03 março 2023

Maria Auxiliadora Figueiredo: A presença da África em Davos

Fórum Econômico Mundial concedeu à África em 2023 um tratamento privilegiado na linha de discussão sobre cooperação em um mundo fragmentado. Para embaixadora, momento de “desglobalização” e de estagnação econômica torna natural que os olhares do mundo ocidental de negócios se voltem para a África e suas oportunidades Por Maria Auxiliadora Figueiredo* “África marca presença […]

Fórum Econômico Mundial concedeu à África em 2023 um tratamento privilegiado na linha de discussão sobre cooperação em um mundo fragmentado. Para embaixadora, momento de “desglobalização” e de estagnação econômica torna natural que os olhares do mundo ocidental de negócios se voltem para a África e suas oportunidades

Evento realizado na Casa África no fórum de Davos (Foto: Divulgação)

Por Maria Auxiliadora Figueiredo*

“África marca presença no Fórum Econômico Mundial em Davos” é o título de artigo de 16 de janeiro último do editor-sênior de negócios da Deutsche Welle, Ashutosh Pandey, que, curiosamente, não trata da presença da África no último Fórum Econômico Mundial, mas reitera os prognósticos negativos sobre o continente que interessam ao Fórum reverter. De favoráveis, há menções à participação da Namíbia no evento de 2022 e algumas afirmações do presidente do Fórum, Borge Brende, talvez o único entrevistado pelo autor no corrente ano. 

No artigo, Pandey aborda a questão da luta da África contra o impacto duplo da pandemia e da guerra na Ucrânia. Sublinha que países como Gana enfrentam uma crise da dívida “em pleno agravamento da crise econômica”. Menciona o estudo anual de riscos, publicado recentemente pelo Fórum Económico Mundial, que coloca a crise global do custo de vida como o principal risco imediato, sendo “provável que as crises energéticas e alimentares persistam durante os próximos dois anos”. Evoca o Fundo Monetário Internacional (FMI), que espera que permaneça moderado o crescimento econômico da África Subsaariana –  “devido à desaceleração global, às condições financeiras mais restritivas e aos preços instáveis de produtos básicos” – e, como se não bastasse, recorda o Banco Mundial, segundo o qual “a atual crise econômica pode causar o aumento da pobreza na África Subsaariana, que já é o lar de cerca de 60% dos pobres extremos do mundo”.

Ressalte-se, porém, que o Fórum Econômico Mundial concedeu à África em 2023 um tratamento privilegiado, na linha do tema do corrente ano – a “Cooperação num Mundo Fragmentado” – e de seus propósitos. Segundo Klaus Martin Schwab, fundador do Fórum, na abertura do evento:     

“Vemos que múltiplas forças políticas, econômicas e sociais estão provocando uma crescente fragmentação do mundo tanto em nível global quanto nacional. Para corrigir as causas dessa erosão de confiança, precisamos fortalecer a cooperação entre governos e negócios, criando as condições para uma recuperação robusta e sustentável. Precisamos, ao mesmo tempo, reconhecer que o desenvolvimento econômico precisa tornar-se mais resiliente, mais sustentável e que ninguém deve ser deixado para trás.” (tradução livre) (grifo meu) [i]

E, com efeito, a África não foi descuidada. Foram realizadas duas importantes conferências: “Implementando o Século da África” (Realizing Africa´s Century) e “Relançando o Crescimento na África” (Reigniting Growth in Africa), que contaram com panelistas como o atual presidente da Suíça, a primeira-ministra da Tunísia, o ministro das Finanças do Zimbábue, o governador do Banco Central do Quênia, a CEO do Standard Bank Group, o editor-chefe da Consumers News and Business Channel Africa (CNBC-Africa), entre outros.

A primeira das conferências teve por objetivo demonstrar que a África é a região com maior número de jovens no século XXI e a que mais cresce. O continente contém 65% da área arável não cultivada do mundo, dispõe de vasto potencial de energia renovável e de abundância de minerais críticos para a transição energética. Antes da guerra na Europa, o Egito, por exemplo, importava da Rússia 61% do trigo que consumia e 23%, da Ucrânia. No entender dos panelistas, os atores privados e os representantes políticos da África precisam explorar todas as possibilidades de romper com tamanha dependência.

A questão da dívida foi objeto de debates em ambas as ocasiões. Segundo informou a diretora da Unaids, Winnie Byanyima, os países africanos estão gastando duas vezes mais em pagamentos da dívida do que desembolsam em educação – e quatro vezes mais do que despendem em seus orçamentos de saúde.

No segundo painel, foram revistas questões como o restrito espaço fiscal dos países da África Subsaariana, o acesso desigual às finanças internacionais e as crescentes vulnerabilidades provocadas pela dívida externa. Foram também discutidas quais políticas seriam necessárias para aumentar a diversificação econômica e desencadear o potencial do setor privado na região.

Como é da índole da entidade, a resposta aos desafios para o crescimento econômico se encontra na busca por soluções público-privadas, as quais foram objeto do estudo realizado pelo Fórum e publicado em janeiro com o título “AfCFTA: A New Era for Global Business and Investment in Africa[ii]. O relatório, disponibilizado no site do Fórum, analisa a fundo os quatro setores que deverão acelerar os volumes de produção e comércio no Continente, quais sejam: a indústria automotiva, agricultura e processamento agroindustrial, farmacêuticos e transportes e logística.

Além de fornecer as ferramentas operacionais necessárias para o estabelecimento de empresas no âmbito do Tratado de Livre Comércio, o relatório examina casos específicos de empreendimentos de êxito na África e estratégias que servem para guiar empresários na criação ou na expansão de seus negócios na África.

A jornalista Mérième Alaoui, em artigo publicado pela ANA[iii], “Davos, the new world order and Africa, considera que a atenção concedida pelo Fórum à África se deveria à diversidade de posições no continente quanto à invasão da Ucrânia pela Rússia.  Recorde-se que, nas Nações Unidas em outubro último, apenas 26 países africanos condenaram a invasão e 19 se abstiveram, número que revelaria persistente e preocupante distanciamento do Ocidente.  

Contudo, neste momento de “desglobalização” e de estendida estagnação econômica, é apenas natural que os olhares do mundo ocidental de negócios se voltem para a África – ou para o “seu” próprio futuro. A população jovem e ambiciosa, a crescente classe média e a célere urbanização do continente prenunciam um mercado amplo e diversificado para produtos e serviços de toda a ordem. Tudo indica que predominou em Davos o pensamento do panelista Imtiaz Patel, presidente do Multichoice Group Services, que externou: Os africanos são resilientes. Têm fome de crescimento. Todos querem uma vida melhor e o espírito do povo nunca deve ser subestimado.” (tradução livre) [iv]


*Maria Auxiliadora Figueiredo é diplomata e colunista da Interesse Nacional. Nascida em Areado, MG, formou-se em Letras pela USP e ingressou no Itamaraty por concurso direto em 1978. Em Brasília, trabalhou na Divisão da Ásia e Oceania, na Subsecretaria-Geral para Assuntos Políticos e foi chefe, interina, da Divisão da África Austral (DAF-II). No exterior, serviu em Madri, Port-of-Spain, Maputo, Lisboa, Quito e Lagos, onde foi cônsul-geral. Serviu, ainda, como embaixadora do Brasil em Abidjã e Kuala Lumpur


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional.


Referências:

[i] Texto original: “We see that multiple political, economic, and social forces are creating increased fragmentation at the global and national levels. To address the root causes of this erosion of trust, we must strengthen cooperation between governments and businesses, creating the conditions for a robust and sustainable recovery. We must, at the same time, recognize that economic development must be made more resilient, more sustainable and that no one should be left behind.”

[ii][ii] “Tratado Continental Africano de Livre Comércio: Uma Nova Era para Negócios e Investimentos Globais na África” (tradução livre). Relatório disponibilizado no site do próprio Fórum: https://www.weforum.org/reports/afcfta-a-new-era-for-global-business-and-investment-in-africa/.

[iii] African News Agency (ANA). Davos, a nova ordem mundial e África.

[iv] Africans are resilient. They are hungry for growth. Everybody wants a better life, and the spirit of people should never be underestimated


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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