Dois pesos e duas medidas
A condução da política externa brasileira revela assimetrias de critério entre governos, expondo o Itamaraty a decisões de natureza política interna em momentos sensíveis e colocando em xeque a consistência institucional da diplomacia diante de pressões do Palácio do Planalto.

Quando o Itamaraty é colocado em situação politicamente delicada e muitas vezes incorreta, nem sempre a reação de sua chefia é a mesma.
Durante o governo anterior, o presidente Jair Bolsonaro, no auge da contestação sobre a lisura das eleições com as urnas eletrônicas, queria realizar uma reunião com os embaixadores em Brasília para criticar a utilização e os riscos dessas urnas e conversou com o então ministro das Relações Exteriores, Carlos França, para comunicar sua intenção de realizar o encontro no Itamaraty.
França ponderou que a reunião tinha cunho político interno e que não caberia usar o Itamaraty para a campanha contra as urnas. O presidente insistiu, mas França ficou firme em mais de uma ocasião. Afinal, prevaleceu o bom senso e o encontro foi realizado fora do Itamaraty, no Palácio da Alvorada, com convites ao corpo diplomático feito pelo Palácio do Planalto.
‘Se tivesse ouvido o ministro Carlos França, talvez Bolsonaro não tivesse seus direitos políticos cassados’
Se tivesse ouvido o ministro França, talvez Bolsonaro não tivesse seus direitos políticos cassados por conta dessa reunião.
No governo atual, o Palácio do Planalto, por iniciativa de Clara Ant, assessora do presidente Lula, propôs a realização, no Itamaraty, de um seminário sobre o Enfrentamento ao Antissemitismo: reflexões sobre o cenário internacional, organizado pelo Ministério das Relações Exteriores, em parceria com a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG).
Realizado na quinta-feira (16), o encontro contou com a participação de lideranças sionistas, incluindo os principais dirigentes da Confederação Israelita do Brasil (CONIB). O Itamaraty, desta vez, nada ponderou e aceitou realizar o encontro em um momento delicado no relacionamento bilateral com o governo atual em Israel.
‘Depois de chamar o Brasil de anão diplomático e de uma atitude inusitada do ministro do Exterior com o embaixador do Brasil, talvez o encontro pudesse ter sido marcado para outro lugar que não a Chancelaria em Brasília’
Depois de chamar o Brasil de anão diplomático e de uma atitude inusitada do ministro do Exterior com o embaixador do Brasil, o que motivou a retirada do representante brasileiro, e depois de algumas medidas tomadas internamente com grande repercussão no exterior como a decisão de enforcar sumariamente em 90 dias os que forem apontados como culpados de crimes de morte, talvez o encontro pudesse ter sido marcado para outro lugar que não a Chancelaria em Brasília.
Embora o seminário tenha sido realizado nesta semana, talvez propositadamente, em data em que o presidente Lula e o ministro Mauro Vieira estão em viagem no exterior, a ministra interina, Maria Laura, fez os convites, esteve presente e presidiu o encontro.
Apesar das ponderações que o Itamaraty certamente ouviu sobre a inoportunidade da realização do seminário na Chancelaria, por óbvias razões políticas e diplomáticas, a chefia do MRE decidiu levar adiante a iniciativa do Palácio do Planalto.
Outras considerações, não diplomáticas, talvez justifiquem a decisão que certamente terá forte repercussão, colocando o Itamaraty em posição defensiva.
Dois pesos e duas medidas.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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