13 fevereiro 2026

Nova corrida nuclear e o Brasil

A questão nuclear de novo volta ao cenário global em função do fim do Tratado de Controle das Armas Nucleares (START, na sigla em inglês) e cerca 40 países não nucleares (inclusive Arabia Saudita, Emirados, Japão) manifestam intenção em se armar nuclearmente para responder aos desafios do mundo novo

Exposição militar no gramado da Esplanada dos Ministérios apresenta aparelhos de segurança e defesa do Estado (Foto: Agência Brasil)

O deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP) é o novo presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (Credn) da Câmara dos Deputados.

O deputado Luiz Philippe é um dos poucos conhecedores e interessados em assuntos de Defesa e, no último ano, manifestou reiteradamente sua posição favorável à revisão de compromissos internacionais do Brasil na área nuclear. 

‘O deputado afirmou que o mundo estaria dividido entre países que possuem armas nucleares e aqueles que, por força do tratado, ficariam impedidos de desenvolver tecnologia nuclear.’

Em dezembro, foi autor de um parecer aprovado pela Credn que derrubou a ratificação do Tratado para a Proibição das Armas Nucleares (TPAN), ao qual o Brasil havia aderido em setembro de 2017. O TPAN é um acordo internacional promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) que proíbe o desenvolvimento, a posse, o uso e a ameaça de uso de armas nucleares, além de impedir a assistência a programas desse tipo. O tratado entrou em vigor em 2021 e busca avançar no desarmamento nuclear global, embora não tenha sido assinado por potências que já detêm esse tipo de armamento. Ao defender seu parecer, o deputado afirmou que o mundo estaria dividido entre países que possuem armas nucleares e aqueles que, por força do tratado, ficariam impedidos de desenvolver tecnologia nuclear.

“A verdade é que, com o TPAN, o mundo se dividiria entre aqueles que não têm e não podem desenvolver tecnologia nuclear por força do tratado e aqueles que já têm essas capacidades ou buscam assegurar o direito de desenvolvê-las. Resta-nos decidir em qual desses grupos desejamos estar. E, convenhamos, a probabilidade de o TPAN vir a lograr o objetivo de eliminação das armas nucleares é extremamente remota”, afirmou à época.

O parecer derrubando a ratificação do Tratado foi aprovado pela Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional em 10 de dezembro do ano passado. 

Mais recentemente, Luiz Philippe voltou a comentar o tema em suas redes sociais, sustentando que o acordo “neutralizava o Brasil” ao limitar sua capacidade de, no futuro, desenvolver uma arma nuclear. Em uma das publicações, afirmou que o TPAN seria “tão impeditivo que emasculava o Brasil”. 

“O que eu acho importante é a gente ter a capacidade, da nossa indústria bélica até o regulamento de efetivação das nossas Forças Armadas, de poder usar, caso entendermos necessário para nos defender de qualquer ameaça”, disse. Segundo o deputado, a manutenção do tratado permitiria que qualquer país pudesse “encurralar” o Brasil em negociações internacionais.

‘Luiz Philippe afirmou que dará prioridade a projetos de combate ao crime organizado transnacional, ao fortalecimento do controle migratório e à vigilância das fronteiras’

Em seu discurso ao assumir a presidência da comissão, Luiz Philippe afirmou que dará prioridade a projetos de combate ao crime organizado transnacional, ao fortalecimento do controle migratório e à vigilância das fronteiras. 

“O Estado brasileiro precisa recuperar presença, coordenação e capacidade de dissuasão. Defesa nacional não é política social. As Forças Armadas precisam assumir, sem ambiguidade, o papel para o qual foram criadas: defender a pátria, proteger o território e garantir a soberania”, afirmou.

Na linha do novo presidente da Creden da Câmara dos Deputados, o embaixador José Bustani e o economista Paulo Nogueira Batista defenderam a discussão sobre o restabelecimento do programa nuclear brasileiro.

‘A Constituição determina que a pesquisa e o desenvolvimento na área nuclear só podem acontecer para fins pacíficos, ficando proibida a construção de artefatos nucleares’

A Constituição brasileira, em seu artigo 21, inciso XXXIII, alínea A, determina que a pesquisa e o desenvolvimento na área nuclear só podem acontecer para fins pacíficos, ficando proibida a construção de artefatos nucleares. Por outro lado, as restrições financeiras atuais impedem qualquer esforço na direção proposta. Sem falar no cenário internacional em que o poder se exerce pela força e a superpotência nuclear tem política clara em relação ao assunto no tocante aos países até aqui não nucleares, como se observa no caso do Irã. 

Em função dessa cláusula, o Brasil, no governo FHC, mudou de posição e ratificou o Tratado de Não Proliferação, de 1998, principal instrumento multilateral para impedir a expansão das armas nucleares, mas hoje resiste em aceitar protocolo adicional que ampliaria o controle e as inspeções sobre instalações brasileiras.

“Eu e o embaixador Jorio Dauster mostramos as vulnerabilidades do Brasil na área de Defesa e a consequência disso para a defesa da soberania do território nacional’

No artigo Brasil País Indefeso, o embaixador Jorio Dauster e eu mostramos as vulnerabilidades do Brasil na área de Defesa e a consequência disso para a defesa da soberania do território nacional, mas sem entrar nessa controvertida proposição. O que não quer dizer que o Brasil não deva avançar em políticas para fortalecer o domínio – que já tem – do ciclo do combustível nuclear.

Essa discussão ocorre no momento em que a questão nuclear de novo volta ao cenário global em função do fim do Tratado de Controle das Armas Nucleares (START, na sigla em inglês) e cerca 40 países não nucleares (inclusive Arabia Saudita, Emirados, Japão) manifestam intenção em se armar nuclearmente para responder aos desafios do mundo novo. 

O fim do Tratado coloca em risco mais de meio século de tentativa dos EUA e Rússia de limitar seus arsenais (86% do estoque global de armas nucleares). Os EUA aceitam negociar um novo tratado, desde que inclua a China, cujo arsenal nuclear está crescendo rapidamente, mas está longe do tamanho dos arsenais russos e norte-americano.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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