Lula na ONU
Discurso do presidente preencheu um duplo objetivo: mostrar Lula como um estadista mundial e reforçar sua imagem para o público interno e dar claros recados ao presidente Trump e a Marco Rubio

O discurso do presidente Lula na Assembleia Geral da ONU não trouxe nenhuma surpresa. A exemplo dos seus discursos anteriores e mesmo comparado ao teor do discurso de Donald Trump, que falou em seguida, o pronunciamento foi dividido em duas partes.
No início do discurso, Lula tratou do cenário internacional, repetindo as principais prioridades da política externa como a crítica ao unilateralismo e o enfraquecimento do multilateralismo, o tarifaço de Trump, a inércia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a necessidade de se buscar a paz nas guerras da Ucrânia e do Irã e a criação do Estado Palestino, chamando de genocídio a atuação de Israel na Faixa de Gaza.
Em seguida, Lula focalizou temas claramente dirigidos para o público interno, sempre ressaltando a defesa da soberania e o fortalecimento da democracia.
Nesse contexto, Lula criticou de maneira direta e de maneira sem citar o nome de Trump ou dos EUA, os desmandos das superpotências, a política de influência e domínio nas ações de Washington na América Latina, com crítica ao que está ocorrendo na Venezuela e em Cuba.
‘Em contraposição à política norte-americana de “usar a força militar para preservar os interesses dos EUA na região”, o presidente brasileiro observou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”’
Em contraposição à política norte-americana de “usar a força militar para preservar os interesses dos EUA na região”, como disse Trump, logo em seguida ao discurso de Lula, o presidente brasileiro observou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e que “não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”.
Crime organizado, corrupção, meio ambiente, petróleo, desmatamento, protecionismo, tarifaço, geração de valor na exploração de minérios críticos, fronteiras, crianças, adolescentes e mulheres, educação, 6×1, nível tecnológico (Big Techs e IA), PIX foram mencionados em tom de campanha.
No final, como em um palanque, Lula tratou das eleições presidenciais, de forma que poderá ser usado no debate interno:
“No dia quatro de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo. Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão. Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país. Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto. Sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”.
O discurso, assim, preencheu um duplo objetivo: mostrar Lula como um estadista mundial e reforçar sua imagem para o público interno e dar claros recados ao presidente Trump e a Marco Rubio, em especial no tocante a doutrina de influência regional, com a oposição do Brasil.
O pronunciamento de Lula representa mais uma escalada na crise político-diplomática com os EUA. Resta esperar para ver se haverá alguma reação do governo norte-americano às referências feitas por Lula.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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