08 janeiro 2026

O dilema do Brasil diante da intervenção americana na Venezuela

O bombardeio da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2026 colocaram o governo brasileiro diante de um dilema. De um lado, o governo tem incentivos para criticar duramente o governo Trump e liderar iniciativas multilaterais que tentem conter o intervencionismo dos Estados Unidos. Não […]

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, durante Sessão Plenária da Cúpula Brasil-Caribe, no Palácio Itamaraty. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O bombardeio da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2026 colocaram o governo brasileiro diante de um dilema. De um lado, o governo tem incentivos para criticar duramente o governo Trump e liderar iniciativas multilaterais que tentem conter o intervencionismo dos Estados Unidos. Não é de nenhum interesse do Brasil que os Estados Unidos bombardeiem um país vizinho, deponham seu chefe de estado e normalizem intervenções militares nas Américas.

De outro lado, liderar um movimento global de oposição ao governo Trump parece inviável e arriscaria retaliações em um momento sensível da política externa e doméstica brasileiras. O governo Trump reverteu as tarifas adicionais impostasao Brasil após cerca de três meses de vigência, o bolsonarismo saiu politicamente derrotadodo episódio, há agora canais diplomáticos abertos entre os governos Trump e Lula, e trata-se de um ano de eleições presidenciais no Brasil.

Lula condenou a operação de decapitação do governo Maduro algumas horas após a ação. Em 5 de janeiro, em reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), o embaixador brasileiro junto à ONU, Sergio Danese, afirmou que o bombardeio da Venezuela e a captura de Maduro são “afrontas gravíssimas à soberania da Venezuela e estabelecem um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”. Posições similares foram adotadas pelos representantes do Chile e do México. Eles estão corretos.

Mas, pelo menos no momento, não parece que o governo brasileiro fará muito além disso. A posição brasileira é adequada, especialmente quando se considera a excepcionalidade do evento? Afinal, a capital de um país vizinho foi bombardeada e um chefe de estado foi deposto. Reside aí o dilema.

Sair da retórica teria custos elevados

Um obstáculo central para a política externa brasileira é o pouco espaço para uma iniciativa multilateral contra o governo Trump. Em um contexto de erosão do multilateralismo tanto globalmente como na região, os problemas de ação coletiva se tornam ainda maiores do que seriam em circunstâncias normais. Poucos governos apoiaram abertamente a operação de decapitação do governo Maduro, mas os custos e riscos individuais de sustentar iniciativas contra os Estados Unidos são elevados.

De um lado, o governo brasileiro tem incentivos para criticar duramente a operação e tentar impedir novas ações do tipo por meio da ênfase em normas e organizações internacionais. Para usar um termo de Susan Strange, o Brasil carece de poder estrutural e, assim, recorre a normas e ao direito internacional como forma de proteger a si mesmo e a outros de possíveis intervenções externas. O direito internacional, o multilateralismo e normas como a soberania e a não-intervenção funcionam como escudos contra intervenções. A condenação pelo presidente Lula da captura de Maduro e a posição do Brasil no Conselho de Segurança estão alinhadas a esses incentivos.

Contudo, o governo brasileiro enfrenta uma limitação estrutural. Avançar além da condenação retórica exigiria disposição para liderar iniciativas diplomáticas em um contexto regional fragmentado e com poucos países dispostos a criticar os Estados Unidos de forma aberta e sustentada.

Diferentemente dos anos 2000, quando havia alguma capacidade de coordenação regional, hoje não existe um espaço capaz de absorver uma crise dessa magnitude. A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) carece de instrumentos para tanto. A Organização dos Estados Americanos (OEA),com sede em Washington, está politicamente capturada. E iniciativas independentes exigiriam um investimento de capital diplomático arriscado e de retorno incerto.

Fora da região, tampouco parece haver disposição em se enfrentar os Estados Unidos. As respostas vindas da Europa foram quase todas tímidas ou complacentes. Rússia e Chinacriticaram a operação, mas não estão dispostas a sacrificar relações com os Estados Unidos em defesa da Venezuela. E a ação dos Estados Unidos se alinha aos objetivos de Rússia e China de construir e manter suas próprias esferas de influência. Para ambas, a deposição de Maduro pode ser uma perda tática, mas um ganho estratégico. A América Latina está sozinha.

No Brasil, contexto doméstico não é favorável

Para o Brasil, confrontar os Estados Unidos poderia implicar custos políticos e econômicos. Sobretudo após o governo brasileiro ter conseguido reverter as tarifas impostas pelo governo Trump e reabrir canais diplomáticos antes bloqueados.

O contexto doméstico brasileiro se soma a estes incentivos. O governo Lula opera com um Congresso de maioria conservadora e uma oposição disposta a explorar qualquer movimento que possa ser interpretado como conivência com o governo venezuelano. O fato de haver eleições presidenciais neste ano torna o governo especialmente sensível aos riscos de envolvimento em disputas que poderiam ser exploradas politicamente pela oposição e ampliar os riscos de interferência do governo Trump nas eleições.

Além disso, Lula já tinha se distanciado do governo Maduro, assim como outros líderes na América Latina. Manifestar qualquer apoio ao presidente venezuelano havia se tornado politicamente tóxico.

De acordo com dados do Latinobarómetro, Maduro era o líder menos popular das Américas. Em uma escala de 0 a 10 (em que 0 representa um líder muito ruim e 10 um líder muito bom), 69% dos respondentes deram nota igual ou inferior a 3 para Maduro. Como comparação, esses percentuais foram de 34% para Trump, 15% para Lula e 7% para Nayib Bukele.

Outro ponto que não deve passar despercebido é que a decapitação do governo Maduro pode resultar na reorganização do chavismo, e não em sua derrota. Na coletiva de imprensa de Trumpem 3 de janeiro, ele ignorou a oposição venezuelana, deixando claro que a operação não foi concebida como parte de uma transição negociada.

Trump não mencionou Edmundo González, vencedor das eleições de 2024, e afirmou que María Corina Machado não teria o apoio e o respeito necessários para governar o país. A CIA temiaque ela não conseguisse controlar as forças de segurança venezuelanas. Se o governo brasileiro já não desejava Maduro no poder, tampouco se sente confortável com María Corina Machado e a possibilidade de ainda mais desestabilização em sua fronteira norte.

Abordagem bilateral pode ser promissora

Nesse contexto, a cautela brasileira parece resultar de um cálculo. Essa opção, no entanto, tem custos. Por não ser um protagonista, o Brasil adota uma posição reativa, limitando-se a responder a fatos consumados. Essa postura reduz riscos imediatos, mas reforça a exclusão do Brasil de processos decisórios centrais sobre os rumos da Venezuela. E, caso a lógica do militarismo e do intervencionismo dos Estados Unidos nas Américas se consolide, ela se tornará cada vez mais difícil de ser revertida.

Mas, diante de tantas limitações estruturais, o que o governo brasileiro poderia fazer? O Brasil não deve abdicar do multilateralismo nem da defesa de normas internacionais, mas precisa reconhecer que o contexto mudou. Em um ambiente de fragmentação regional e erosão do multilateralismo, uma abordagem bilateral junto à Venezuela e aos Estados Unidos torna-se um caminho promissor.

A ampla rejeição internacional ao governo chavista também reduz o espaço para ações multilaterais eficazes. Contudo, não impede que o Brasil tente moldar, ao menos parcialmente, os rumos da política venezuelana por meio do engajamento direto.

A abertura de canais diplomáticos entre os governos Lula e Trump em outubro de 2025 é um ativo importante. Esses canais são fontes valiosas de informação sobre os possíveis próximos passos dos Estados Unidos em relação à Venezuela e sobre a dinâmica política interna tanto da Venezuela como do governo Trump. Podem também funcionar, ainda que de forma limitada, como espaços de negociação discreta, oferecendo ao Brasil a possibilidade de influenciar nos bastidores decisões com impactos diretos ou indiretos sobre a Venezuela e sobre o próprio Brasil.

Trata-se, é claro, de uma diplomacia de contenção de danos, que combina a defesa de normas como a soberania, a não-intervenção e o multilateralismo com pragmatismo nas formas de engajamento. Essa postura não resolve o dilema de fundo, mas permite ao Brasil ao menos navegar um sistema internacional mais fragmentado e permissivo ao uso da força, e um contexto regional no qual os Estados Unidos voltam a se comportar como o xerife das Américas.


Rodrigo Fracalossi de Moraes, Fellow in International Relations, University of Southampton

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Tags:

Diplomacia 🞌 Itamaraty 🞌

Cadastre-se para receber nossa Newsletter