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30 outubro 2026

Flávio Bolsonaro nos EUA

Flávio mostrou toda sua inexperiência, arrogância e dificuldade de articulação com seus próprios companheiros políticos. Isolado politicamente e ausente do Brasil, terá pouca influência no cenário nacional. O governo brasileiro agiria com pragmatismo e serenidade, se não passasse recibo em relação aos apoios dos EUA e da Argentina ao senador

Ato em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República reúne apoiadores na Avenida Paulista. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Depois de acompanhar durante todo o dia de terça-feira (27) no Brasil a repercussão da notícia de sua saída do país, Flávio Bolsonaro chegou no dia seguinte cedo em Miami, passando pela Argentina, de onde embarcou até o Equador, e daí para os EUA.

Em nota oficial, o governo argentino informou sobre os movimentos da família do Senador até Puerto Iguazu e da partida para o Equador. O envolvimento do governo argentino acrescenta novos e importantes elementos no já difícil relacionamento do Brasil com Buenos Aires. O apoio logístico do governo Milei a Flávio Bolsonaro recebeu críticas da oposição local e agravou as relações diplomáticas com o Brasil, que deve manter a embaixada em Buenos Aires indefinidamente sem seu titular e a relação bilateral rebaixada. 

No tocante aos EUA, a situação é mais grave, pois Washington não só deu apoio logístico para a família Bolsonaro até Miami, mas também autorizou a permanência deles no país. 

‘A crise política e diplomática com os EUA poderá ser agravada por essas medidas de apoio ao candidato derrotado’

A crise política e diplomática com os EUA poderá ser agravada por essas medidas, somando-se ao contencioso comercial, à questão do combate ao narcoterrorismo com o apoio ao Escudo das Américas, à questão das terras raras e, como mencionou Lula no domingo (25) no discurso de vitória, de oposição a Estratégia de Segurança aciona dos EUA no tocante a área de influência e dominação na América Latina (“o Brasil não vai ser quintal de ninguém”), e ainda à interferência das plataformas digitais na eleição (atuação da Meta) e a regulamentação e taxação das Big Techs. 

Se o governo brasileiro descumprir o anúncio de que concederia o agrément ao novo embaixador norte-americano depois da eleição, teríamos mais uma escalada na crise bilateral. 

Preocupado com as eleições da semana próxima para o Congresso norte-americano, não parece provável que o governo Trump tome partido a favor de Flávio Bolsonaro. 

‘Trump evitou tomar lado e apoiar Flávio, a pedido de Lula, segundo declaração do presidente norte-americano’

Durante a campanha eleitoral no Brasil e mesmo agora com o senador em solo norte-americano, Trump evitou tomar lado e apoiar Flávio, a pedido de Lula, segundo declaração do presidente norte-americano. Essa atitude cautelosa da Casa Branca, preocupada com as eleições para o Congresso, deve continuar. 

Resta aguardar o que Marco Rubio, no Departamento de Estado, pode fazer contra o governo eleito. Nas próximas semanas, Lula e Mauro Vieira vão se encontrar com Trump e Rubio nas reuniões do G20, podendo surgir algum tipo de contato entre eles. É possível esperar uma atuação política ativa de Flávio junto a seus aliados em Washington, com possíveis medidas negativas nas relações bilaterais, inclusive com eventuais restrições do Departamento de Estado a autoridades brasileiras.

‘Ignorar a atitude ideológica de Argentina e EUA seria a reação correta de Brasília’

O governo brasileiro agiria com pragmatismo e serenidade, se não passasse recibo em relação aos apoios dos EUA e da Argentina ao senador Flávio. Ignorar a atitude ideológica dos dois países seria a reação correta de Brasília.

 Em carta ao povo brasileiro, divulgada na quarta feira, Flávio Bolsonaro se apresentou como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil, em vista da fraude eleitoral pela atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado de Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”. 

Em termos fortes, chamou o ocorrido de “golpe de estado e perseguição política, caça às bruxas politicamente motivada”. Dizendo que não fugiu do país, mas saiu de um regime de exceção para poder ser o líder que o povo brasileiro merece pois calado, censurado estaria entregue ao teatro institucional de uma oposição controlada pela Suprema Corte”. 

Afirmando que isso é apenas o “começo da luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil”, acrescentou que “sou o presidente eleito” e que “serei a voz e a liderança livre de nossa nação”. Por isso, “liderarei a oposição daqui, dizendo o que vocês não poderão dizer e assumindo os riscos que vocês não podem correr”. “Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil”.

‘A carta mostrou uma atitude amadora, não verdadeira e improvisada’

Essa narrativa, já do conhecimento do governo de Washington, representa a visão radicalizada da direita bolsonarista. A carta mostrou uma atitude amadora, não verdadeira e improvisada (como se viu no brasão e no recuo – aparentemente a pedido do governo norte-americano – em afirmativa sonhadora de que havia ganho a eleição). Não compartilhada mesmo por aliados próximos, como o candidato a vice-presidente, o governador de São Paulo, de Valdemar Costa Neto e lideranças de seu partido no Congresso, que reconheceram o resultado da eleição e implicitamente a democracia no Brasil, apesar de algumas restrições, sobretudo pelo papel do STF nas eleições, o documento entra para a história política nacional como uma farsa. 

O espaço de liderança da direita, deixado aberto pelo senador Flávio, tenderá a ser ocupado por outros líderes políticos da direita não bolsonarista e dificilmente uma ação vinda do exterior terá a repercussão esperada pelo candidato derrotado. 

Em suma, Flávio mostrou, três dias depois do resultado da eleição, toda sua inexperiência, arrogância e dificuldade de articulação com seus próprios companheiros políticos. Isolado politicamente e ausente do Brasil, Flavio Bolsonaro terá pouca influência no cenário nacional.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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