Integração latino-americana deixa de ser utopia e vira necessidade estratégica para o Brasil
Por décadas, a integração latino-americana foi tratada como ideal retórico, frequentemente evocada em discursos oficiais e declarações presidenciais, raramente convertida em coordenação efetiva. Essa abordagem perdeu sustentação. No cenário internacional atual, marcado por rivalidade entre grandes potências, diplomacia transacional e enfraquecimento seletivo das regras multilaterais, a fragmentação regional passou a gerar custos concretos. Para o […]

Por décadas, a integração latino-americana foi tratada como ideal retórico, frequentemente evocada em discursos oficiais e declarações presidenciais, raramente convertida em coordenação efetiva.
Essa abordagem perdeu sustentação. No cenário internacional atual, marcado por rivalidade entre grandes potências, diplomacia transacional e enfraquecimento seletivo das regras multilaterais, a fragmentação regional passou a gerar custos concretos. Para o Brasil, a desunião regional deixou de representar um dilema abstrato e passou a incidir diretamente sobre sua projeção internacional.
A história da América Latina ajuda a compreender esse impasse. Desde o Congresso do Panamá, convocado por Simón Bolívar em 1826, iniciativas de integração surgiram em ciclos sucessivos, quase sempre seguidas por frustrações. A Guerra Fria intensificou esse padrão ao transformar a região em espaço de disputa geopolítica entre Estados Unidos e União Soviética.
Intervenções externas, regimes autoritários e polarização ideológica profunda comprometeram a construção de instituições regionais duradouras. O fim do conflito bipolar encerrou essa lógica, mas não produziu integração consistente nem coesão social suficiente para sustentá-la.
O contexto internacional contemporâneo impõe um desafio adicional. O sistema baseado em regras segue operante em áreas técnicas e financeiras, mas enfrenta desgaste significativo em temas estratégicos como comércio, segurança, tecnologia e cadeias produtivas. Grandes potências recorrem com frequência a sanções, tarifas, subsídios e pressões unilaterais, enquanto instituições multilaterais perdem centralidade decisória nesses domínios.
Países de renda média enfrentam dificuldades quando atuam isoladamente
Nesse ambiente, países de renda média enfrentam dificuldades crescentes quando atuam isoladamente. O Brasil sente esse impacto em áreas centrais como comércio exterior, diplomacia ambiental, energia e financiamento ao desenvolvimento.
A percepção de que o peso econômico brasileiro garante influência automática revela-se limitada. O país mantém capital diplomático relevante, histórico de mediação e presença institucional consolidada. Ainda assim, a conversão desses ativos em resultados concretos depende de escala política e coordenação externa.
Sem articulação regional, a capacidade de interlocução brasileira diminui frente a blocos consolidados e potências continentais. Negociações comerciais com Estados Unidos, União Europeia ou China evidenciam essa assimetria. A ausência de posições latino-americanas coordenadas fragmenta agendas, enfraquece demandas comuns e amplia a margem de manobra dos parceiros externos.
Essa dinâmica também afeta a diplomacia ambiental, área na qual o Brasil detém ativos estratégicos relevantes. A Amazônia, os biomas compartilhados e a biodiversidade regional extrapolam fronteiras nacionais. Sem coordenação latino-americana, cresce a influência externa sobre métricas, mecanismos de financiamento e condicionalidades ambientais.
Ao mesmo tempo, países da região mantêm agência relevante em negociações climáticas globais, o que demonstra que a perda de protagonismo não é inevitável, mas resulta da falta de articulação regional consistente.
Projetos regionais concebidos para reunir governos de orientação política semelhante
Parte significativa do fracasso histórico da integração latino-americana relaciona-se à sua instrumentalização ideológica. Projetos regionais foram concebidos para reunir governos de orientação política semelhante, subordinando a cooperação econômica e institucional a afinidades conjunturais.
Essa lógica produziu arranjos frágeis, sujeitos a rupturas a cada mudança eleitoral. Fatores estruturais também desempenharam papel central: assimetrias econômicas, baixa complementaridade produtiva, déficits institucionais e instabilidade política doméstica. A combinação desses elementos comprometeu a continuidade dos projetos integracionistas.
A comparação com a experiência europeia ajuda a iluminar esse ponto, desde que realizada com cautela. A integração europeia não surgiu da homogeneidade política, mas da convergência estratégica em torno de interesses comuns, regras estáveis e mecanismos de confiança entre Estados distintos. Trata-se de uma referência funcional, não de modelo transplantável para a realidade latino-americana.
Sinais recentes indicam uma inflexão possível. Fóruns regionais que reúnem governos de diferentes orientações políticas, com foco em diálogo pragmático e interesses compartilhados, revelam que a cooperação ainda encontra espaço. A percepção de vulnerabilidade diante de um mundo mais competitivo e menos cooperativo estimula convergências antes improváveis.
Nesse contexto, a unidade latino-americana deixa de ser projeto identitário e assume contornos de sobrevivência estratégica. Para o Brasil, essa mudança de enfoque é decisiva. A política externa brasileira construiu relevância por meio do multilateralismo, da mediação e da articulação regional.
Em um ambiente internacional mais áspero, essa tradição enfrenta limites evidentes quando exercida de forma solitária. A coordenação com os vizinhos amplia escala, confere legitimidade e fortalece posições negociadoras.
A unidade latino-americana dificilmente emergirá como gesto grandioso ou projeto definitivo. Ela tende a avançar por meio de cooperações parciais, agendas concretas e interesses compartilhados. Ainda assim, a alternativa — isolamento e fragmentação — apresenta custos crescentes.
A antiga utopia integracionista cede lugar a uma constatação pragmática: em um mundo de potências assertivas e regras tensionadas, a desunião regional deixou de ser neutra. Para o Brasil, trata-se de escolha estratégica, não de retórica diplomática.
Armando Alvares Garcia Júnior, Profesor de Derecho Internacional y de Relaciones Internacionales, UNIR – Universidad Internacional de La Rioja
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