18 julho 2022

Novos rumos na Colômbia: a inédita vitória da esquerda no país

Votação histórica teve participação recorde de eleitores e mobilização contra o establishment político do país e a atual crise econômica. Escolhido como primeiro governante de esquerda, Gustavo Petro vai enfrentar uma série de desafios para avançar sua agenda progressista no país tradicionalmente conservador

Votação histórica teve participação recorde de eleitores e mobilização contra o establishment político do país e a atual crise econômica. Escolhido como primeiro presidente de esquerda, Gustavo Petro vai enfrentar uma série de desafios para avançar sua agenda progressista no país tradicionalmente conservador

Gustavo Petro celebra sua vitória na eleição colombiana (Divulgação)

Por Fernanda Nanci Gonçalves

Sem dúvidas, as eleições de 2022 na Colômbia marcaram sua história. O país, tradicionalmente governado por uma elite política que se alternava entre conservadores e liberais, terá, pela primeira vez, um presidente de esquerda no poder.

A vitória de Gustavo Petro, da coligação “Pacto Histórico” se deu no segundo turno em 19 de junho, após uma eleição disputada com um candidato não tradicional da política colombiana, o engenheiro Rodolfo Hernández, da “Liga de Governadores Anticorrupção”. Diferentemente de Petro, que é conhecido por ter sido guerrilheiro, deputado, prefeito de Bogotá e senador, seu oponente surgiu como um “outsider” e conseguiu uma ascensão histórica no primeiro turno.

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Embora no país o voto não seja obrigatório, um número expressivo de colombianos compareceu às urnas para a definição do segundo turno (58,09%), deixando a abstenção em 41,91%, o menor índice em mais de 20 anos. A mobilização da população para esta eleição presidencial tem relação direta com o contexto de crise política, econômica e social que o país está enfrentando nos últimos anos, com o desemprego elevado, alta inflação, aumento no índice de pobreza e de desigualdade.

‘A pandemia de Covid-19 teve um efeito perverso sobre o país, mas a insatisfação da população com o status quo não é apenas decorrente dos seus impactos, mas fruto da política tradicional colombiana’

É claro que a pandemia de Covid-19 teve um efeito perverso sobre o país, mas a insatisfação da população com o status quo não é apenas decorrente dos seus impactos, mas fruto da política tradicional colombiana. Nos anos de 2020 e 2021 a população já expressava sua insatisfação com o establishment político e protestava nas ruas, demandando reformas estruturais. A rejeição ao atual presidente, Iván Duque, do Centro Democrático (partido liderado pelo conservador Álvaro Uribe), chegou a mais de 70%.

Nesse sentido, essa eleição presidencial marcou um maior ativismo da população colombiana, que se mobilizou para decidir novos rumos para a política do país: fosse com Petro e uma via de esquerda; fosse com Hernández, um outsider da política nacional. Mas, como a esquerda conseguiu sair vitoriosa nestas eleições?

O primeiro turno das eleições presidenciais ocorreu no dia 29 de maio. Até aquele momento, as pesquisas de intenção de voto mostravam um crescimento do candidato Rodolfo Hernández, mas estava previsto que Federico Gutiérrez, ex-prefeito de Medellín e candidato pela coligação “Equipe pela Colômbia”, passaria ao segundo turno, marcando uma disputa polarizada entre direita e esquerda na reta final das eleições no país. Entretanto, de forma inesperada, Hernández assumiu a segunda posição, recebendo 28,15% dos votos, enquanto Gutiérrez teve 23,91%. Por sua vez, Petro, candidato de esquerda, confirmou as pesquisas de intenção e ficou como o primeiro colocado, com 40,32% de votos.

Embora Gutiérrez tenha buscado se mostrar como um candidato independente, teve o apoio dos partidos tradicionais e do atual presidente. Ele se esforçou para se apresentar como uma alternativa da direita às políticas de Duque, contudo suas propostas e o apoio dos grupos tradicionais não foram suficientes para garantir sua passagem para o segundo turno, uma vez que a população colombiana se encontra insatisfeita com a manutenção da estrutura política do país, demandando mudanças reais.

‘A insatisfação generalizada dos eleitores colombianos com o establishment político ficou clara com o grande apoio que Petro recebeu em seu pleito presidencial desde o primeiro turno’

Essa insatisfação generalizada dos eleitores colombianos com o establishment político ficou clara com o grande apoio que Petro recebeu em seu pleito presidencial desde o primeiro turno. Mostrando-se como uma alternativa à tradicional política, o candidato promoveu uma campanha baseada no discurso de promover uma “mudança pela vida”, realizando reformas profundas, como a mudança da matriz energética e a descarbonização da economia, tornando a Colômbia menos dependente do petróleo. Ademais, baseou-se na proposta de promoção de uma reforma agrária para lidar com a desigualdade na posse e uso da terra, além de buscar a “desmilitarização da vida social”, revisitando o papel da polícia e das Forças Armadas. Junto com sua vice, Francia Márquez, líder social e ambiental afro-colombiana, deixou claro que buscaria promover políticas para as minorias.

Petro já havia sido candidato à presidência na Colômbia em 2010, com pouca expressividade, e em 2018, ficando em segundo lugar. O temor à vitória da esquerda na Colômbia é intenso, porém a rejeição às propostas tradicionais pela maior parte dos colombianos permitiu que nas eleições deste ano a chapa Petro-Márquez tenha ganhado força. A esse respeito, vale mencionar que a coalizão “Pacto Histórico” obteve a maioria de cadeiras no Senado nas eleições legislativas de março.

Essa mesma insatisfação com o status quo político permitiu que Hernández, até então um candidato pouco conhecido pela maioria da população colombiana, ganhasse força na reta final do primeiro turno. O então candidato, que também formou chapa com uma candidata à vice–presidente mulher, Marelen Castillo, ficou conhecido como o Trump colombiano, por ser um empresário de 77 anos do setor da construção que se posicionou como um “outsider”, usando um estilo próprio de fazer política, sendo menos diplomático e formal, virando tendência nas redes sociais por meio de sua campanha no TikTok. Contudo, é importante mencionar que Hernández não deve ser vinculado ao movimento internacional de extrema-direita que auxiliou a campanha de Trump e outras lideranças. A própria atribuição de um espectro político ao então candidato é complicada, devido à falta de um viés ideológico claro de suas propostas. De todo modo, o que fez o “engenheiro Hernández” ganhar força nas eleições foi seu discurso antissistema contra a política tradicional e a corrupção, em uma linguagem popular.

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Após os resultados do primeiro turno, como era de se esperar, houve uma transferência de votos da direita e inclusive do centro para Hernández. O sentimento “antipetrismo”, que representa a posição contra a esquerda no país, se manifestou com intensidade nesse cenário, sendo alimentado pelas críticas a sua gestão como prefeito de Bogotá, aos questionamentos por ter sido guerrilheiro do M19 e, principalmente, pela ideia de que a Colômbia poderia se tornar uma “segunda Venezuela”, caso ele fosse eleito.

Assim, Hernández começou a ganhar força nas pesquisas de intenção de voto e continuou adotando seu discurso anti-establishment, usando sua tradicional forma direta de opinar sobre a política, intensificando o uso de redes sociais. Contudo, deixou de aparecer em entrevistas e decidiu não participar em debates, como fizera em outras ocasiões no primeiro turno. Apesar disso, sua base de apoio cresceu.

‘Para lidar com o fenômeno da ascensão de Hernández, a estratégia de Petro foi realizar uma campanha ativa nas cidades, focando nos jovens e nas mulheres’

Para Petro, uma situação contrária ao seu concorrente se impunha, pois suas possibilidades de ampliar sua base de eleitores era mais difícil, visto que seu eleitorado já estava mais definido e ele não estava concorrendo diretamente com uma oposição polarizada em termos de esquerda e direita, como seria com Gutiérrez. Para lidar com o fenômeno da ascensão de Hernández, a estratégia de Petro foi realizar uma campanha ativa nas cidades, focando nos jovens e nas mulheres, utilizando de forma positiva o peso de sua vice Francia Márquez e dos cerca de 780.000 votos que ela obteve nas primárias das eleições colombianas, ficando como terceira colocada ao pleito presidencial. Por fim, a chapa Petro-Márquez foi eleita com 50,44% dos votos, superando Hernández que obteve 47,31%.

Sem dúvida alguma, o triunfo de Petro representa uma vitória histórica na Colômbia, país onde candidatos de esquerda foram assassinados antes mesmo de chegarem ao poder. As eleições deste ano, tanto as parlamentares de março como a presidencial recém realizada, apresentaram um grande perdedor: o uribismo, força que ao longo do século XXI orientou a agenda política colombiana. Além do Centro Democrático não lançar um candidato, apenas apoiando a Gutiérrez, enfraqueceu sua posição nas eleições parlamentares, quando perdeu 22 cadeiras no Congresso. Também os partidos Liberal e Conservador, dominantes na vida política do país, não tiveram atuação protagônica nestas eleições, o que demonstra uma importante mudança na composição de forças da política colombiana.

‘Se as propostas de Petro e Márquez serão totalmente implementadas é algo difícil de prever, pois eles enfrentarão uma série de desafios para avançar sua agenda progressista no país tradicionalmente conservador’

Se as propostas de Petro e Márquez serão totalmente implementadas é algo difícil de prever, pois eles enfrentarão uma série de desafios para avançar sua agenda progressista no país tradicionalmente conservador. Ademais, no Legislativo as forças de direita ainda possuem peso considerável e poderão utilizar de sua influência para frear algumas reformas. De todo modo, são ventos de mudança que sopram na região e no país, em particular. O próprio discurso de Petro ao vencer as eleições mostra essa tendência de mudança na Colômbia, pois o novo presidente afirmou que seu objetivo é construir um “grande acordo nacional” para abandonar os “sectarismos”.

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Também não escapou de seu discurso a menção à política exterior colombiana. Para ele, o país deve assumir sua identidade latino-americana e se posicionar como uma liderança no combate à mudança climática. Petro destacou ainda a importância da Amazônia, de combater o processo extrativista e adotar uma política para o meio ambiente que estabeleça um diálogo com os demais presidentes da América Latina. Ademais, chamou a atenção para rediscutir as relações bilaterais com os EUA na área ambiental.

Com a tríade justiça ambiental, justiça social e paz como componentes fortes de seu discurso, Petro terá nos próximos anos o desafio prático de implementar o seu “governo pela vida”.


Fernanda Nanci Gonçalves é professora de relações internacionais no Unilasalle-RJ e na UFRJ. É coordenadora do NEAAPE (Iesp-UERJ) e colaboradora do OPSA (Iesp-UERJ).


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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