30 maio 2023

‘Succession’ mostra que Rosencrantz e Guildenstern estão vivos e passam bem

Série chega a seu final revelando que no capitalismo as mudanças são anticlímax, e o choque entre o velho e o novo não é uma substituição, mas uma recomposição no qual o poder econômico se adapta às novas tecnologias e lideranças que com elas emergem. Para cientista política, drama não trata de quem vai ser o sucessor de Logan Roy, mas do próprio capitalismo no século XXI

Série chega a seu final revelando que no capitalismo as mudanças são anticlímax, e o choque entre o velho e o novo não é uma substituição, mas uma recomposição no qual o poder econômico se adapta às novas tecnologias e lideranças que com elas emergem. Para cientista política, drama não trata de quem vai ser o sucessor de Logan Roy, mas do próprio capitalismo no século XXI

A série de TV Succession, da HBO (Foto: Divulgação)

Por Fhoutine Marie*

Foi ao ar no último domingo o episódio final da série Succession, da HBO. O drama de deliberada inspiração shakespeariana e pitadas de tragédia grega mostra uma família de bilionários em disputa para saber quem irá suceder o patriarca Logan Roy no comando de uma megacorporação de notícias, entretenimento e lazer. Até aí, nada de novo sob o sol: o pai ausente é uma figura narcisista que não considera nenhum dos filhos — Kendall, Shiv e Roman — dignos de seu legado. Não se trata de episódio de Casos de Família, mas de processos de substituição.

A sucessão do título não diz respeito apenas a quem irá substituir Logan Roy na cadeira de CEO da Waystar Royco, mas a o que irá suceder aquele modelo de negócios e como o capitalismo transnacional irá se acoplar abertamente à emergência da extrema-direita, se for possível chegar a um acordo satisfatório para ambas as partes. Saem de cena os CEOs de ternos escuros para dar lugar aos disruptivos das startups; a empresa familiar dá lugar ao mérito; o clube do Bolinha abre espaço para a mulher branca rica que rompe o teto de vidro como requer o conto de fadas do feminismo liberal. Todos eles, com maior ou menor grau de conforto, em algum momento se sentarão para negociar com fascistas.

Nas primeiras temporadas de Succession, descobrimos há outro problema além da sucessão: o iminente escândalo de dezenas de casos de abuso sexual ocorridos nos cruzeiros (outro ramo de atividades da companhia). Não há exatamente um choque com os casos abafados ao longo de décadas. A preocupação é saber como aquilo pode ser abafado ou instrumentalizado para se obter poder. Quem irá pagar a conta e quem poderá se sobressair com um discurso alinhado ao combate à violência de gênero.

‘Cultura do cancelamento não existe, isso é uma lenda urbana do Twitter’

A exposição do caso acaba repercutindo mais por expor o racha da família, prejudicando o valor das ações da empresa. O filho mais velho, Kendall, é escolhido pelo pai para ser “sacrificado”, o que significa confessar ter conhecimento dos abusos e ter contribuído para acobertar os autores. Em um movimento inesperado, o filho devolve a bola para o pai, passa a agir publicamente como “feministo” e fica tudo por isso mesmo. Como eu sempre digo, cultura do cancelamento não existe, isso é uma lenda urbana do Twitter.

Passadas as denúncias de abusos, a Waystar Royco continua sendo uma empresa valiosa e influente — já que possui um dos maiores canais de televisão dos Estados Unidos, a ponto de seu diretor ter linha direta com o presidente daquele país e ser um ator importante na definição das candidaturas para a eleição seguinte. É nesse contexto que o patriarca decide colocar a empresa à venda. Coincidência ou não, o comprador é justamente um homem que tem problemas envolvendo mulheres e limites. E isso não é um problema para ninguém da família, já que só existe um problema verdadeiro, o problema do poder.

Entre virtú e a fortuna

Em Hamlet, há dois personagens secundários que muitas vezes funcionam como alívio cômico: Rosencrantz e Guildenstern. A função da dupla é espionar o príncipe da Dinamarca em seu exílio na Inglaterra, mas acaba perecendo durante a missão. Em Succession, a dupla correlata a eles, Greg e Tom [sobrinho e genro do patriarca], acaba triunfando justamente porque ambos estão a serviço de uma agenda própria, como homens de virtú batalhando desesperados por um olhar da deusa Fortuna — que ao final sorri pra eles mostrando todos os dentes.

‘A série desmistifica o mundo dos super ricos ao mostrar personagens humanos, demasiadamente humanos: nenhum deles é especialmente talentoso, inteligente ou carismático. Nem mesmo belos, bem-vestidos, cultos ou sofisticados’

Um comentário recorrente sobre a série – com o qual eu concordo — é que ela desmistifica o mundo dos super ricos ao mostrar personagens humanos, demasiadamente humanos: nenhum deles é especialmente talentoso, inteligente ou carismático. Nem mesmo belos, bem-vestidos, cultos ou sofisticados. São pessoas que vivem imersas em privilégios acumulados por gerações anteriores. Mas enquanto alguns patrimônios são transmissíveis de forma geracional — ações, imóveis, privilégio branco e masculino — não é possível herdar a capacidade de articulação (ou de intimidação?).

Sem isso, abre-se caminho para a ação do invasor/incorporador estrangeiro e para os oportunistas próximos. Os encontros da família Roy com outros ricos estadunidenses em casas de campo finamente decoradas que mostram uma estética e discrição de uma certa fase do capitalismo, anterior a essa personificada pela vulgaridade de roupas amarrotadas de Lukas Matsson. O bilionário sueco é dono da empresa de tecnologia GoJo e planeja adquirir a Waystar Royco.

Tudo no encontro entre os representantes das duas empresas choca — a diferença de faixa etária, a suposta opção dos novos bilionários pela meritocracia, a falta de mesuras e cortesias, as táticas de intimidação e, principalmente, a iminente morte de uma empresa familiar por algo maior e que aqueles personagens ainda não entenderam direito, mas sabem que estão prestes a ser devorados. Sobrevive quem souber transitar de um lugar ao outro, performando uma mistura de busca pela virtú da qual fala Maquiavel com a servidão voluntária de La Boétie.

‘Nesta equação, o parentesco e o amor são meras relações das quais se pode obter vantagens e se der, ser feliz nos momentos de folga’

Mais do que alívio cômico, é isso que nos fornecem os arcos do sobrinho e do genro, que se deixando humilhar por quem achava que o poder era uma potência fixa, vão se deixando sobrecarregar e humilhar enquanto os altivos herdeiros legítimos vão sucumbindo um a um por conta de suas fraquezas. Nesta equação, o parentesco e o amor são meras relações das quais se pode obter vantagens e se der, ser feliz nos momentos de folga. Se não for possível, ainda será mais fácil ser infeliz sendo parte do 1% que do restante do mundo.

No final, a lição que permanece é que no capitalismo as mudanças são mesmo anticlímax. O choque entre o velho e o novo não é uma substituição, mas uma recomposição no qual o velho poder econômico se adapta não apenas às novas tecnologias e lideranças que com elas emergem. As causas sociais são acomodadas dentro deste pacote para caber no mesmo compartimento em que cabe o discurso supremacista branco e a erosão das democracias ocidentais.


*Fhoutine Marie é colunista da Interesse Nacional. Jornalista e cientista política, participa como co-autora dos livros “Tem Saída – Ensaios Críticos Sobre o Brasil” (Zouk/2017) e “Neoliberalismo, feminismo e contracondutas” (Entremeios/2019). Seu trabalho tem como foco temas como gênero, raça, terrorismo, neoconservadorismo e resistência política numa perspectiva não-institucional.  

https://interessenacional.com.br/edicoes-posts/fhoutine-marie-o-feminismo-publicitario-venceu-agora-ele-precisa-acabar/

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Fhoutine Marie é colunista da Interesse Nacional, jornalista e cientista política. Participa como co-autora dos livros "Tem Saída – Ensaios Críticos Sobre o Brasil" (Zouk/2017), "Neoliberalismo, feminismo e contracondutas" (Entremeios/2019) e "O Brasil voltou?" (Pioneira/2024). Seu trabalho tem como foco temas como gênero, raça, terrorismo, neoconservadorismo e resistência política numa perspectiva não-institucional.

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