Esquerda e direita – Liberdade e hierarquia na prática política
É fato, repetido ad nauseam, que existe uma considerável confusão no eleitorado brasileiro no que tange à definição de esquerda e direita. Problema agudo num contexto de eleições presidenciais(Carreirão 2002). Por exemplo, o DataSenado mostrou que 40% dos entrevistados em 2024 não se consideravam nem de esquerda, nem de direita, nem de centro. Muitos leitores […]

É fato, repetido ad nauseam, que existe uma considerável confusão no eleitorado brasileiro no que tange à definição de esquerda e direita. Problema agudo num contexto de eleições presidenciais(Carreirão 2002). Por exemplo, o DataSenado mostrou que 40% dos entrevistados em 2024 não se consideravam nem de esquerda, nem de direita, nem de centro.
Muitos leitores sem dúvida já ouviram a seguinte definição: a esquerda seria a favor da igualdade e a direita da liberdade. Tal argumento costuma lançar mão de ideias como Estado grande versus Estado mínimo, assistencialismo versus liberdade de empreendimento, o que tende a reduzir o debate a um nível abstrato, sem relação com a vida das pessoas.
Assim, para entender o que se quer dizer com liberdade e igualdade, precisamos focar em casos muito mais práticos e específicos. Por isso, com base em casos específicos do exercício de liberdade e igualdade, vou argumentar que os dois aparecem na prática política muito mais como instrumentos, e não como fins em si.
Ou seja, a igualdade defendida pela esquerda serve para ampliar a liberdade material e fatual, o que leva à conclusão de que a esquerda tem a liberdade como verdadeiro fim político, enquanto a igualdade é somente um meio; já a “liberdade” defendida por setores da direita serve em grande parte para preservar ou restabelecer hierarquias sociais, raciais, econômicas, de gênero, de idade e de classe, sendo a liberdade, para esse campo, um meio e não um fim.
Para começar com o exemplo da esquerda e liberdade, Rousseau formulou o problema que liga a (des)igualdade à liberdade, ou à falta de liberdade, de modo nítido: ninguém deveria ser rico o suficiente para comprar outra pessoa, nem pobre o suficiente para precisar se vender (Rousseau, 1762).
Assim, a questão específica, prática e universalista a favor da liberdade não é simplesmente defender a liberdade negativa de ser livre do Estado (e de seus impostos); ao contrário, a pergunta é: quais liberdades são defendidas, para quem, para fazer o que e diante de quais relações de poder?
Em tal contexto, a desigualdade e a concentração de renda mostram-se atualmente (e em grande parte da história humana) como os principais empecilhos à liberdade material, ou seja, à liberdade de grupos e indivíduos de decidir sobre a própria vida.
Embora isso seja mais nítido para os mais pobres, mesmo no topo da hierarquia a riqueza não é sinônimo perfeito de liberdade, e sabemos que os mais ricos passam grande parte de suas vidas atrás de grades e vidros escuros. Aliás, quem não se perguntou por que um bilionário como Elon Musk – homem mais rico do mundo – não passa seus dias numa praia carioca, pescando no Pantanal, ou de outra forma curtindo a vida, em vez de ficar acumulando tanto dinheiro que nunca irá conseguir gastar?
Da Revolução Francesa a Marx – as origens dos nomes esquerda e direita
De onde vem, então, a tal referência geográfica das ideologias políticas? Como muitos leitores já devem saber, durante a Revolução Francesa, defensores da monarquia e de maior autoridade do rei sentavam-se à direita; seus adversários, à esquerda. Assim, a oposição original mostra de forma mais nítida o tipo ideal de direita, com o respeito à autoridade, ao privilégio e à hierarquia como norte, contra as liberdades da esquerda nesse contexto, inclusive a de fazer comércio. No entanto, diga-se que isso não significa romantizar a esquerda liberal daquele período: suas liberdades coexistiam com colonialismo, escravidão e exclusões políticas, e o livre comércio era imposto pelos canhões das Companhias das Índias Ocidentais e Orientais.
Assim, o contexto de poder e liberdade, o contexto político e econômico, é central para entender esquerda e direita e as liberdades e hierarquias que moldam suas lutas.
Pulando assim no tempo, chegamos a Marx. Em O Capital, ele descreve como o poder produtivo da industrialização se transformava também em poder sobre pessoas, inclusive crianças submetidas a longas jornadas. A “liberdade” do empregador de prolongar a jornada significava, para o trabalhador, vender grande – muitas vezes a maior – parte de seu tempo de vida. Marx via que essa falta de liberdade vinha de uma desigualdade, qual seja, a impossibilidade de o trabalhador ter seus meios de vida garantidos (meios que lhe foram tomados nos cercamentos, ou enclosures, quando os camponeses foram expulsos das terras). Ou seja, a desigualdade para Marx era interessante principalmente porque limitava a liberdade.
Tal liberdade deve ser pensada de forma concreta e universalista para pensar a política e as organizações sociais. Faltando isso, estamos ou na religiosidade ou na lei de cada um por si, ambas dispensando a política.
Graeber e Wengrow (2021) ajudam a pensar isso ao destacar liberdades concretas como ir embora, desobedecer e criar ou transformar relações sociais. E mostram, crucialmente, como tais liberdades, que inspiraram a filosofia liberal europeia e as revoluções burguesas, tiveram origem no pensamento de indígenas que resistiam a um genocídio de proporções inéditas: as estimativas mais citadas indicam que cerca de 90% da população originária das Américas – algo como 55 milhões de pessoas – morreu no primeiro século após 1492 (Koch et al., 2019), e estimativas mais altas, baseadas em populações pré-coloniais de 90 a 112 milhões (Dobyns, 1966), chegam a até 100 milhões de mortos ao longo da colonização (Stannard, 1992).
É de suma importância registrar que este processo continua na Amazônia, onde a liberdade abstrata de ocupar terras, explorar madeira, criar gado ou extrair minérios entra em choque com as liberdades concretas de indígenas, quilombolas e ribeirinhos de decidir onde morar, como se organizar e como manter os meios materiais da própria existência. A Global Witness registrou 342 assassinatos de defensores da terra e do meio ambiente no Brasil entre 2012 e 2021; mais de 85% ocorreram na Amazônia brasileira. Além disso, jornalistas de meios de comunicação como o Tapajós de Fato deixaram de cobrir as eleições por conta de ameaças de morte, ameaças essas que não vêm da esquerda.
Se o processo de destruição da Amazônia continuar ou recrudescer sob um governo de extrema direita, como seria o de Flávio Bolsonaro, próximo ao crime organizado, os indígenas não serão os únicos a ter suas liberdades limitadas. Faltará chuva, comida e ar para respirar no Brasil inteiro.
Estado mínimo para quê?
Assim, para pensar liberdades de forma concreta e material, precisamos primeiro ultrapassar a ideia que coloca o Estado como o principal empecilho à liberdade.
Ou seja, um Estado pode ser pequeno em proteção social, mas enorme em polícia, prisões e proteção coercitiva da propriedade privada (que, por sua vez, particularmente no caso de grandes propriedades de terra, geralmente é oriunda de roubo e grilagem – sejam eles históricos ou recentes, como no caso da fronteira agrícola).
De novo, podemos lançar mão de um exemplo da política brasileira. Em 2015, no debate sobre redução da maioridade penal, o deputado Laerte Bessa disse ao Guardian que esperava que um dia fosse possível determinar se uma criança ainda no útero teria “tendências criminosas” e, nesse caso, impedir a mãe de dar à luz. É difícil imaginar intervenção estatal maior sobre o corpo de uma mulher, ainda mais vinda de um deputado de direita propondo matar o bebê supostamente tão caro à direita.
No entanto, sua defesa e retratação foram talvez ainda mais ilustrativas: Bessa se defendeu afirmando que era contra o aborto. Ou seja, nesse caso, sua posição contrária ao aborto evidentemente não pode se basear numa defesa da vida intrauterina, mas – assim como a proposta de exterminar o feto – se baseia na capacidade de exercer violência hierárquica, desta vez não contra o potencial criminoso (o feto), mas contra a mulher e sua escolha sobre o próprio corpo.
Do outro lado do espectro político, o Bolsa Família – uma das principais políticas criticadas pela direita, inclusive por ilustres intelectuais como o apresentador Luciano Huck – deve ser entendido menos como uma política voltada à igualdade e mais como maneira prática de garantir liberdade. A liberdade de uma mulher vítima de violência de deixar o marido, a liberdade da criança de estudar e não trabalhar. Essa liberdade, por outro lado, fere as hierarquias que a direita valoriza quando a mulher se recusa a se encaixar na família nuclear, ou quando o homem ou a mulher se recusam a aceitar condições de trabalho degradantes. Não é por acaso que a expansão de direitos para trabalhadores domésticos e rurais tenha precedido movimentos de direita, tanto em 1964 como nos anos 2010.
Liberdade de expressão – para quem?
Se devemos, assim, questionar a simplificação da esquerda e sua defesa da igualdade, também devemos tocar na liberdade que seria, segundo o senso comum, a mais cara à direita – a liberdade de expressão.
É notável, assim, que discursos racistas, ameaças e campanhas de intimidação podem ser apresentados como “liberdade de expressão”, embora reduzam a liberdade de outros de participar da vida pública.
Num exemplo quase absurdo, em 1925, após um discurso incendiário, o governo bávaro proibiu Hitler de falar em público, desencadeando protestos a favor da liberdade de expressão de Hitler – que, nem seria preciso ressaltar, matou milhares de pessoas por exercerem essa liberdade durante sua ascensão e depois de chegar ao poder.
No entanto, não precisamos procurar tão longe na história para ver contradições absurdas. Nos Estados Unidos, Donald Trump e seus apoiadores criticaram por anos aquilo que descrevem como censura e “cancelamento”. Ao mesmo tempo, sua administração restringiu, em 2025, o acesso da Associated Press a eventos presidenciais após a agência manter “Golfo do México” em vez de adotar exclusivamente “Golfo da América”. Em setembro de 2026, Trump anunciou que CNN, MS NOW e Politico seriam banidos da Casa Branca por “fake news”; os veículos recorreram à Justiça.
No Brasil, Abraji e Fenaj identificaram mais de 40 profissionais atacados durante 8 e 9 de janeiro de 2023; a RSF registrou jornalistas cercados, ameaçados, agredidos e roubados por apoiadores de Bolsonaro.
No entanto, Marielle Franco é um caso particularmente revelador pelo fato de ter sido uma mulher negra a exercer sua liberdade de expressão e ser forçada a pagar com a vida por isso.
Depois de seu assassinato, circularam acusações falsas e discursos intolerantes sobre ela; pesquisa da UFMG documentou a disseminação de uma acusação falsa inclusive pelo MBL. Na campanha de 2018, Rodrigo Amorim e Daniel Silveira arrancaram e quebraram uma placa simbólica “Rua Marielle Franco” colocada na Cinelândia e depois exibiram suas partes num ato de campanha. Amorim apresentou o gesto como combate ao PSOL e às suas “pautas repugnantes”; Flávio Bolsonaro, que possui vínculos documentados com integrantes de milícias (Albuquerque, 2020) e cuja assessora negociou, segundo investigação revelada em 2026, a liberação de recursos com Robson Calixto, posteriormente condenado por integrar a organização criminosa armada dos irmãos Brazão (Albernaz, Marques e Lopes, 2026; STF, 2026), defendeu a quebra da placa afirmando que seus correligionários “nada mais fizeram do que restaurar a ordem” (Maia, 2018).
É precisamente aqui que meu argumento sobre liberdade e hierarquia se torna concreto. O gesto podia ser defendido como expressão política, mas sua substância era simbolicamente recolocar “no seu lugar” uma mulher negra, lésbica, oriunda da Maré e eleita para ocupar um espaço de poder, destruindo uma homenagem que invertia hierarquias históricas de raça, gênero, sexualidade e território. A “liberdade de expressão” tornava-se instrumento numa disputa sobre quem pode ocupar o espaço público, ser homenageado e falar com autoridade, sobretudo sem ser assassinado.
Assim, meu argumento é que a “liberdade” mobilizada para humilhar grupos subordinados, defender sua exclusão, ameaçá-los, matá-los e limitar suas liberdades mostra que não é a liberdade em si que a direita almeja, mas essa hierarquia, a serviço da qual a liberdade se torna somente um instrumento.
A conclusão não é simplesmente que “a direita é contra a liberdade”, nem que movimentos de esquerda sejam incapazes de censura ou autoritarismo. É que liberdade e igualdade não podem ser avaliadas em abstrato. A igualdade pode ser justamente o instrumento que torna possível ir embora, recusar, escolher, criar e desobedecer.
A pergunta relevante, portanto, não é simplesmente se esquerda ou direita “defendem a liberdade”, mas a liberdade de quem para fazer o quê e quais instituições e políticas tornam essa escolha possível. Assim, o Estado é um instrumento fundamental nesta disputa para a esquerda e a direita, tanto quando mata como quando defende, quando confisca como quando dá. Parafraseando Freire: é tudo ideologia, mas a sua defende a liberdade de quem e de quantos? De Elon Musk, que almeja as terras raras e outros minerais do Brasil, ou dos indígenas cujas terras ficam sobre depósitos de lítio? Da família Bolsonaro ou das mulheres, dos negros e dos pobres do Brasil?
Referências
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Christoffer Guldberg é professor e doutor pelo King's College London e pela USP, com uma tese sobre violência e resistência policial no Brasil.
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