Camboja, uma nova fronteira para a diplomacia econômica brasileira
O Brasil precisa olhar para o Camboja com mais atenção: não porque ele seja o maior mercado da Ásia, mas porque pode ser uma peça importante de uma estratégia brasileira mais ampla para o Sudeste Asiático.

Quando pensamos no Sudeste Asiático, Brasil e Camboja raramente aparecem na mesma frase. Singapura, Vietnã, Indonésia e Tailândia costumam ocupar o centro das atenções. Mas talvez seja justamente o momento de olhar para um país que ainda passa despercebido por grande parte dos brasileiros.
O Camboja está mudando. E a abertura da primeira Embaixada residente do Brasil em Phnom Penh, acompanhada pela decisão cambojana de abrir sua representação diplomática em Brasília, sinaliza que os dois países também estão dispostos a mudar o patamar dessa relação.
Mais do que um gesto diplomático, a nova presença brasileira pode ser uma ferramenta concreta de diplomacia econômica.
‘O Brasil é, até o momento, o único país da América do Sul com representação diplomática residente no Camboja’
Em entrevista por ocasião da abertura da Embaixada, a embaixadora Vivian Loss Sanmartin, amiga querida que foi minha parceira quando comecei a atuar nos Camarões e, posteriormente, na Namíbia, destacou que o Brasil é, até o momento, o único país da América do Sul com representação diplomática residente no Camboja. E apontou uma agenda bastante ampla: segurança alimentar, agricultura, proteção ambiental, desenvolvimento industrial, saúde, educação, formação profissional, turismo, energias renováveis e governança digital.
É uma agenda que merece atenção.
Entre todas essas possibilidades, a agricultura talvez seja uma das mais evidentes.
O Brasil transformou sua agricultura tropical em uma das mais competitivas do mundo, desenvolvendo conhecimento e tecnologias adaptados a diferentes biomas. O Camboja, por sua vez, busca modernizar sua produção e aumentar a produtividade.
‘Brasil e Camboja terão um arcabouço legal para desenvolver projetos de cooperação em diferentes áreas’
A embaixadora Vivian vê justamente aí uma oportunidade de cooperação. E há uma atualização importante nesse campo: o acordo de cooperação técnica entre os dois países foi aprovado pelo Congresso brasileiro em 4 de setembro e aguarda a conclusão do processo cambojano. Com sua entrada em vigor, Brasil e Camboja terão um arcabouço legal para desenvolver projetos de cooperação em diferentes áreas.
Mas a oportunidade não está apenas na exportação de alimentos.

Máquinas agrícolas, equipamentos para processamento de alimentos, sementes, irrigação, fertilizantes, bioenergia, embalagens, logística e capacitação técnica também podem fazer parte de uma agenda empresarial mais ambiciosa.
É nesse ponto que a relação precisa avançar: transformar potencial em negócios.
O comércio bilateral ainda é modesto diante do potencial dos dois países. Segundo a Embaixadora, em 2025 a corrente de comércio ultrapassou US$ 200 milhões. O número mostra crescimento, mas também revela quanto ainda pode ser construído.
O Camboja não deve ser visto apenas pelo tamanho de seu mercado interno.
‘Seu verdadeiro valor estratégico está também na sua inserção na Asean, uma das regiões mais dinâmicas da economia mundial’
Seu verdadeiro valor estratégico está também na sua inserção na Asean, uma das regiões mais dinâmicas da economia mundial. O país está integrado às cadeias produtivas asiáticas e possui uma posição estratégica entre grandes economias da região.
Para uma empresa brasileira interessada em entrar no Sudeste Asiático, portanto, a pergunta não deveria ser apenas “o que podemos vender ao Camboja?”, mas também “como podemos usar o Camboja para conhecer e alcançar melhor a região?”.
Essa mudança de perspectiva é fundamental.
O Brasil também tem o que aprender.
A relação não precisa ser construída em uma única direção.
O Camboja vem adotando políticas de atração de investimentos, zonas econômicas especiais e incentivos para empresas interessadas em produzir no país e acessar mercados regionais. São experiências que também merecem ser observadas pelo Brasil.
‘Enquanto o Camboja procura ampliar e diversificar seus parceiros internacionais, o Brasil enfrenta desafio semelhante’
Enquanto o Camboja procura ampliar e diversificar seus parceiros internacionais, o Brasil enfrenta desafio semelhante: reduzir a concentração de seus mercados e ampliar sua presença em regiões estratégicas.
Há, portanto, uma convergência de interesses.
O maior obstáculo talvez não seja a falta de oportunidades, mas a falta de conhecimento.
Distância geográfica, logística, diferenças regulatórias e desconhecimento entre empresários dos dois países ainda dificultam a aproximação.
É justamente aí que a diplomacia econômica pode fazer a diferença.
Embaixadas, câmaras de comércio, entidades empresariais, universidades e governos precisam atuar de maneira coordenada para aproximar pessoas, empresas e projetos.
A nova Embaixada brasileira em Phnom Penh oferece uma oportunidade rara de construir essa relação praticamente desde o início de uma nova etapa. E há sinais concretos de que essa aproximação começa a ganhar forma.
‘Mais do que comércio, a relação entre Brasil e Camboja também pode ser construída por meio de pessoas’
Mais do que comércio, a relação entre Brasil e Camboja também pode ser construída por meio de pessoas.
Na educação, o Camboja aderiu ao programa brasileiro PEC-G (Programa de Estudantes-Convênio de Graduação), que permite a estudantes de países parceiros cursar gratuitamente a graduação em universidades brasileiras. A Embaixada trabalha agora, com apoio do governo cambojano, para que estudantes do país possam efetivamente participar do programa. É uma iniciativa que pode criar vínculos duradouros entre as duas sociedades.
No turismo, cerca de 8 mil brasileiros visitaram o Camboja em 2025. O número ainda é pequeno, mas está crescendo. Um memorando de entendimento entre os Ministérios do Turismo dos dois países também abre espaço para ações conjuntas de promoção.
E há uma dimensão ainda mais simbólica: o esporte.
A capoeira brasileira já é praticada e ensinada no Camboja, enquanto o Kun Khmer, arte marcial nacional cambojana, vem ganhando espaço no Brasil. São conexões que mostram que, mesmo separados por milhares de quilômetros, Brasil e Camboja já encontram formas de se aproximar.
Essas relações humanas também ajudam a criar o ambiente necessário para que, no futuro, comércio, investimentos e cooperação avancem.
O Brasil precisa olhar para o Camboja com mais atenção: não porque ele seja o maior mercado da Ásia, mas porque pode ser uma peça importante de uma estratégia brasileira mais ampla para o Sudeste Asiático.
O Brasil já possui Embaixadas residentes em 9 dos 11 países da Asean, e o comércio com o bloco vem crescendo, em média, 15% ao ano desde 2020. O Camboja, nesse contexto, pode desempenhar um papel que vai além de sua própria economia.
O país foi também o primeiro entre os parceiros do Sudeste Asiático a apoiar a candidatura brasileira ao status de Dialogue Partner da Asean, um apoio que demonstra que a relação bilateral pode ter uma dimensão regional.
‘Agora é preciso transformar essa vontade em presença empresarial, cooperação e resultados para ambos os países’
A abertura das duas embaixadas mostra que existe vontade política. Agora é preciso transformar essa vontade em presença empresarial, cooperação e resultados para ambos os países.
Como ressaltou a embaixadora Vivian Loss Sanmartin, Brasil e Camboja têm espaço para trabalhar juntos em favor do desenvolvimento sustentável e da prosperidade compartilhada. O país também pode ser uma plataforma para exportação de produtos para outros mercados da região.
Talvez essa seja a melhor maneira de enxergar o momento atual: não como a chegada do Brasil a um mercado pronto, mas como a oportunidade de construir uma nova ponte.
E, em um mundo em que mercados, cadeias produtivas e alianças estão sendo redesenhados, diversificar não é apenas uma escolha econômica. É também uma estratégia de posicionamento internacional.
O Camboja pode ser uma dessas novas pontes. E justamente aí que a diplomacia econômica pode fazer a diferença.
Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.
Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional