15 julho 2022

Diplomacia culinária coloca alimentos no centro das relações entre nações e poderia ajudar até a resolver conflito na Ucrânia

Ao combinar a comida com estratégias de nation branding, a diplomacia cultural pode ajudar a aproximar culturas e romper barreiras entre nações, em entrevista, as pesquisadoras Keri e Kelsi Matwick explicam como a alimentação pode se tornar um símbolo nacional e uma forma de unificar as pessoas

Ao combinar a comida com estratégias de nation branding, a diplomacia cultural pode ajudar a aproximar culturas e romper barreiras entre nações. Em entrevista, as pesquisadoras Keri e Kelsi Matwick explicam como a alimentação pode se tornar um símbolo nacional e uma forma de unificar as pessoas

O ditador norte-coreano Kim Jong-un e o presidente norte-americano Donald Trump fazem refeição juntos durante encontro diplomático (Divulgação)

Para além da destruição direta causada pelo conflito entre os dois países, a crise de inflação e falta de alimentos tem sido um dos efeitos mais impactantes da guerra entre a Rússia e a Ucrânia em todo o mundo. Apesar de ser usada como arma geopolítica, a  comida também pode se tornar um trunfo para negociações diplomáticas entre países e levar até mesmo à resolução de conflitos.

Ao combinar a diplomacia pública, comidas e estratégias de nation branding, a diplomacia alimentar pode tornar a cultura de um país tangível e relacionável a outros, explicam as pesquisadoras Keri e Kelsi Matwick. Segundo elas, a comida pode se tornar um símbolo nacional e uma forma de unificar as pessoas. “A diplomacia culinária poderia desempenhar um papel no fim da guerra na Ucrânia usando a comida como instrumento para promover a compreensão intercultural”, explicaram elas, em entrevista à Interesse Nacional.

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Keri e Kelsi são gêmeas idênticas e vivem em Singapura, onde realizam pesquisas juntas. Keri é professora da Nanyang Technological University. Sociolinguista, ela estuda temas ligados à alimentação e à linguagem, com abordagem multidisciplinar e foco específico em discursos relacionados à comida. Já Kelsi é professora de escrita acadêmica na University Writing Program e escrita gastronômica na University of Florida. 

Juntas, elas publicaram recentemente o artigo acadêmico Trump-Kim 2018 Singapore Summit and culinary diplomacy: the role of food and symbols in international relations, em que abordam a importância da comida no encontro entre o presidente norte-americano Donald Trump e o ditador norte-coreano Kim Jong Un, em 2018. No texto, elas argumentam que refeições em cúpulas de chefes de Estado celebram a comensalidade e oferecem um ambiente para que líderes negociem acordos e suavizem suas diferenças.

Na entrevista, elas explicam como a diplomacia culinária poderia ser usada até mesmo pelo Brasil como um instrumento de soft power para promover a imagem do país no exterior.

Leia abaixo a entrevista completa.

Daniel Buarque – Seu artigo recente sugere que uma mesa de jantar pode superar a mesa de conferência para iniciar uma conversa diplomática, especialmente entre inimigos. Pode explicar melhor? Qual é a importância da comida para as relações diplomáticas e da diplomacia culinária?

Keri Matwick e Kelsi Matwick – A diplomacia culinária é uma forma de diplomacia pública que combina diplomacia culinária e nation branding para tornar a cultura de um país tangível e relacionável a outros. Ela apresenta nações estrangeiras através dos alimentos, que são um meio acessível, seja como ingrediente, prato, refeição, técnica de cozimento ou até mesmo equipamento de cozinha. Ela oferece aos líderes políticos e embaixadores uma maneira de representar sua nação e interagir com outras nações a partir dos espaços que desarmam, como um restaurante, café, bar, barraca de comida ou mesmo a casa.

‘A comida pode funcionar como uma maneira não ameaçadora de ganhar favores e fazer conexões com um público estrangeiro’

A diplomacia culinária procura construir sobre o terreno comum e a experiência universal da comida, aprofundando a compreensão das relações diplomáticas através do uso do gosto. A comida pode funcionar como uma maneira não ameaçadora de ganhar favores e fazer conexões com um público estrangeiro. O público tem uma probabilidade maior de se relacionar com as relações diplomáticas quando introduzido através da culinária, criando assim ganhos políticos e econômicos para os países envolvidos na diplomacia culinária.

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 Daniel Buarque – Em um artigo recente, vocês analisaram a influência da alimentação no encontro entre Trump e Kim Jong-un. Qual foi a influência da comida na primeira vez que um presidente americano e um líder norte-coreano se encontraram em décadas?

Keri Matwick e Kelsi Matwick – A influência da alimentação é visível através da postura positiva dos cidadãos de Singapura, que contribuíram para o acolhimento dos dois chefes de Estado estrangeiros. Restaurantes e empresas ofereceram comidas e bebidas temáticas, combinando influências americanas e coreanas em homenagem ao evento histórico. O hotel Royal Plaza on Scotts serviu um Trump-Kim Burger grelhado feito de frango picado, algas marinhas e hambúrguer de kimchi com pãezinhos de arroz coreanos e batatas fritas. Até o nasi lemak, favorito local, um prato de arroz com infusão de pimenta tradicionalmente consumido no café da manhã, foi oferecido com um toque especial: carne maturada com arroz basmati, sambal e kimchi, e servido em uma tigela com hachis -um símbolo da cultura asiática para marcar a reunião dos EUA e da Coreia do Norte em Singapura. Muitas lojas de presentes vendiam acessórios e recordações com o tema Trump-Kim.

‘A alimentação fornece uma maneira para a nação anfitriã participar da diplomacia pública em nível local com os cidadãos e em nível global’

Além disso, o papel de Singapura como mediador também se tornou uma oportunidade para a nação insular ser reconhecida globalmente como uma ponte entre o Leste e o Oeste com sua postura neutra e capacidade de fornecer segurança e a infraestrutura necessária para sediar um evento de alto nível. Como resultado, o papel da alimentação fornece uma maneira para a nação anfitriã participar da diplomacia pública em nível local com os cidadãos e em nível global.

Daniel Buarque – Sua análise se concentra na Cúpula Trump-Kim 2018, que envolveu duas culturas muito diferentes. Expandindo a discussão para o atual conflito na Europa. Você acha que a diplomacia culinária poderia desempenhar algum papel nas negociações para acabar com a guerra na Ucrânia –especialmente considerando que a comida ucraniana compartilha muitas semelhanças com a Rússia?

Keri Matwick e Kelsi Matwick – Durante o conflito, os alimentos podem ser usados ​​como arma para controlar a produção e o abastecimento de alimentos. A falta de recursos enfraquece um país economicamente, politicamente e nutricionalmente. A agitação civil pode irromper devido à fome e desnutrição e baixa moral.

Mas também, durante o conflito, a comida pode se tornar um símbolo nacional e uma forma de unificar as pessoas. O nacionalismo culinário é quando o orgulho da culinária de alguém é transferido para a própria nação. Esse nacionalismo culinário pode se tornar particularmente saliente quando ameaçado, como agora com a Ucrânia. Os indivíduos podem exercer seu senso de identidade e negociar sua própria ideia de o que a nação deveria ser (ou o que eles querem que ela seja) pela comida que cozinham e comem. Ao cozinhar e comer pratos ucranianos, os cidadãos expressam e incorporam sua etnia e sua cultura.

‘A diplomacia culinária poderia desempenhar um papel no fim da guerra na Ucrânia usando a comida como instrumento para promover a compreensão intercultural’

A diplomacia culinária poderia desempenhar um papel no fim da guerra na Ucrânia usando a comida como instrumento para promover a compreensão intercultural. No caso da Ucrânia e da Rússia, existem muitas tradições alimentares compartilhadas, então a comida pode ser usada para enfatizar as semelhanças. Por exemplo, tanto a Ucrânia quanto a Rússia oferecem pão aos hóspedes como sinal de hospitalidade, uma tradição compartilhada que simboliza cordialidade e generosidade. Ao mesmo tempo, as diferenças em suas cozinhas podem ser ainda mais escrutinadas e usadas para afirmar a identidade única de cada nacionalidade.

Daniel Buarque – Indo além das reuniões diplomáticas de alto escalão, gostaria de saber se você poderia falar sobre a importância da comida na diplomacia pública e como fonte de soft power. Como a comida pode ajudar um país a ganhar influência no mundo?

Keri Matwick e Kelsi Matwick – A gastrodiplomacia oferece alavancagem socioeconômica, política e cultural, um ponto de vista que pode ser particularmente estratégico para potências médias emergentes como o Brasil. Estudiosos notaram que o Brasil é diferente de outros países, como China e Índia, na medida em que sua política externa não se baseia em força militar e ameaças diretas, mas se concentra em coalizões com outros Estados. Para o Brasil, a alimentação seria uma extensão natural de sua postura histórica de política externa usando ‘soft power’, um termo originalmente cunhado pelo cientista político Joseph Nye.

Daniel Buarque – Ao acompanhar menções sobre o Brasil na mídia internacional, é muito comum ler artigos sobre restaurantes brasileiros e comidas brasileiras ganhando atenção em todo o mundo. Isso pode ser visto como um meio de projetar uma imagem positiva no exterior e ganhar reconhecimento e soft power? Esse tipo de esforço deve ser apoiado pelo governo?

Keri Matwick e Kelsi Matwick – Uma imagem positiva da comida brasileira no mundo pode ajudar a fomentar o patriotismo e unificar a nação. Usar a mídia para projetar o Brasil como destino culinário ou inspiração culinária é um meio eficaz e um investimento que vale a pena.

Jair Bolsonaro se reúne com conselheiro de Segurança Nacional dos EUA John Bolton após a eleição de 2018 no Brasil (Divulgação)

Daniel Buarque – O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, se inspirou em Trump e se orgulha de gostos simples e de não participar de refeições com alimentos que não conhece. Em uma viagem ao Japão, por exemplo, ele preferiu comer macarrão instantâneo semelhante ao que come no Brasil. Pouco depois de sua eleição, ele organizou uma reunião com um representante dos EUA em uma mesa caótica de café da manhã em sua casa e costuma servir pão com leite condensado (algo que não é um alimento básico ou tradição nacional). Esses comportamentos podem ser entendidos como erros diplomáticos?

Keri Matwick e Kelsi Matwick – As escolhas alimentares dos líderes políticos têm implicações mais amplas do que apenas suas preferências pessoais, mas também das pessoas e da nação que eles representam. A aceitação ou rejeição da comida do país anfitrião pode simbolizar a rejeição da cultura e dos valores do anfitrião. Também pode ser visto como uma violação das boas maneiras à mesa e das regras sociais.

‘As escolhas alimentares dos líderes políticos têm implicações mais amplas do que apenas suas preferências pessoai’

No caso do presidente brasileiro servir um café da manhã não tradicional a um enviado dos EUA, o contexto precisa ser considerado. Como o café da manhã foi servido na casa particular do presidente, ele pode ter pretendido oferecer as boas-vindas mais calorosas e íntimas possíveis. O acesso à sua vida familiar e às suas tradições, como pão com leite condensado, pode ter a intenção de envolver o enviado dos EUA na família. Um dos principais objetivos da diplomacia culinária é fomentar o relacionamento entre os líderes para que os acordos possam ser feitos. Se a informalidade do café da manhã em família favoreceu isso, talvez não tenha sido um erro diplomático. Além disso, se o café da manhã tivesse sido em um ambiente mais formal, ou seja, a cozinha presidencial, ou em um restaurante público, ou seja, um café brasileiro, então servir um café da manhã tradicional brasileiro teria sido mais apropriado.

Daniel Buarque – Vocês moram em Singapura e há muito tempo escrevem sobre a linguagem da comida em outros contextos. É interessante que Singapura parece ter sido bem-sucedida em se destacar como uma meca culinária, e os programas de culinária na TV ajudaram a construir isso. Quão importante você acha que a comida é para projetar Singapura globalmente?

Keri Matwick e Kelsi Matwick – A comida é importante para Singapura, pois a comida se tornou axiomática da identidade de Singapura como uma nação de gourmets. A comida é um tópico popular de discussão, e as modas alimentares são frequentes, com entusiasmo recente sobre alimentos à base de plantas, como nuggets sem frango e leites alternativos, como leite de batata, o leite de batatas cozidas.


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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