Não se deve exigir da ONU mais do que ela pode entregar
A ONU não foi desenhada para constranger decisivamente as grandes potências em questões de segurança vital, mas para evitar que seus conflitos escalassem para guerras sistêmicas, e o discurso de que ela é inútil não é neutro e tende a reforçar narrativas que deslegitimam o multilateralismo e privilegiam uma visão do sistema internacional baseada exclusivamente na força

A recorrente afirmação – muitas vezes travestida de meme – de que a ONU “não serve para nada” revela menos sobre a organização e mais sobre uma expectativa equivocada a seu respeito. Trata-se de um julgamento que parte de um critério inadequado: cobra-se da ONU aquilo que ela nunca foi concebida para entregar.
Para compreender esse descompasso, é necessário retornar às origens da Organização das Nações Unidas. Criada no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, sua arquitetura institucional refletiu um diagnóstico muito específico: o fracasso da ordem internacional anterior em evitar uma catástrofe sistêmica.
Como sintetizou o então secretário-geral Dag Hammarskjöld, a ONU “não foi criada para levar a humanidade ao paraíso, mas para salvá-la do inferno”. Esse enunciado não é retórico; ele expressa o núcleo funcional da organização. Desde as negociações de alta política entre as potências vencedoras – incluindo arranjos delineados em conferências como a Conferência de Potsdam – o objetivo central era construir um mecanismo de gestão do equilíbrio de poder. O Conselho de Segurança, com seus membros permanentes e poder de veto, é a cristalização institucional desse compromisso. Ele não é uma disfunção do sistema; é o próprio sistema.
‘Esperar que a ONU atue contra os interesses estratégicos das grandes potências equivale a ignorar a lógica fundadora da organização’
Dessa perspectiva, esperar que a ONU atue contra os interesses estratégicos das grandes potências – especialmente aquelas que detêm poder de veto – equivale a ignorar a lógica fundadora da organização. Não se trata de uma falha operacional, mas de uma limitação estrutural deliberada. A ONU não foi desenhada para constranger decisivamente as grandes potências em questões de segurança vital; foi desenhada para evitar que seus conflitos escalassem para guerras sistêmicas.
Essa constatação, contudo, não autoriza a conclusão de que a ONU seja irrelevante. Ao contrário, revela a necessidade de deslocar o foco analítico para aquilo que a organização efetivamente faz – e faz com notável consistência histórica.
Em primeiro lugar, a ONU cumpre uma função crucial como canal institucionalizado de comunicação entre Estados, inclusive – e sobretudo – entre rivais estratégicos. Em um sistema internacional marcado pela anarquia, a existência de fóruns permanentes de diálogo reduz incertezas, mitiga riscos de escalada e amplia a transparência. Esse papel é frequentemente invisível ao grande público, mas central para a estabilidade internacional.
‘A ONU se consolidou como o principal espaço de negociação multilateral de alcance universal’
Em segundo lugar, a ONU se consolidou como o principal espaço de negociação multilateral de alcance universal. Nenhuma outra organização reúne praticamente todos os Estados soberanos em uma mesma arena deliberativa, com capacidade de pautar agendas globais. Esse caráter inclusivo permite que temas diversos – de segurança a desenvolvimento, de direitos humanos a meio ambiente – sejam discutidos sob uma lógica de governança compartilhada.
É nesse âmbito que se evidenciam algumas das contribuições mais substantivas da organização. A promoção de uma cultura internacional de direitos humanos, por exemplo, deve muito ao ecossistema institucional das Nações Unidas. A consolidação de marcos normativos e a realização de conferências internacionais – como a de Teerã em 1968 – foram fundamentais para difundir padrões mínimos de proteção e responsabilização.
O mesmo pode ser dito em relação à agenda ambiental. A Conferência de Estocolmo, em 1972, representou um ponto de inflexão ao inserir o meio ambiente como tema estruturante da política internacional. Desde então, a ONU tem servido como plataforma para a negociação de regimes ambientais globais, ainda que sua implementação dependa, inevitavelmente, da vontade política dos Estados.
No campo econômico, iniciativas como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento demonstram o papel da ONU na articulação entre comércio, desenvolvimento e assimetrias estruturais. Ainda que frequentemente eclipsada por instituições financeiras internacionais, a UNCTAD foi – e continua sendo – um espaço relevante para a expressão de demandas do Sul Global.
‘O sistema ONU abriga uma multiplicidade de agências, programas e fundos que operam em áreas específicas e implementam políticas concretas, frequentemente em contextos de alta vulnerabilidade’
Além disso, o sistema ONU abriga uma multiplicidade de agências, programas e fundos que operam em áreas específicas: refugiados, infância, saúde, alimentação, desenvolvimento sustentável, entre outras. Esses organismos não apenas produzem conhecimento técnico, mas implementam políticas concretas, frequentemente em contextos de alta vulnerabilidade.
Portanto, reduzir a ONU ao desempenho do Conselho de Segurança em crises específicas – como Gaza, Líbano ou tensões envolvendo o Irã – é adotar uma visão analiticamente empobrecida.
Esses casos são, sem dúvida, graves e exigem respostas políticas robustas. Mas a incapacidade da ONU de agir decisivamente nesses contextos não decorre de um “fracasso” no sentido usual; decorre dos limites intrínsecos de uma organização intergovernamental cuja autoridade depende, em última instância, dos Estados.
‘A ONU não é um ator autônomo no sistema internacional’
Esse ponto é fundamental: a ONU não é um ator autônomo no sistema internacional. Ela não possui vontade própria dissociada de seus membros. Exigir que a organização “resolva” conflitos à revelia das grandes potências é, na prática, exigir que ela transcenda sua própria natureza institucional.
Isso nos leva a uma implicação política relevante. O discurso de que a ONU é inútil não é neutro. Ele tende a reforçar narrativas que deslegitimam o multilateralismo e privilegiam uma visão do sistema internacional baseada exclusivamente na força.
Nesse sentido, tal discurso converge, por exemplo, com posições adotadas por lideranças como Donald Trump, que reiteradamente questionaram a utilidade de organizações internacionais e defenderam abordagens mais unilaterais. Adotar essa narrativa implica, ainda que indiretamente, desconsiderar os ganhos que o multilateralismo proporcionou – especialmente para países que não figuram entre as grandes potências. Para esses Estados, a ONU representa um espaço de voz, de articulação e, em alguma medida, de constrangimento normativo das hierarquias internacionais.
‘Críticas à ONU devem partir de uma compreensão precisa de seu mandato e de suas limitações estruturais’
Nada disso significa minimizar a gravidade das crises contemporâneas ou relativizar o sofrimento humano envolvido. Tampouco implica defender que a ONU esteja isenta de críticas ou que não necessite de reformas. A discussão sobre a ampliação do Conselho de Segurança, a revisão do uso do veto ou o fortalecimento de mecanismos de responsabilização é legítima e necessária. O ponto central é outro: críticas à ONU devem partir de uma compreensão precisa de seu mandato e de suas limitações estruturais. Avaliar a organização com base em expectativas irreais não apenas conduz a diagnósticos equivocados, mas também obscurece suas contribuições efetivas.
A ONU não é – e nunca foi – um governo mundial capaz de impor soluções. Ela é, antes, um arranjo institucional que reflete as correlações de poder e as disposições políticas de seus membros. Sua relevância reside justamente em operar nesse espaço intermediário: nem irrelevante, nem onipotente. Em um contexto internacional marcado por tensões crescentes, rivalidades geopolíticas e desafios transnacionais complexos, a existência de um fórum universal de diálogo e negociação continua sendo um ativo estratégico. Descartá-lo com base em expectativas equivocadas é, no mínimo, um equívoco analítico; no limite, um risco político.
A ONU não nos levará ao paraíso. Mas, como sua própria origem nos lembra, sua função nunca foi essa. Em um mundo em que o “inferno” da guerra total permanece uma possibilidade, essa distinção faz toda a diferença.
Felipe Estre é doutor em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo e King’s College London. Atualmente, é pós-doutorando na Universidade de Brasília, onde estuda o impacto da Nova Direita nas práticas diplomáticas. Além disso, é colaborador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina (RESDAL).
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