09 abril 2026

Guerra no Sudão – Rumo à partição ou a um conflito sem fim?

O conflito deflagrado no Sudão em 2023 provocou o maior colapso humanitário do século XXI. Embora os registros da Organização das Nações Unidas quantifiquem entre 30.000 e 40.000 óbitos diretos, a subnotificação sugere um cenário mais letal: estimativas de mortalidade oscilam entre 150.000 e 522.000 vítimas. A crise humanitária é também marcada pela migração forçada […]

O conflito deflagrado no Sudão em 2023 provocou o maior colapso humanitário do século XXI. Embora os registros da Organização das Nações Unidas quantifiquem entre 30.000 e 40.000 óbitos diretos, a subnotificação sugere um cenário mais letal: estimativas de mortalidade oscilam entre 150.000 e 522.000 vítimas. A crise humanitária é também marcada pela migração forçada de 12 a 14 milhões de pessoas. De 29 a 33 milhões de pessoas se encontram em situação de insegurança alimentar.

Casos de fome foram registrados em regiões ocidentais e centrais. Paralelamente, a violência sexual institucionalizou-se como arma de guerra. No entanto, ao contrário da mobilização internacional observada na ocasião do genocídio em Darfur (2003-2004), o conflito atual padece de uma invisibilidade deliberada, asfixiado por uma (des)ordem mundial caracterizada pela saturação informacional relacionada a volatilidade geopolítica.

Sudão: um território com vocação de cruzamento?

O Sudão consolidou-se como um cruzamento entre o Sahel central e o nordeste africano, bem como entre os mundos árabe e subsaariano. Sua posição estratégica integrou o território sudanês em redes circulatórias cujos fluxos de bens, pessoas e ideias percorreram rotas transaarianas, fluviais e marítimas. Paralelamente, migrações de mão de obra emulsionaram a agricultura e dinamizaram trocas transfronteiriças.

O trânsito de migrantes árabes e de peregrinos muçulmanos rumo a Meca atuou como vetor de mudanças religiosas e culturais. O fortalecimento dessas redes definiu o Sudão como um espaço de conexões e circulações. Port-Sudan destacou-se como um nó logístico e comercial, atraindo árabes, indianos e subsaarianos, contribuindo para a formação de uma sociedade cosmopolita, marcada por pluralidade religiosa, linguística e cultural.

Colonização e hegemonia das elites árabe-muçulmanas

Entre 1899 e 1956, o Condomínio Anglo-Egípcio compartilhou a soberania entre o Reino Unido, que detinha o controle político e militar, e o Egito, exercendo uma autoridade formal. O controle do Rio Nilo, entre Cartum e Cairo, conferiu uma profundidade geoestratégica notável ao Império britânico.

A administração colonial era centralizada e dominada por uma elite árabe-islâmica que marginalizava as minorias etnoculturais e religiosas. Após a independência (1956), o Estado pós-colonial exacerbou a marginalização das regiões meridionais e ocidentais. A islamização da sociedade e a militarização do poder geraram ressentimentos e ciclos recorrentes de violência e instabilidade.

Uma contemporaneidade marcada por guerras, genocídios, golpes de Estado

A história contemporânea do Sudão foi marcada por rupturas institucionais e golpes de Estado, alternando breves governos civis e regimes autocráticos e/ou militarizados. O descumprimento das promessas de autonomia às regiões do Sul desencadeou a primeira guerra sudanesa (1955-1972) evidenciando tensões que que continuariam a assombrar o país durante o durante o segundo conflito entre 1983 e 2005. Os confrontos resultaram em milhões de mortos, deslocados e refugiados.

O golpe de 1989, que levou Omar al-Bashir ao poder, aprofundou o autoritarismo, a militarização do Estado, a repressão, a islamização da sociedade, a corrupção e a oligarquização da economia. Para permanecer no poder, Bashir recorreu às Forças Armadas, aos serviços de segurança e a milícias paramilitares tendo como efeito colateral a erosão da autoridade estatal.

Em 2003, o Darfur tornou-se o epicentro de um conflito devastador. Grupos rebeldes foram violentamente reprimidos pelo Estado sudanês, que armou milícias árabes, os janjaweeds, que perpetraram crimes de guerra, genocídio e limpeza étnica contra populações não árabes. Rebatizada Forças de Apoio Rápido (RSF), a milícia se tornou um dos principais atores da crise sudanesa contemporânea.

A independência do Sudão do sul: o cruzamento amputado

Na década de 1960, a dominação das populações negro-africanas, cristãs e “animistas” pelas elites árabe-muçulmanas provocou uma longa guerra entre o Sul e o Norte, sancionada pela Independência dos sulistas em 2011. A partição do país cruzamento foi um marco geopolítico do século XXI num continente cujas fronteiras nacionais permanecem, em grande medida, inalteradas desde as Independências.

A perda de 75% das receitas petrolíferas agravou a crise econômica do Sudão e intensificou sua dependência de recursos disputados por senhores de guerra. Diante da multiplicação dos focos de instabilidade, o governo aprofundou a militarização do poder, da burocracia e da economia, ampliando o protagonismo das Forças Armadas Sudanesas e de grupos paraestatais, o que contribuiu para o fracionamento do sistema de segurança.

Dos sonhos da Revolução de 2019 à Guerra de 2023

A incapacidade do Estado de atender demandas da população, a manobras para a perpetuação do regime e o agravamento da crise econômica alimentaram o descontentamento social. A juventude, os sindicatos e as populações urbanas emergiram como atores centrais da contestação política. A Revolução de 2019 constituiu um marco na história do continente africano, simbolizando a resiliência da sociedade civil. As mulheres assumiram um papel de vanguarda, estruturando redes de solidariedade e desafiando códigos sociais e jurídicos segregadores. A força da mobilização foi interpretada como o alicerce para a edificação de um “novo Sudão”, livre e inclusivo.

Após a deposição de al-Bashir, em abril de 2019, um governo de transição composto por civis e militares obteve um mandato para organizar eleições democráticas. O Conselho de Transição era presidido por Abdel Fattah al-Burhan, tendo Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti) como vice-presidente.

O período foi marcado por desconfiança mútua, crises econômicas, ressurgimento de conflitos regionais e tentativas de golpe. A questão da integração das Forças de violenta de protestos evidenciou a fragilidade do processo de transição e a resistência dos militares à perda de privilégios.

Em outubro de 2021, al-Burhan liderou um golpe que dissolveu o governo de transição, prendeu líderes civis e declarou estado de emergência. A repressão aos protestos populares e a fragmentação das forças civis selaram o fracasso da transição democrática, abrindo caminho para o conflito entre as forças regulares e rebeldes.

2023: o início de uma guerra sem fim?

A guerra, iniciada em 2023, é fruto de décadas de instabilidade sistêmica, de crises de legitimidade política, da falência da transição democrática, das disputas por recursos e do envolvimento de potências estrangeiras que transformaram o território sudanês em palco de rivalidades geopolíticas.

A morosidade do processo de integração das Forças de Apoio Rápido de Hemedti, às Forças Armadas Sudanesas, comandadas por al-Burhan, foi instrumentalizada pelos futuros insurgentes para mobilizar suas tropas e desencadear ataques contra quartéis, o palácio presidencial e o aeroporto da capital. A batalha por Cartum tornou-se o símbolo da disputa pelo controle do Estado sudanês. O conflito expandiu-se para outras regiões, onde os beligerantes exploraram clivagens etnorreligiosas para obter o apoio de milícias locais.

Destruição de Cartum

A guerra curso apresenta duas características singulares. A primeira diz respeito aos atores envolvidos no conflito, opondo Forças Armadas Sudanesas, e Forças de Apoio Rápido, criadas em 2013 a partir da reestruturação das milícias janjaweeds. Diferentemente dos conflitos marcados pela proliferação de insurgentes, aqui a configuração bélica circunscrita, ainda que envolva algumas milícias locais.

Embora, inicialmente, os confrontos apresentassem feições convencionais, as forças em presença passaram a incorporar práticas de milicia como: sistematização dos saques, da violência sexual e do desrespeito ao Direito Internacional Humanitário. Sem projetos políticos ou ideológicos, os beligerantes disputam o poder e a exploração de ouro e terras que garantem o enriquecimento das elites militares e a manutenção de redes clientelistas estratégicas. A segunda singularidade do conflito reside no envolvimento de inúmeros países do Oriente Médio, da África do norte e do Nordeste, além de potências globais.

Os 800 km do litoral no Mar Vermelho, as fronteiras agrícolas e as reservas auríferas converteram o Sudão em um espaço estratégico para interesses exógenos. A renda por essa localização privilegiada estimula, igualmente, a internacionalização do conflito inserido em um quadro global marcado pela desregulação das relações internacionais. Em vez de se traduzir em benefícios, a posição do Sudão passou, assim, a alimentar disputas e cobiças que agravam uma crise humanitária de proporções catastróficas.

O resultado é a consolidação de uma guerra não declarada e, por isso mesmo, sem perspectivas de resolução. Como a vitória de um dos beligerantes é improvável, sobretudo em razão dos ganhos materiais proporcionados pela economia de guerra, o país enfrenta hoje o risco de uma nova partição, que poderia separar Darfur e sua periferia imediata do restante do território sudanês, ou de mergulhar em uma “guerra sem fim”.


Frédéric Monié, Professor de Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Tags:

África 🞌

Cadastre-se para receber nossa Newsletter