09 março 2023

Daniel Buarque: Brasil fica cada vez mais longe de ser uma potência global de soft power – mas isso não precisa ser um problema

Novo índice indica queda do país em ranking global de ‘marcas’ nacionais e mostra que crença na construção de um papel relevante pelo ‘poder brando’ e pela imagem internacional pode ter sido uma ilusão. Diagnóstico pode ajudar país a construir estratégias mais eficazes de projeção global a partir dos seus pontos fortes, como a diplomacia […]

Novo índice indica queda do país em ranking global de ‘marcas’ nacionais e mostra que crença na construção de um papel relevante pelo ‘poder brando’ e pela imagem internacional pode ter sido uma ilusão. Diagnóstico pode ajudar país a construir estratégias mais eficazes de projeção global a partir dos seus pontos fortes, como a diplomacia ambiental e a liderança regional

Capa do relatório sobre soft power de diferentes países do mundo (Foto: GSPI)

Por Daniel Buarque*

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva ajudou a melhorar a imagem do Brasil projetada na imprensa internacional, e a retomada do ativismo da política externa brasileira, especialmente pela diplomacia ambiental, tem o potencial de começar a desfazer estragos deixados pelo governo de Jair Bolsonaro para o status internacional do Brasil. Ainda assim, o país dificilmente vai conseguir reverter no curto prazo uma tendência de quase uma década de perda de prestígio internacional da sua imagem. Ao contrário do que se acreditou por muitos anos, o Brasil está cada vez mais longe de ser uma potência global de soft power e precisa entender isso para reconstruir seu lugar no mundo de forma eficaz.

A mais recente evidência da perda de prestígio foi publicada na última semana. Segundo o Global Soft Power Index (GSPI), o Brasil caiu três posições em ranking global de “poder brando”, ficou em 31º lugar e deixou de fazer parte do grupo dos 30 países mais influentes do mundo. O dado faz parte de estudo da consultoria Brand Finance baseado em pesquisa sobre percepções de marcas nacionais, resultado da análise de opiniões de mais de 100 mil entrevistados em todo o mundo sobre 121 países. 

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Segundo o relatório publicado neste mês, a nota geral do Brasil até melhorou em relação ao ano passado, mas o “ambiente político volátil” ganhou cobertura mundial e claramente afetou sua posição no ranking. Isso graças à postura política de Bolsonaro e mesmo ao ataque contra os prédios dos Três Poderes em Brasília em 8 de janeiro.

A descrição do que levou à piora do país no ranking confirma uma tendência iniciada pelo menos seis anos antes, quando a imagem do país foi afetada pela série de crises econômicas e políticas desde a segunda metade dos anos 2010. Até então, o país costumava aparecer em torno do 20º lugar na maioria dos índices que mediam a sua “marca” no mundo, mas 2017 marcou o início dos rebaixamentos dessa avaliação de imagem. A partir dali, o país foi perdendo posições nos índices, passando a se classificar uma dezena de lugares abaixo do que era antes, como o 31º lugar mostrado pelo GSPI. 

‘O Brasil tem uma imagem familiar e é o 12º entre os países mais reconhecidos. Entretanto, pontua significativamente abaixo da média global no quesito Governança, classificado em 86º lugar globalmente’

Outro ponto marcante da avaliação recente da “marca” do Brasil é o detalhamento sobre como o país é percebido pelo resto do mundo. Segundo o GSPI, o Brasil tem uma imagem familiar e é o 12º entre os países mais reconhecidos. Entretanto, pontua significativamente abaixo da média global no quesito Governança, classificado em 86º lugar globalmente por conta da imagem em relação a ética, corrupção, segurança e estabilidade política. As melhores avaliações sobre o país aparecem no quesito Cultura e Patrimônio, no qual ocupa a 9ª posição. “Os brasileiros são vistos como os ‘líderes em esportes’ do mundo e mais ‘divertidos’ do que qualquer outra nação globalmente”, diz.

Esta visão reforça uma tendência problemática para um país que quer ter um papel relevante na política global a partir do soft power. Ela reitera uma avaliação crescente de que este soft power brasileiro medido por índices de imagem internacional tendem a valorizar apenas aspectos “leves” da percepção do país. Em artigo acadêmico que analisava como o país era retratado por esses estudos globais de “marca”, indiquei que isso era o equivalente a não ser visto como um país sério, já que ele só era bem avaliado em termos de cultura e lazer, tendo uma marca muito fraca em aspectos mais sérios, como política e economia.

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No geral, a tendência que se pode perceber em relação à forma como o Brasil é visto no exterior mostra uma piora marcante. Na virada da primeira para a segunda década do século XXI, tudo indicava que o Brasil caminhava a passos largos para se consolidar como uma importante potência internacional. A estabilidade econômica, o desenvolvimento de políticas contra a desigualdade e o ativismo da política externa levavam a uma melhora da imagem do país, que era reconhecido de forma crescente como um ator de peso no mundo. É dessa época a capa da revista Economist com o cristo redentor decolando, bem como livros e edições especiais da mídia sobre a ascensão do país e mesmo teses de doutorado sobre sua potência de soft power. 

De lá para cá, mudou o contexto global e mudou a situação do Brasil. Indo além das crises que levaram à queda do país nos diferentes rankings, pode-se perceber que havia ilusão nessas interpretações otimistas sobre a “emergência” do Brasil via soft power.

Em primeiro lugar, pode-se questionar a própria ideia de análise sobre “poder brando” e “marcas” nacionais. Baseada em trabalhos originais como o de Joseph Nye, a pesquisa do GSPI define soft power como “a capacidade de uma nação de influenciar as preferências e comportamentos de vários atores na arena internacional por meio de atração ou persuasão, em vez de coerção”. Vale destacar, entretanto, que este conceito perdeu o prestígio que poderia ter na academia e passou a ser duramente criticado como sendo vazio e sem relevância por alguns dos pesquisadores mais respeitados do mundo. Por mais que de fato seja importante influenciar por persuasão em vez de coerção, as formas usadas para medir isso acabam mais presas a questões de “marketing” ligadas somente à imagem dos países.

‘A ideia de que o Brasil era uma potência de soft power era uma miragem’

Indo além do conceito em si, o diplomata Hayle Melim Gadelha tem demonstrado que os dados sempre mostraram que a ideia de que o Brasil era uma potência de soft power era uma miragem. “Não há evidências de que o Brasil seja uma potência de soft power como nós acreditamos”, avaliou, em entrevista à Interesse Nacional

“O Brasil tem o quinto território do planeta, a sexta população, é a décima segunda economia e, na área militar, estamos na décima posição mundial. Somos uma potência em vários desses recursos tradicionais de poder, enquanto que os rankings que avaliam o soft power vão na direção oposta. A gente sequer se encontra entre os 20 principais”, explicou.

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Este novo contexto pode parecer assustador, mas abre importantes oportunidades. Por um lado, essa piora das avaliações de imagem deve acender um alerta e pode ajudar o Brasil a desenvolver estratégias de diplomacia pública para melhorar a projeção internacional. Entender essa mudança de contexto também pode ser um bom caminho para o país reconstruir seu lugar no mundo após os quatro anos de governo Bolsonaro.

Trata-se de uma ótima oportunidade para deixar de lado ilusões sobre o soft power do país, abandonar os conceitos de “marketing” de nações e construir a credibilidade do Brasil no mundo a partir de políticas que valorizem mais do que estereótipos de imagem e que usem pontos fortes do país para buscar reconhecimento global. Este é o caso da diplomacia ambiental, por exemplo, mas também da construção de uma liderança regional, da valorização do multilateralismo, da posição pacífica do país e da mediação de conflitos. O importante é que o país se envolva com o resto do mundo e atue de forma construtiva para não ser apenas um ator familiar na política internacional, mas uma nação com credibilidade e reconhecimento globais.


*Daniel Buarque é colunista e editor-executivo do portal Interesse Nacional, doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. É jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor dos livros “Brazil, um país do presente” (Alameda) e “O Brazil É um País Sério?” (Pioneira).


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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