mas na capacidade concreta de organizar a própria casa.
Economista pela PUC-Rio e Mestre em Relações Internacionais e em Administração Pública pela Universidade Columbia, em Nova York. Atua nas áreas de resolução de conflitos,gestão de projetos de infraestrutura para PPPs, licitações e concessões, bem como em análise política, economia e dados, para os setores público e privado, no Brasil e no exterior.
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