Dívida pública e o fraco crescimento brasileiro
Responsabilidade fiscal não é uma abstração econômica. É responsabilidade sobre o dinheiro dos outros e sobre as gerações que pagarão a dívida criada hoje. Onde falta responsabilidade, falta caráter.

Vencemos a hiperinflação dos tempos dos militares, Sarney e Collor por meio dos artifícios do Plano Real. Foi matéria de festividade o aniversário de seus 30 anos. Quem capitaneou as celebrações foram os economistas do Real: Malan, Bacha, Franco, Arida e Lara Resende.
Recupero aqui os políticos. Nenhum deles reivindicou a paternidade. Sem eles não seria possível a implantação. Ficaram de fora das celebrações Itamar Franco (PMDB), Pedro Simon (PMDB-RS), Tarcísio Delgado (PMDB-MG), Germano Rigotto (PMDB-RS), Neuto de Conto (PMDB-SC), José Fogaça (PMDB-RS) e Mário Covas (PSDB-SP). Fernando Henrique Cardoso, como ministro da Fazenda, não foi autor da construção técnica do plano, mas colaborou politicamente na sua implantação e nas fases de seu desdobramento.
Rigotto, como vice-líder, teve participação importante nas negociações do Fundo Social de Emergência. Neuto de Conto atuou como relator de medida relacionada à implantação do plano. Os economistas posaram de pais e dispensaram os líderes políticos. Maneira imprópria de tratarem os pares. Um não teria vitalidade sem o outro.
‘O real deu certo pela vontade política das lideranças’
O real deu certo pela vontade política das lideranças, pelos artifícios de passagem da moeda, consorciados à intervenção cambial que derrubou o dólar a menos de R$ 1. A ancoragem cambial foi longa e perturbadora para as indústrias instaladas. Empresas fecharam e o país cresceu pouco.
Na verdade, as modificações foram boas. Criaram mecanismos paralelos que trouxeram alguns saneamentos: a correção dos bancos inadimplentes, a responsabilidade fiscal dos entes federativos e uma nova forma de administrar as empresas públicas.
O fato é que esses mecanismos foram paulatinamente alterados na sequência dos governos da então oposição. O PT não votou a favor do Plano Real. A Lei de Responsabilidade Fiscal permaneceu vigente, mas foi sendo desfigurada por alterações, exceções e mecanismos que reduziram sua capacidade original de impor disciplina às contas públicas. Se mantida em sua integralidade e rigor, não precisaríamos criar sucessivos instrumentos para novamente limitar despesas e tentar conter o déficit. A irresponsabilidade fiscal perdeu parte das consequências que deveria produzir para quem administra o dinheiro público.
‘Saímos da hiperinflação, mas carregamos ainda um sistema de reajustes indexados que não nos libertou das algemas da inflação’
Saímos da hiperinflação, mas carregamos ainda um sistema de reajustes indexados que não nos libertou das algemas da inflação. Correções por reposição da inflação ainda nos perseguem e nos atrasam. A reforma da Previdência não foi aprovada na época, retardando a correção fiscal. Hoje está, mais uma vez, defasada.
Os voos de galinha do crescimento são fruto de uma composição perversa. O déficit público não nasce sozinho. É resultado de decisões políticas. Aumentam-se despesas, ampliam-se benefícios sociais, concedem-se subsídios e renúncias fiscais, ampliam-se faixas de isenção do Imposto de Renda e retiram-se determinados gastos dos limites do arcabouço fiscal, como ocorre com despesas extraordinárias justificadas por desastres ambientais e outras situações excepcionais.
‘A conta não desaparece porque a despesa foi considerada socialmente justa ou extraordinária. Alguém terá de pagá-la.’
Cada uma dessas decisões pode encontrar uma justificativa. O problema está na soma. Reduz-se a arrecadação de um lado e aumenta-se a despesa do outro. A conta não desaparece porque a despesa foi considerada socialmente justa ou extraordinária. Alguém terá de pagá-la.
Quando o governo gasta mais do que arrecada, precisa buscar dinheiro para cobrir a diferença. Toma emprestado e aumenta a dívida pública. Quanto maior a dívida e menor a confiança na capacidade do governo de equilibrar suas contas, maior tende a ser o custo para financiá-la. Os juros sobre a dívida consomem mais recursos públicos e reduzem a capacidade de investimento.
A conta é compreensível: o déficit aumenta a necessidade de financiamento; o financiamento aumenta a dívida; uma dívida crescente e sem perspectiva de equilíbrio aumenta o risco; o risco dificulta a redução dos juros; juros elevados encarecem o crédito e reduzem o investimento. Sem investimento, o crescimento perde força.
‘Falta esforço político para alterar a estrutura de um mercado concentrado, aumentar a concorrência e reduzir o custo do crédito’
Há ainda outro problema que permanece quase intocado: a concentração do sistema bancário brasileiro. Falta esforço político para alterar a estrutura de um mercado concentrado, aumentar a concorrência e reduzir o custo do crédito. Não se pode atribuir todo o nível dos juros aos bancos, mas também não se pode ignorar uma estrutura que permite spreads elevados e limita a concorrência.
O déficit primário nos acorrenta. Os juros permanecem estratosféricos, como vemos na taxa Selic. A derrubada do déficit poderá criar ambiente para o superávit, melhorar as expectativas e permitir juros menores. O resultado será mais investimento. A partir daí, com segurança jurídica, os investimentos podem florescer e o crescimento surgir de maneira sustentada.
A chave está na reforma fiscal, na revisão da política de aumento real do salário-mínimo, na redução de subsídios e renúncias fiscais, na simetria da Previdência e na recuperação efetiva da responsabilidade fiscal. O Estado não pode permanentemente criar novas despesas, renunciar a receitas e depois tratar o déficit como se fosse uma ocorrência externa à decisão política.
Responsabilidade fiscal não é uma abstração econômica. É responsabilidade sobre o dinheiro dos outros e sobre as gerações que pagarão a dívida criada hoje. Onde falta responsabilidade, falta caráter.
Sem reformas, não sairemos da mediocridade do crescimento econômico e social.
Ronaldo Bianchi é diretor da Bianchi&Associados, conselheiro do Conselho Superior de Infraestrutura (Coinfra) da Fiesp e conselheiro da Revista Interesse Nacional. Foi diretor-executivo do Instituto Lina Bo Bardi, vice-presidente de Gestão da TV Cultura, secretário-adjunto da Cultura do Estado de São Paulo, vice-presidente do Itaú Cultural, superintendente-geral do Museu de Arte Moderna de São Paulo e gerente administrativo do Memorial da América Latina.
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