Crise política e diplomática com os EUA
O governo, a classe política e os empresários precisam entender qual o real desafio no cenário internacional e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado, e estratégias de médio e longo prazo

As relações bilaterais com os Estados Unidos se deterioraram desde o início do governo Trump, em especial, depois das restrições protecionistas globais com as sucessivas medidas do tarifaço e das investigações comerciais mais pesadas contra o Brasil.
A crise política e diplomática surgiu e tende a se intensificar com base em dois fatores: a prioridade (pela primeira vez na história) do Hemisfério Ocidental (América Latina) como área de influência da administração Trump e a interferência no processo eleitoral de outubro próximo. Além das medidas comerciais que afetaram o Brasil e provocaram reações em nível técnico e político do governo Lula, desde abril de 2025 até julho de 2026, começaram a surgir evidências de uma crise política e diplomática que está sendo gradualmente agravada pelo componente ideológico dos dois lados.
‘A Lei de Segurança Nacional dos EUA estabelece que os países da região devem escolher se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos ou em um mundo paralelo’
A Lei de Segurança Nacional dos EUA estabelece que “a escolha que todos os países da região devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos, com países soberanos e economias livres, ou em um mundo paralelo no qual são influenciados por países do outro lado do mundo. Recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que estejam amplamente alinhados com nossos princípios e estratégia. Mas não devemos ignorar governos com perspectivas diferentes, com os quais, ainda assim, compartilhamos interesses, e que desejam trabalhar conosco”.
A preocupação com a China está presente quando o documento acentua que “qualquer tipo de ajuda dos EUA deve estar condicionado à redução gradual da influência externa adversária – instalações militares, portos, infraestrutura e mesmo aquisição de ativos estratégicos, entre outros”.
‘A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo secretário da Guerra)’
A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo secretário da Guerra). O Corolário Trump da Doutrina Monroe cria grandes desafios para a política externa do PT, levando em conta a dependência comercial da China e o forte viés antiamericano expresso pelos governos Lula e Dilma, ao longo dos 20 anos em que o partido ocupou o poder.
Por outro lado, essas medidas são influenciadas por motivações ideológicas prevalentes no Departamento de Estado contra governos de esquerda, como Cuba, Nicarágua, Venezuela e agora inclusive o Brasil, considerados países “não amigos dos EUA”, no dizer de Marco Rubio.
Em um ano e meio, houve significativos avanços e crescente influência do governo Trump na região: no Panamá, na Venezuela, na Argentina, em Cuba, no combate à imigração ilegal e ao crime organizado, nas eleições presidenciais, nas propostas de criação de um grupo para minérios estratégicos e do Escudo das Américas.
‘O Brasil foi o único país a criticar e a não aceitar pressão para zerar as tarifas para bens industriais, químicos e automotriz e a questionar o tarifaço na OMC’
O Brasil foi o único país a criticar e a não aceitar pressão para zerar as tarifas para bens industriais, químicos e automotriz e a questionar o tarifaço na OMC. O governo brasileiro colocou-se contra a classificação de grupos criminosos como terroristas e não está representado no grupo sobre minérios, nem no Escudo das Américas, nem no Conselho de Paz.
Em artigo do último dia 26 no Washington Post, Lula foi duro e direto ao afirmar que “dividir o mundo em áreas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos. Ninguém vai nos derrotar por mentiras (acusação de que o Brasil estava espionando o espaço em favor da China e outras relacionadas com o tarifaço). A América Latina não precisa de porta-aviões patrulhando suas águas, nem de tarifas punitivas”.
‘O segundo fator da crise – a interferência externa nas eleições presidenciais – está escalando gradualmente’
O segundo fator da crise – a interferência externa nas eleições presidenciais – está escalando gradualmente, como parte da missão atribuída por Trump ao secretário de Estado, Marco Rubio, de redesenhar politicamente e ideologicamente a região.
A escalada retórica entre os dois governos começou com a postagem de Rubio afirmando que “as tarifas foram decididas como forma de retaliação ao governo Lula” e que “o Brasil não estava negociando de boa fé com os EUA e que Lula colocou seu próprio ego a frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”. E a resposta de Mauro Vieira rechaçando o “ataque de forma grosseira e arrogante contra um chefe de Estado de um país amigo e afirmando que o Brasil não vai se curvar às pretensões desmedidas e demandas irrazoáveis”.
O atrito continuou com uma série de declarações de confronto. O desafio público do presidente para que Rubio crie um comitê para apoiar Flávio Bolsonaro foi respondido em Nota do Departamento de Estado em que reafirma “o interesse histórico e global dos EUA na liberdade de expressão e na integridade dos processos democráticos em todo o mundo, inclusive no Brasil”.
A declaração de Vieira de que a classificação dos grupos criminosos como terroristas abriria caminho para o uso da força militar norte-americana no Brasil, recebeu resposta imediata do Departamento de Estado considerando “absurda” essa declaração.
Ao prorrogar tarifa de 50% (sem efeito prático), com base na legislação suspensa pela Suprema Corte, Trump disse que “o Brasil interferiu na economia dos EUA, violou a livre expressão de cidadãos norte-americanos e minam os interesses dos EUA em proteger seus cidadãos e empresas”.
‘Caso o governo brasileiro decida aplicar a lei de reciprocidade e eventuais retaliações às tarifas, a reação de Washington poderá escalar rápida e violentamente’
Caso o governo brasileiro decida aplicar a lei de reciprocidade e eventuais retaliações às tarifas, a reação de Washington poderá escalar rápida e violentamente, como ocorreu com o Canadá, com consequências imprevisíveis para a economia interna e a relação política e diplomática.
A escalada continuou com a negação de visto para o assessor de Trump e para dois altos funcionários do Departamento de Estado que viriam ao Brasil para questionar o sistema eleitoral brasileiro, segundo o Washington Post, o que foi negado oficialmente pelo Departamento de Estado.
‘A forma como ocorreu a designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, aliado de Trump é mais um ato ideológico do Departamento de Estado’
A forma como ocorreu a designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, aliado de Trump é mais um ato ideológico do Departamento de Estado. Anunciado e sabatinado pelo Senado dos EUA, antes do pedido de agrément ao governo brasileiro, a concessão do agrément deverá ocorrer somente depois das eleições. No dia 3, práticas diplomáticas foram mais uma escalada na crise.
Em nota do Departamento de Estado foi explicado que o visto da embaixadora do Brasil em Washington foi revogado em razão da demora na concessão do agrément para o novo embaixador dos EUA e o cancelamento de vistos de três altos funcionários norte-americanos.
Em resposta o Planalto emitiu dura nota chamando de faltas as alegações de Washington e Lula, de irresponsáveis, em mais uma escalada da crise. A confirmação por Lula de que o agrément ao embaixador não vai ser concedido antes das eleições pelo receio de interferência no processo eleitoral deverá agravar as tensões bilaterais com novas retaliações contra o Brasil.
‘A influência ideológica e partidária de todos os lados na política externa está apresentando soluções inusitadas, quebrando séculos de práticas diplomáticas’
Uma coisa não se pode ignorar, a influência ideológica e partidária de todos os lados na política externa está apresentando soluções inusitadas, quebrando séculos de práticas diplomáticas. Com o crescente afastamento dos diplomatas dos centros de decisões é de esperar-se novas e criativas soluções para tornar ainda mais inesperadas as crises políticas e diplomáticas.
Noticia-se que Lula está buscando conversa telefônica direta com Trump para tratar da convocação de encontro dos líderes das principais potências para a busca de uma saída para os conflitos atuais. Nesse sentido, já teria falado com Putin e com Xi. Mais uma vez em busca de protagonismo, se a conversa ocorrer, como será tratada a crise bilateral?
O telefonema de Lula a Xi Jinping no domingo, 26 de julho, e o apoio público do governo de Pequim contra ingerência externa no Brasil reforçam a percepção de Washington da crescente influência chinesa.
‘A questão crítica em jogo para o país, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica’
A questão crítica em jogo para o país, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica. O governo, a classe política e os empresários precisam entender qual o real desafio no cenário internacional e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado, e estratégias de médio e longo prazo.
Se isso não for feito, o Brasil continuará a reboque da história, administrando as influências externas, sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas, tecnológicas em curso e sujeito a crescentes pressões de Washington no contexto da política de área de influência sobre a América Latina. Dependendo do resultado da eleição presidencial, ficará decidido o próprio conceito de soberania e interesse nacional.
Em outra frente, em nova decisão inovadora na diplomacia, o Brasil decidiu unilateralmente ”rebaixar” suas relações com a Argentina e nesse sentido ainda pediu que o embaixador argentino volte para casa enquanto o representante brasileiro em Buenos Aires permanecer no Brasil.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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