Dos terremotos à reconstrução – A nova chance da Venezuela no sistema mundial
O terremoto é, antes de tudo, uma catástrofe. Mas crises dessa dimensão também podem redefinir trajetórias nacionais. Para a Venezuela, a reconstrução pode representar uma chance concreta de realinhamento com o sistema mundial, especialmente com o sistema internacional de financiamento, os organismos multilaterais e a comunidade ocidental, da qual o país faz parte geográfica, histórica e culturalmente

Os terremotos que atingiram a Venezuela em junho de 2026 abriram uma das mais graves tragédias humanas recentes da América Latina. Dois fortes abalos, registrados em sequência, provocaram destruição em áreas urbanas sensíveis, especialmente em regiões próximas a Caracas e ao litoral de La Guaira.
Prédios desabaram, hospitais foram pressionados por uma onda de feridos, famílias perderam suas casas, seus parentes, e milhares de pessoas passaram a depender de abrigos improvisados, comida, água potável, atendimento médico e operações de busca e salvamento.
A imagem central da tragédia é a de um país que já vinha de anos de colapso econômico, fragilidade institucional e perda de capacidade estatal sendo obrigado, de um dia para o outro, a responder a uma emergência humanitária de enorme escala.
Diante do cenário, a resposta internacional começou a ser estruturada em diferentes frentes.
‘A Venezuela, sozinha, dificilmente conseguiria responder à escala da destruição com a rapidez necessária’
A primeira é a ajuda humanitária imediata, composta por equipes de busca e resgate, médicos, cães farejadores, tendas, alimentos, medicamentos, geradores, equipamentos de remoção de escombros e apoio logístico. Países latino-americanos, europeus, organismos multilaterais, agências humanitárias e organizações não governamentais passaram a participar do esforço de socorro. Essa mobilização é essencial porque a Venezuela, sozinha, dificilmente conseguiria responder à escala da destruição com a rapidez necessária.
A segunda frente é financeira e institucional. A presidente interina Delcy Rodríguez anunciou a criação de um fundo emergencial de reconstrução de até US$ 200 milhões, com apoio de recursos vinculados ao sistema do Fundo Monetário Internacional.
Esse ponto é relevante porque marca uma mudança importante na posição externa da Venezuela. Depois de anos de isolamento e de relações interrompidas com instituições financeiras internacionais, o país voltou a ter interlocução formal com o FMI e com o Banco Mundial. Ainda não se trata, necessariamente, de um grande programa de resgate econômico, mas de uma reabertura de canais que estavam bloqueados desde a crise de reconhecimento político desde 2019.
‘A ajuda humanitária pode funcionar como uma primeira linguagem comum. Mesmo países que divergem politicamente da Venezuela podem justificar sua aproximação’
Essa reestruturação institucional que a tragédia trouxe criou uma situação na qual o governo venezuelano precisa dialogar com parceiros externos, aceitar coordenação internacional e reconstruir pontes com governos e instituições que antes tinham relações limitadas com Caracas. A ajuda humanitária, nesse sentido, pode funcionar como uma primeira linguagem comum. Mesmo países que divergem politicamente da Venezuela podem justificar sua aproximação em nome da proteção de vidas, da estabilidade regional e da reconstrução de infraestrutura básica.
É justamente nesse ponto que a tragédia pode abrir uma oportunidade única. Evidentemente, não se trata de romantizar o desastre nem de transformar sofrimento humano em cálculo político. O terremoto é, antes de tudo, uma catástrofe. Mas crises dessa dimensão também podem redefinir trajetórias nacionais. Para a Venezuela, a reconstrução pode representar uma chance concreta de realinhamento com o sistema mundial, especialmente com o sistema internacional de financiamento, os organismos multilaterais e a comunidade ocidental, da qual o país faz parte geográfica, histórica e culturalmente.
Esse realinhamento seria importante por três razões.
Primeiro, porque a Venezuela precisa de recursos, capacidade técnica e credibilidade para reconstruir sua infraestrutura.
Segundo, porque a retomada de relações com FMI e Banco Mundial pode ajudar o país a reorganizar dados econômicos, reconstruir confiança fiscal, desenhar políticas públicas e preparar programas de financiamento mais amplos.
Terceiro, porque a reinserção internacional pode reduzir o isolamento que marcou os últimos anos e abrir caminho para uma relação mais estável com credores, investidores e parceiros comerciais.
‘Todas essas características podem formar um momento único de reestruturação econômica e social que o país tanto precisa depois de anos de isolamento’
Todas essas características podem formar um momento único de reestruturação econômica e social que o país tanto precisa depois de anos de isolamento.
A oportunidade, porém, depende da forma como o processo será conduzido. Se a reconstrução for marcada por transparência, coordenação internacional, prestação de contas e prioridade social, ela pode fortalecer a legitimidade do governo interino e ajudar a recolocar a Venezuela no centro das negociações multilaterais. Por outro lado, se os recursos forem usados de maneira opaca, clientelista ou politizada, a tragédia pode ampliar a desconfiança interna e externa ao governo do país. A reconstrução, portanto, será também um teste de governança.
O ponto mais importante é que a Venezuela pode transformar a emergência em uma agenda nacional de reconstrução econômica. A volta do diálogo com o FMI, a possibilidade de apoio do Banco Mundial, a mobilização humanitária internacional e a perspectiva de um plano de pagamento ou reestruturação da dívida externa formam um caminho a ser seguido.
Se bem coordenadas, essas iniciativas podem criar um ciclo virtuoso. A ajuda emergencial permite estabilizar a situação humanitária, a reconstrução melhora infraestrutura e serviços, a cooperação com organismos internacionais amplia a credibilidade, a reestruturação da dívida reduz incertezas financeiras e a volta gradual da confiança abre espaço para investimentos, comércio e recuperação econômica.
‘Os terremotos colocaram a Venezuela diante de uma tragédia profunda, mas também diante de uma encruzilhada histórica’
Logo, os terremotos colocaram a Venezuela diante de uma tragédia profunda, mas também diante de uma encruzilhada histórica. O país pode permanecer preso à combinação de crise humanitária, isolamento financeiro e fragilidade institucional, ou pode usar a reconstrução como ponto de partida para uma nova etapa de reinserção internacional.
A retomada das relações com o FMI e outros organismos não resolve automaticamente os problemas venezuelanos, mas oferece instrumentos que antes estavam fora de alcance. Se acompanhada por transparência, planejamento e compromisso com a estabilidade, essa abertura pode iniciar um ciclo virtuoso capaz de reconstruir não apenas prédios e estradas, mas também a posição da Venezuela no sistema internacional.
Economista pela PUC-Rio e Mestre em Relações Internacionais e em Administração Pública pela Universidade Columbia, em Nova York. Atua nas áreas de resolução de conflitos,gestão de projetos de infraestrutura para PPPs, licitações e concessões, bem como em análise política, economia e dados, para os setores público e privado, no Brasil e no exterior.
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