23 março 2026

Como Trump e a crise econômica mundial estão pressionando Cuba

Em novembro de 1994, desembarquei pela primeira vez em Havana. Em agosto daquele ano, ocorrera a chamada “Crise dos Balseros”, quando dezenas de milhares de cubanos, pressionados pelas condições difíceis de vida, se lançaram ao mar em direção a Miami. É importante lembrar que as sanções econômicas – ou o bloqueo económico, como fazem questão […]

Foto: Wikimedia Commons

Em novembro de 1994, desembarquei pela primeira vez em Havana. Em agosto daquele ano, ocorrera a chamada “Crise dos Balseros”, quando dezenas de milhares de cubanos, pressionados pelas condições difíceis de vida, se lançaram ao mar em direção a Miami. É importante lembrar que as sanções econômicas – ou o bloqueo económico, como fazem questão de assinalar os cubanos – eram responsáveis pela crítica situação econômica de então.

Apagões constantes, transporte precário, filas por alimentos básicos por meio da “libreta” (cartilha de suprimentos) que garantia o racionamento mínimo de consumo necessário para toda a população e uma inventividade cotidiana impressionante compunham o cenário do chamado “Período Especial em tempos de paz”. Estudos sobre a economia cubana estimam que, entre 1989 e meados dos anos 1990, o país perdeu cerca de 35% do seu PIB, uma contração comparável à de guerras ou grandes depressões.

Em julho de 1995, voltei à ilha para o meu segundo evento acadêmico e encontrei o mesmo país, mas com sinais discretos de adaptação: pequenos restaurantes familiares, mercados informais, circulação de dólares ao lado de uma moeda conversível – fenômenos registrados pela literatura como efeitos da legalização da moeda estrangeira em 1993 e da abertura inicial ao turismo e às joint ventures.

Hoje, três décadas depois do colapso da União Soviética, Cuba enfrenta outra encruzilhada histórica. Ecoando, em escala distinta, a pressão que marcou a invasão da Baía dos Porcos, agora sob a sombra de um presidente norte‑americano que fala abertamente em “tomar” a ilha.

Desde o seu retorno à Casa Branca, Donald Trump combina “pressão máxima” – reforço do embargo, novas sanções, restrições a viagens e remessas – com declarações sobre uma “friendly takeover” (“tomada amigável”) e mudança de regime como mera “questão de tempo”. Em janeiro de 2026, declarou “emergência nacional” em relação a Cuba e assinou uma ordem executiva que abre espaço para tarifas adicionais contra países que forneçam petróleo à ilha, ampliando o estrangulamento energético e financeiro.

Entre o Período Especial e a atual ofensiva de Trump, houve uma breve janela de distensão durante o governo Obama, com restabelecimento de relações diplomáticas, reabertura de embaixadas (2015) e uma histórica visita presidencial a Havana (2016), além de amplas flexibilizações em viagens e remessas. Mas, mesmo nesse período, o embargo permaneceu legalmente vigente e Washington deixou claro que via a expansão do setor privado cubano como instrumento de transformação gradual da ilha.

Cuba deixou de ser, há muito, a vitrine socialista clássica da Guerra Fria. O que está em gestação é a possibilidade de o país se tornar um “tubarão caribenho”, em analogia aos Tigres ou Dragões Asiáticos dos anos 1980 e 1990. Uma economia predominantemente capitalista, com forte presença de capital estrangeiro, sob a tutela de um Estado e de um partido único. Em outras palavras, uma versão tropicalizada do Vietnã – e potencialmente condicionada por um projeto norte‑americano de reabsorção tutelada.

Do Período Especial ao mercado controlado

Nesse contexto, surgiram as primeiras reformas de mercado em escala significativa. Em 1993, Havana legalizou a posse e o uso do dólar, ampliou a abertura ao turismo internacional e permitiu a criação de empresas mistas com capital estrangeiro, sobretudo no setor hoteleiro. Isso produziu uma economia segmentada em três circuitos: estatal, dolarizado e informal. Aquilo que observei nas ruas de Havana – pequenos negócios improvisados, como os famosos restaurantes paladares, redes de sobrevivência baseadas em remessas, mercados paralelos – era o laboratório social dessa transição.

Com Raúl Castro, esse processo foi reordenado sob o rótulo de “atualização do modelo econômico”. Entre 2010 e 2011, o governo anunciou a dispensa de cerca de 500 mil trabalhadores estatais e ampliou a lista de atividades permitidas para o trabalho autônomo, chegando a aproximadamente 178 ocupações para os cuentapropistas (autônomos).

Em paralelo, criou condições legais para pequenas e médias empresas privadas, concedeu terras em usufruto a agricultores e aprovou um novo marco para o investimento estrangeiro, com a Zona Especial de Desenvolvimento do Mariel como vitrine. O setor privado emergente passou a responder por considerável parte dos novos empregos, enquanto o setor estatal era “enxugado”.

Uma crise diferente da dos anos 1990

Quando se fala em risco de um novo Período Especial, é tentador traçar um paralelismo direto com os anos 1990. Há, de fato, pontos em comum: dificuldades de abastecimento, problemas energéticos, queda do poder de compra, desencanto com o futuro e uma nova onda de emigração. Mas a crise atual é qualitativamente distinta.

Primeiro, existe um setor privado que não havia naquela escala. Análises recentes estimam que, somando cuentapropistas, trabalhadores de mipymes (micro, pequenas e médias empresas privadas ou mistas criadas a partir da nova legislação econômica, principalmente depois de 2021) e agricultores privados, cerca de 1,6 milhão de pessoas estavam ocupadas no setor não estatal em 2025 – algo próximo de metade da força de trabalho.

Em 2024–2025, o setor privado teria ultrapassado o Estado nas vendas de varejo, respondendo por mais de 50% do comércio ao consumidor. A crise incide, assim, sobre uma economia muito mais dualizada, com um segmento privado dinâmico convivendo com um setor público ainda majoritário, mas em retração.

Segundo, a sociedade cubana está muito mais conectada. Reformas em telecomunicações e a expansão gradual do acesso à internet e às redes móveis abriram canais de circulação de informação que não existiam nos anos 1990, tornando protestos e mobilizações mais visíveis e difíceis de conter.

Terceiro, o ambiente externo mudou. A aliança com a Venezuela, que por anos forneceu petróleo em condições favorecidas e funcionou como “URSS tardia” para Cuba, entrou em declínio com a crise venezuelana e as sanções. Ao mesmo tempo, China, Rússia e atores europeus constroem presença em setores como infraestrutura, turismo e biotecnologia, vendo na ilha uma economia híbrida em transição.

Soma‑se a isso uma liderança norte‑americana que exibe um comportamento abertamente imperial, diante de uma oposição doméstica fragmentada e de uma reação internacional pouco efetiva.

Por fim, a pressão de Washington adquiriu um novo formato. Em janeiro de 2026, a Casa Branca declarou emergência nacional em relação a Cuba e estabeleceu um arcabouço de tarifas e sanções contra países que abasteçam a ilha com petróleo, ampliando o alcance extraterritorial do embargo.

Em discursos e entrevistas, Trump afirmou que seria “uma honra tomar Cuba” e que a mudança de regime é apenas “questão de tempo”, reeditando a lógica intervencionista no Caribe sob a retórica de “libertação” e oportunidades de negócios.

China do Caribe, Venezuela tutelada ou algo novo?

Uma hipótese plausível é a consolidação de um modelo de “socialismo de mercado” à la China ou Vietnã: partido único, forte controle político, abertura gradual e seletiva aos capitais estrangeiros, estímulo a um empresariado nacional alinhado ao Estado e prioridade para setores estratégicos como turismo, biotecnologia, logística, energia e serviços médicos.

Documentos oficiais da “atualização” e análises externas convergem na ideia de que Havana busca combinar disciplina política com pragmatismo econômico, atraindo alguns bilhões de dólares anuais em investimento direto.

Nesse cenário, a metáfora do “tubarão caribenho” ajuda a pensar a ilha como candidata a ator regional de peso. A posição geográfica entre América do Norte, Caribe e América Latina, o capital humano qualificado – sobretudo em saúde e educação – e a experiência em serviços médicos e biotecnologia são apontados como vantagens. O “tubarão” seria uma espécie de tigre asiático tropical: pequeno em escala demográfica, mas agressivo em nichos específicos da economia mundial.

Mas há obstáculos significativos. Cuba não dispõe da escala demográfica e do mercado interno da China; enfrenta baixa produtividade, escassez crônica de financiamento externo e vulnerabilidade a choques, especialmente em energia e alimentos. Em termos de sistema‑mundo, trata‑se de uma economia periférica tentando um “salto” dentro de uma estrutura ainda organizada a partir dos interesses das potências centrais, em especial os EUA.

Daí surge um segundo cenário, já esboçado pela própria administração Trump no caso venezuelano: o da reintegração “tutelada”. Na Venezuela, Washington combina pressão militar e judicial, flexibilização seletiva de sanções e reabertura para grandes empresas de energia, reorganizando o setor petroleiro sob forte condicionamento norte‑americano.

Em relação a Cuba, o roteiro guarda semelhanças: emergência nacional, ameaça de punir países que fornecem petróleo, intensificação do embargo e, em paralelo, o recado de que Havana poderia “evitar o pior” mediante devolução de propriedades, abertura ampla a capitais dos EUA e, em última instância, mudança de regime.

Imaginar Cuba como um “tubarão caribenho” significa, portanto, admitir que esse animal nadaria em águas mapeadas por Washington. O mesmo governo que hoje estrangula a economia com sanções energéticas e financeiras poderia, amanhã, apresentar‑se como arquiteto de uma “recuperação” baseada em privatizações, devolução de ativos a empresas norte‑americanas e conversão da ilha em plataforma de negócios sob sua proteção.

Por outro lado, não devemos esquecer que a estrutura político‑ideológica cubana não se assemelha em nada à venezuelana sob o ponto de vista da coesão. A atuação do Partido Comunista de Cuba não se deu de “cima para baixo” como em muitos regimes do Leste Europeu, por exemplo.

Não é uma ideologia artificial: até o presente momento, mesmo com as pressões dos EUA desde os anos 1960, o regime se manteve coeso e centralizado, com forte enraizamento social, nacionalismo intenso, um permanente “complexo de cerco” e a explicação das mazelas internas pelo bloqueio econômico. Porém, o cenário já não é tão favorável como antes.

Um tubarão cercado por redes

A trajetória das últimas três décadas sugere que Cuba possa caminhar para uma forma de pós‑comunismo em que a economia tende a tornar‑se predominantemente capitalista, com múltiplos atores privados e forte presença de investimento estrangeiro; o Estado e o partido buscam preservar o controle político; e a dependência externa se reconfigura, deslocando‑se de um outrora eixo soviético para uma constelação de capitais norte‑americanos, europeus e asiáticos.

Estatísticas recentes indicam queda do número de empregados públicos (de cerca de 3,1 milhões em 2019 para 2,7 milhões em 2023) e crescimento acelerado do setor privado, que já domina mais da metade das vendas no varejo.

A diferença, em relação aos anos 1990 que testemunhei em Havana, é que agora a transição interna ocorre sob a pressão explícita de um governo norte‑americano que não esconde ambições de expansão e mudança de regime. Quando Trump afirma que seria “uma honra tomar Cuba” e que o governo da ilha está “pronto para cair”, ele sinaliza, ao mesmo tempo, ameaça e oportunidade. Quanto mais a economia for empurrada ao limite, mais plausível se torna uma saída em que o “tubarão caribenho” surja como criatura de um arranjo negociado com Washington, e não apenas como produto das reformas iniciadas no Período Especial.

Se na Havana de 1994 e 1995 era desafiador imaginar um futuro de capitalismo administrado, hoje esse futuro se insinua em cada reforma econômica, em cada negociação com investidores e em cada protesto contra a escassez. Cuba já não é o que foi, mas tampouco é ainda aquilo que pode se tornar. A pergunta que resta é se será capaz de transformar a vulnerabilidade em impulso e emergir, de fato, como um tubarão caribenho – e a que custo social e político isso acontecerá.


Charles Pennaforte, Professor de Geopolítica, Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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