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31 julho 2026

Crises políticas e diplomáticas

No meio de relações econômicas e comerciais difíceis, nos últimos anos, com a Argentina e os EUA, recentemente, surgiu um fato novo na política externa brasileira, representado pelo desafio de crises políticas e diplomáticas geradas por interferências desses países nas eleições presidenciais brasileiras em outubro próximo. O Brasil está em meio a uma crise política […]

Foto: PR

No meio de relações econômicas e comerciais difíceis, nos últimos anos, com a Argentina e os EUA, recentemente, surgiu um fato novo na política externa brasileira, representado pelo desafio de crises políticas e diplomáticas geradas por interferências desses países nas eleições presidenciais brasileiras em outubro próximo.

O Brasil está em meio a uma crise política sem precedentes com a Argentina e com os EUA. No meio da semana, declarações de Lula abriram uma nova crise política também com o Paraguai. No editorial desta semana, vou tratar da crise política e diplomática com o governo de Javier Milei e com o Paraguai e na próxima semana focarei a crise com o governo de Donald Trump.

Por diferenças ideológicas, o presidente Lula não foi à posse de Milei e não se comunica com sua contraparte argentina desde então (o mesmo ocorreu entre os presidentes Bolsonaro e Alberto Fernández). Posições antagônicas em relação ao Mercosul e aos EUA ampliaram as diferenças entre os dois governos, sem precedentes nas últimas décadas, mesmo levando em conta as sérias disputas sobre os rios compartilhados e Itaipu nas décadas de  1960 e 70.

A crise sofreu uma rápida escalada com a visita do chefe de estado argentino ao Brasil para participar da convenção do PL que lançou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República. Antes da convenção, foi feito pedido ao STF para Milei visitar Bolsonaro na prisão domiciliar (a exemplo do que fez Lula com Cristina Kirchner em Buenos Aires), mas a solicitação foi negada pela justiça brasileira. 

‘Milei fez discurso pouco presidenciável em que chamou Lula de ex-presidiário, ladrão e lixo socialista, atacou o governo brasileiro, que acusou de financiar campanha contra a Argentina’

Na convenção, em total alinhamento com Trump, Milei fez discurso pouco presidenciável em que chamou Lula de ex-presidiário, ladrão e lixo socialista, atacou o governo brasileiro, que acusou de financiar campanha contra a Argentina, e o ministro Alexandre de Moraes, classificado de lixo careca. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, recebeu Milei no Palácio dos Bandeirantes com pompa e circunstância, reservadas aos chefes de Estado, tendo o Itamaraty proibido a presença de diplomatas do Escritório de Representação da Chancelaria na capital paulista.

Em nota, o Itamaraty respondeu Milei de forma firme, mas contida, referindo-se ao fato de que não há precedente quanto a forma e a violência da agressão do presidente argentino em território nacional. Como seria de esperar, o embaixador do Brasil em Buenos Aires foi chamado para consultas, e o representante argentino em Brasília foi convocado para ouvir dura reprimenda do ministro Mauro Vieira. Declarações inapropriadas de parte do ministro da Fazenda (“palhaço”) e de Boulos (“puxa saco de Trump”) não foram apoiadas pelo Itamaraty e receberam discretas críticas da Chancelaria. 

‘Políticos argentinos manifestaram indignação contra os ataques de Milei’

Políticos argentinos manifestaram indignação contra os ataques de Milei. Kicillof, governador de Buenos Aires, telefonou para Vieira para condenar as grosserias presidenciais e uma deputada argentina enviou longa carta a Vieira criticando Milei e pedindo desculpas em nome do povo argentino. 

O governo Milei ainda voltou à carga, acusando o Brasil, junto com o México e o Partido Democrata dos EUA de financiarem campanha contra a Argentina. O ministro do Exterior argentino se pronunciou dizendo que não haveria rompimento de relações, que o governo quer reduzir a crise e que esperava que o embaixador brasileiro em Buenos Aires pudesse retornar ao posto o mais breve possível.

‘A tendência é que a mais grave crise entre os dois maiores países da América Sul seja superada, no melhor interesse dos dois países’

Não é de esperar que o presidente argentino peça desculpas pelo ocorrido, nem que Lula se pronuncie em resposta a Milei. Por outro lado, o governo brasileiro não deverá estimular uma escalada na crise política e diplomática para não agravar o relacionamento comercial entre os dois países. Ao contrário, segundo fontes do Planalto, o governo quer dar o caso por encerrado. O embaixador Júlio Bitelli deverá voltar em breve a Buenos Aires, na expectativa de que a temperatura vai baixar. A tendência é que a mais grave crise entre os dois maiores países da América Sul seja superada, no melhor interesse dos dois países.

Por outro lado, o presidente Lula, em mais um de seus discursos de improviso, tocou em tema que nenhum presidente deveria tratar em público. A possibilidade de seu país ser invadido por outro. Ao referir-se a essa possibilidade “quando um ou outro país resolve invadir o Brasil”, Lula mencionou a invasão do Brasil pelo Paraguai em 1865 que resultou na “maldita guerra”, que tanto afetou os países envolvidos, em especial o Paraguai. 

A declaração de Lula e a imediata reação das autoridades paraguaias abriram uma crise política e diplomática sem nenhuma razão de ser. O vice-presidente do Paraguai, o Congresso e outros políticos reagiram com indignação. O presidente da Câmara disse que Lula falou “com demasiada leveza sobre a maior tragédia da nossa história e o maior genocídio de nosso continente”. Deputados e senadores publicaram nota de repúdio às declarações “grosseiramente distorcidas” e “politicamente incorretas” de Lula e o vice-presidente solicitou a devolução pelo Brasil de arquivos e relíquias históricas paraguaias como um gesto para ajudar a reparar o passado.

O embaixador do Brasil em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho foi convocado pelo governo paraguaio e será recebido hoje pelo vice-presidente. 

Até o final de ontem, o embaixador do Paraguai em Brasília não havia sido chamado para consultas pelo governo de Assunção. Segundo o chanceler paraguaio, o presidente Lula conversou por telefone com o presidente Peña sobre o assunto por telefone, em um gesto para reduzir a crise.

Mais um desafio para a política externa e para o Itamaraty. A série de crises políticas e diplomáticas acontecem em pleno momento pré-eleitoral quando tudo pode acontecer. Vamos aguardar os próximos acontecimentos no relacionamento do Brasil com a Argentina e com o Paraguai.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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