14 setembro 2023

Cinco razões pelas quais Adam Smith continua sendo o economista britânico mais importante depois de 300 anos

Mesmo após três séculos de seu nascimento, Adam Smith segue sendo uma das figuras mais aclamadas da história. Para professora, o “pai da economia” carrega um legado controverso, uma carreira diversificada e um culto de seguidores que o mantém como o economista mais importante da Grã-Bretanha até os dias atuais

Mesmo após três séculos de seu nascimento, Adam Smith segue sendo uma das figuras mais aclamadas da história. Para professora, o “pai da economia” carrega um legado controverso, uma carreira diversificada e um culto de seguidores que o mantém como o economista mais importante da Grã-Bretanha até os dias atuais

A historical portrait painting of a man.
Retrato de Adam Smith por artista desconhecido (Foto: Scottish National Gallery)

Por Anna Plassart* 

O dia 5 de junho de 2023 marcou o 300º aniversário do nascimento de Adam Smith, o economista britânico do século XVIII amplamente aclamado como o pai da economia moderna.

Nascido em Kirkcaldy, na costa leste da Escócia, Smith estudou na Universidade de Glasgow e no Balliol College, em Oxford (o qual ele admirava pouco), antes de se tornar professor de filosofia moral em Glasgow. Era um homem quieto e despretensioso, que só viajou quando acompanhou um estudante em uma excursão pela Europa na década de 1760. Morreu em Edimburgo em 1790.

Apesar de ter tido uma vida sem intercorrências, Smith é considerado uma figura central do Iluminismo escocês. Seu livro A Riqueza das Nações, publicado em 1776, continua sendo um dos livros mais influentes já escritos – perdendo apenas para O Capital de Karl Marx que é a obra de economia clássica mais citada de todos os tempos.

‘Smith é muito mais do que o “pai da economia”. Ele foi um filósofo, um historiador e um teórico político’

Como mostra minha pesquisa, Smith é muito mais do que o “pai da economia”. Ele foi um filósofo, um historiador e um teórico político. Seu trabalho de vida foi dedicado a elaborar as consequências morais, sociais e políticas – boas e ruins – da economia capitalista e industrial emergente na Grã-Bretanha do final do século XVIII. Aqui estão cinco motivos pelos quais ele continua sendo o economista mais importante da Grã-Bretanha.

1. Ele inventou conceitos econômicos fundamentais

Entre os conceitos criados por Smith – ou que ele ajudou a popularizar – estão a produtividade, o livre comércio e a divisão do trabalho. Seu uso da “mão invisível” para descrever os mecanismos invisíveis que regulam a economia de mercado continua sendo uma metáfora central no pensamento econômico contemporâneo.

No século XIX, economistas inspirados por Smith, incluindo David Ricardo, lançaram as bases da economia como a disciplina que conhecemos hoje, formalizando o raciocínio econômico em linguagem matemática. A discussão inovadora de Smith sobre as regras de oferta e demanda antecipou o modelo econômico de equilíbrio geral. Sua teoria do crescimento econômico também inspirou economistas posteriores, como John Maynard Keynes, a desenvolver a noção de produto interno bruto.

2. Ele tem um culto de seguidores

Smith já era famoso em sua vida, mesmo antes de publicar A Riqueza das Nações. Como professor de filosofia moral na Universidade de Glasgow entre 1753 e 1763, sua reputação atraiu estudantes de lugares tão distantes quanto a Rússia.

‘No século XX, Adam Smith se tornou uma espécie de herói para os defensores do livre comércio’

Entretanto, no século XX, ele se tornou uma espécie de herói para os defensores do livre comércio. Um influente centro de estudos fundado na década de 1970, o Adam Smith Institute – dedicado à busca do liberalismo econômico – leva seu nome. E, como primeira-ministra, Margaret Thatcher supostamente carregava um exemplar de A Riqueza das Nações em sua bolsa.

Smith é amplamente celebrado – geralmente por pessoas que não leram todas as suas obras – como um profeta do individualismo e do neoliberalismo. As pessoas o veem como o homem que previu a ascensão do capitalismo industrial e forneceu argumentos definitivos contra a ideia de interferência do governo. Isso, no entanto, é uma caricatura de seus escritos.

A Riqueza das Nações não foi uma celebração do individualismo. Smith estava muito ciente dos perigos e das desvantagens do capitalismo desenfreado. Na verdade, ele argumentou que a intervenção governamental era necessária para manter as desigualdades econômicas sob controle. Ele também defendia o fim dos monopólios, a realização de obras públicas, como estradas e pontes, e a educação da classe média.

3. Ele foi o primeiro escocês a aparecer em uma cédula inglesa

‘Entre 2007 e 2020, Smith apareceu em cédulas de 20 libras’

Entre 2007 e 2020, Smith apareceu em cédulas de 20 libras . Ele era um escocês orgulhoso, um nativo de Kirkaldy que passou seus anos de formação em Glasgow.

Após a união da Escócia com a Inglaterra em 1707, Glasgow estava afirmando seu lugar como uma rica cidade de comerciantes. A cidade estava se beneficiando do acesso ao crescente império comercial da Grã-Bretanha e, na década de 1740, tornou-se o centro de uma próspera rede comercial com a América do Norte e o Caribe.

Na Universidade de Glasgow, Smith ensinou os filhos de ricos comerciantes de açúcar e tabaco e proprietários de plantações de escravos. Eles dominavam a política local, investiam seu dinheiro em transporte e em novos desenvolvimentos industriais e estavam reconstruindo Glasgow, transformando-a em uma imponente cidade de pedra.

4. Ele era um polímata

Em suas aulas em Glasgow, Smith lecionava sobre filosofia moral, uma disciplina ampla de humanidades que, na Escócia do século 18, incluía tópicos tão variados quanto moral, política, religião, economia, jurisprudência e história.

Ele reformulou algumas de suas palestras universitárias em um livro de sucesso, A Teoria dos Sentimentos Morais. Publicado em 1759, esse livro o tornou um nome conhecido em toda a Europa.

‘Smith acreditava que sua principal conquista foi ensinar aos jovens escoceses como viver uma vida boa e ética’

Hoje, o livro é lembrado principalmente por historiadores. Mas Smith acreditava que sua principal conquista foi ensinar aos jovens escoceses como viver uma vida boa e ética. Perto do fim de sua vida, ele escreveu ao reitor da Universidade de Glasgow que seus 13 anos como professor de filosofia moral tinham sido “o período mais feliz e honroso” de sua vida.

5. Seu legado é controverso

As teorias econômicas de Smith inspiraram uma longa linha de economistas de livre comércio, mas também influenciaram a crítica de Marx ao capitalismo. Marx admirava as tentativas de Smith de analisar os novos modos de produção que estavam surgindo no início da Grã-Bretanha industrial, bem como sua teoria inovadora de que a riqueza estava relacionada ao trabalho.

‘Smith teria ficado perplexo com as tentativas modernas de classificá-lo como de direita ou de esquerda. Ele estava apenas estudando o mundo em transformação no qual vivia’

Ainda hoje, o legado de Smith é reivindicado tanto pelos neoliberais (que enfatizam sua defesa do livre comércio) quanto pelos esquerdistas (que enfatizam suas opiniões sobre as armadilhas das economias capitalistas). Mas Smith teria ficado perplexo com as tentativas modernas de classificá-lo como de direita ou de esquerda. Ele estava apenas estudando o mundo em transformação no qual vivia: uma sociedade industrial primitiva que estava cada vez mais envolvida com o colonialismo e o comércio global. É hora de recuperar o legado de Smith dos economistas e celebrá-lo como um observador astuto da modernidade emergente da Europa.


*Anna Plassart é professora de história na Open University


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.

Tradução de Letícia Miranda


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original em https://theconversation.com/br

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