O futuro da OMC
Em meio ao agravamento das tensões geopolíticas e ao avanço de políticas comerciais unilaterais, a 14ª reunião ministerial da OMC expôs a dificuldade crescente de se alcançar consensos e reforçar o sistema multilateral de comércio. Com propostas divergentes entre grandes potências e países em desenvolvimento, o encontro terminou sem avanços concretos em temas centrais, como agricultura e comércio digital, evidenciando o enfraquecimento da instituição e abrindo espaço para a emergência de novos arranjos regionais e bilaterais que podem redefinir as regras do comércio global

A 14ª. reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio (OMC) foi realizada, na semana passada, em Yaoundé (Camarões), em meio a grande turbulência global.
O objetivo central do encontro era discutir meios e modos de uma reforma da instituição, com base em documento de 122 páginas, preparado pelo Secretariado da Organização. Foram igualmente apresentadas propostas sobre o futuro da OMC pela Noruega, pelo Paraguai, pelos amigos da Reforma (Brasil, Canadá, União Europeia) e pelos EUA, com divergências consideráveis sobre as perspectivas de reformas da Organização.
Não tendo havido consenso sobre nenhuma das propostas de reforma da OMC, essa questão continuará a ser discutida em Genebra nos próximos meses, sem nenhuma perspectiva de acordo para o fortalecimento da Instituição.
Temas como agricultura, comércio eletrônico, subsídios para pesca, transparência, propriedade intelectual, facilitação de investimentos e acordos plurilaterais também continuarão a ser discutidos.
‘A ordem mundial e o sistema multilateral que conhecemos mudaram irrevogavelmente e não há volta atrás’
O cenário internacional, com o enfraquecimento do multilateralismo, e o fim de regras estáveis e previsíveis, foi o pano de fundo do encontro que reuniu 166 países. A diretora-geral da OMC, Okonjo Iwela, realisticamente, reconheceu que “a ordem mundial e o sistema multilateral que conhecemos mudaram irrevogavelmente e não há volta atrás”.
Todos reconheceram que os EUA foram o país que iniciou o esvaziamento da OMC com a não nomeação de juízes para o órgão de apelação do mecanismo de solução de controvérsias e pelo fim da cláusula da Nação Mais Favorecida com a nova política comercial e o tarifaço negociado bilateralmente reservadamente entre Washington e seus principais parceiros.
Na Conferência, a delegação norte-americana apresentou documento em que reitera sua visão de que “a atual ordem global do comércio internacional supervisionada pela OMC é insustentável e inviável”.
“A nova ordem econômica será baseada na reciprocidade, e no equilíbrio voltado para a defesa dos interesses nacionais concretos”.
‘A delegação norte-americana tinha um único objetivo: estender indefinidamente (ou estender o prazo o mais longo possível) em benefício das grandes empresas de tecnologia (Big Techs)’
O tratamento especial e diferenciado para alguns países em desenvolvimento, como a Índia e o Brasil, bem assim a cláusula da Nação Mais Favorecida perderam sua centralidade no âmbito da OMC. Coerente com essa posição, a delegação norte-americana tinha um único objetivo: estender indefinidamente (ou estender o prazo o mais longo possível) em benefício das grandes empresas de tecnologia (Big Techs), a moratória sobre tarifas de transmissões (comércio) eletrônicas e seus conteúdos, que vinha sendo renovada desde 1998.
Sem obter apoio para essa pretensão dos membros da OMC, em especial dos países em desenvolvimento, os EUA propuseram a extensão por cinco anos. O que também não obteve consenso e gerou forte reação do USTR, Jeremy Greer.
O Brasil buscou um mandato negociador para uma reforma da OMC até 2028, inclusive para o mecanismo de solução de controvérsias. Nesse contexto, defendeu uma transformação profunda da OMC a fim de dotar a organização de instrumentos mais modernos e eficazes diante dos desafios atuais.
Entre as prioridades brasileiras, está a correção das distorções no comércio agrícola, além da criação de regras que permitam a países em desenvolvimento adotar políticas industriais ou de reindustrialização em linha com uma economia mais verde sustentável.
‘A posição brasileira na OMC está coerente com a defesa do multilateralismo e do fortalecimento das instituições multilaterais, política pouco realista, diante das posições agressivas dos EUA’
A posição brasileira na OMC está coerente com a defesa do multilateralismo e do fortalecimento das instituições multilaterais, política pouco realista, diante das posições agressivas dos EUA contra a ordem econômica e comercial estabelecida nos últimos 80 anos.
Sabendo da inviabilidade dessas ambiciosas proposições, o Brasil defende, mais pragmaticamente a aprovação de regras que facilitem acordos plurilaterais, que poderiam facilitar a obtenção de consensos.
Com relação à moratória para o comércio eletrônico e seu conteúdo, o Brasil foi o único país que se opôs publicamente (outros que se opunham evitaram se manifestar) à proposta dos EUA, propondo que a prorrogação se limitasse apenas a dois anos.
Com o impasse nas negociações, com o término da Conferência, a moratória expirou, o que permitiria a cobrança de impostos sobre essas transmissões, mas temendo retaliações de Washington, dificilmente o Brasil ou outro país tomarão essa decisão.
‘A posição brasileira causou forte reação da delegação norte-americana e do representante do USTR, o que poderá acarretar nova pressão para o restabelecimento de tarifas sobre os produtos brasileiros’
A posição brasileira causou forte reação da delegação norte-americana e do representante do USTR, o que poderá acarretar nova pressão para o restabelecimento de tarifas sobre os produtos brasileiros de exportação para os EUA.
Em suma, dificilmente a OMC vai aprovar um conjunto de reformas que possa atender a todas as reivindicações e, por isso, a OMC não vai sobreviver na sua atual forma.
Um novo sistema comercial vai acabar emergindo, nos próximos anos, com arranjos regionais ou inter-regionais que definirão novas regras para regular as relações entre esses países, ao lado de negociações bilaterais, sem a aplicação da regra da nação mais favorecida.
Outras instituições, como a OCDE, não afetada pela crise do multilateralismo, poderão ter um papel mais ativo para o estabelecimento de regras gerais para o comércio internacional.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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