09 abril 2026

O Mar Vermelho fervendo, o resto do mundo em chamas e a ‘Pax Chinesa’

Um mundo em guerra é terrível, mas a “Pax Chinesa” é também controversa. Futuramente possivelmente precisaremos muito novamente da ONU fazendo seu tradicional papel de mediadora de conflitos como terceira parte, negociações de paz e monitoramento pós-conflitos

Foto: US War Department

A relevância do Mar Vermelho

Conforme o conflito se escala no Irã, lugares esquecidos nos tempos modernos voltaram a ter relevância, como o estreito de Bab el-Mandeb no Mar Vermelho e a ilha de Kharg no estreito de Ormuz. Muitos outros irão aparecer (ou reaparecer), pois na análise geopolítica, história e geografia contribuem interagindo, porém, às vezes se observam determinismos seja pela aplicação das séries históricas – embora relevantes – ou inflar a interveniência do fator geográfico, que embora muito forte, é apenas um dos chamados “fatores da decisão” em operações militares. 

O modo como se conduz a guerra depende da estratégia aplicada aos objetivos políticos, já dizia Clausewitz, e nos lembra muito bem o Capitão Nascimento, que com sua parábola mostra que se você dorme ao aprender sobre estratégia, acorda com uma bomba nas suas mãos. 

É mais ou menos o que está acontecendo com o mundo, e enquanto se discute se existe ou não estratégia americana versus as medidas mitigadoras chinesas para os gargalos do Oriente Médio, os houthis jogaram dia 29 de março a granada no colo dos espectadores, estivessem dormindo como os países que como nós acordaram agora com os tiros no Golfo Pérsico, ou quem estava engajado na disputa pelo coração do mundo, o Oriente Médio e seus fluxos comerciais. O resultado é o mesmo do filme, a explosão vai afetar a todos.

E porque Bab El Mandeb e o Mar Vermelho são tão importantes? O estreito controla a entrada do Mar Vermelho, ligando o Oceano Índico ao Mediterrâneo (via Egito), conectando Índia, China, África Oriental e Europa, e desde a antiguidade quem o controlava influenciava o comércio global, mesmo tendo que se integrar às rotas terrestres. Depois de 1869 com a abertura do Canal de Suez, o Bab el-Mandeb, por meio da conexão naval criada, ficou ainda mais importante que o Golfo em termos de fluxo comercial geral. Desde o descrito no século I d.C, no Périplo do Mar da Eritréia, se reforçava a variedade e o fluxo de ida e vinda de mercadorias complementarmente e a importância dos portos e rotas, denominadas por Ferdinand Von Richthofen (Sec XIX) de “rotas da seda”, tendo Mahan, em 1902 popularizado a região com o nome de Oriente Médio” e a importância do Golfo Pérsico para o poder naval. 

‘A era do petróleo, e a sua enorme concentração na região torna o Estreito de Ormuz o principal ponto de saída da produção, e o Mar Vermelho rota de passagem’

A era do petróleo, e a sua enorme concentração na região torna o Estreito de Ormuz o principal ponto de saída da produção, e o Mar Vermelho rota de passagem. Hoje eles são complementares, pois o Golfo Pérsico produz e Bab el-Mandeb permite o fluxo até a Europa. Em termos simples: Se o Golfo é o “depósito de petróleo”, o Bab el-Mandeb é o “portão de saída para o mundo ocidental”. 

Mas nunca foi só petróleo, a dependência mundial de energia tende a nos fazer focar somente neste importantíssimo aspecto, mas o centro de gravidade do conflito são as rotas, conforme já diziam os autores e obras citados, os fluxos totais, as estruturas de apoio, os pontos de bloqueio, não só a segurança energética. 

É só notar que com “grande surpresa” se está descobrindo que vai faltar fertilizante, hélio, chips, medicamentos com uso de petroquímicos etc.

‘O estrangulamento de Ormuz torna Bab El Mandeb crucial, o fechamento deste em conjunto com o primeiro causa verdadeira asfixia na península arábica e na costa africana, causando uma escalada muito maior da crise que pode levar inclusive os combates ao território africano’

O estrangulamento de Ormuz torna Bab El Mandeb crucial, o fechamento deste em conjunto com o primeiro causa verdadeira asfixia na península arábica e na costa africana, causando uma escalada muito maior da crise que pode levar inclusive os combates ao território africano, envolvendo ainda mais outros países presentes na região ou não, em uma “sinuca” mundial. 

Quando os houthis atacarem navios no Bab el-Mandeb, o impacto não fica só no estreito: ele se espalha por todo o Mar Vermelho, nos dois lados (África e Península Arábica) e reverbera na Europa, nos EUA e no resto do mundo. 

Impactos variados

No lado da península, no Iêmen os houthis ganham poder político e visibilidade, interferindo em interesses da Arábia Saudita, que vai necessitar mais ainda da abertura de Ormuz por conta da redução da eficácia do desvio de rota pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho. 

Na costa africana, o Egito teria impacto direto pela queda no uso do Canal de Suez, afetando economia e estabilidade interna. Djibouti possui bases militares dos Estados Unidos, China e França, gerando aumento da atividade militar e maior tensão entre potências. 

O Sudão entraria numa situação crítica para a sua guerra civil, com as RSF tentando mais firmemente avançar em direção ao litoral, enquanto Sudão do Sul, Etiópia e Uganda se tornam reféns de sua insularidade. 

‘A China possui bases navais em Djibouti e presença crescente na África Oriental, mas que dependem da estabilidade no continente, o desvio pelo Cabo da Boa Esperança traz frete muito mais caro e viagens 10–20 dias mais longas, gerando atrasos globais’

A China possui bases navais em Djibouti e presença crescente na África Oriental, mas que dependem da estabilidade no continente, o desvio pelo Cabo da Boa Esperança traz frete muito mais caro e viagens 10–20 dias mais longas, gerando atrasos globais. Mais países, alianças e organismos internacionais, como já está ocorrendo, começam a mover meios navais para escolta e segurança de seus navios na região, e provavelmente a pirataria na costa da Somália vai aumentar – e muito. 

Narrativa e acionamento

A obstrução de Bab-El Mandeb pode ser a justificativa faltante para uma intervenção terrestre dos EUA no Irã (além de tragar a África para o conflito), e ataques contra a base americana em Djibouti levariam o conflito ao solo africano, com reações variadas (Uganda, potência regional, já declara apoio a Israel). 

Não necessariamente a conquista e ocupação de largos territórios no Irã poderia ser o objetivo, como nas guerras anteriores, mas algo como os portugueses fizeram no caminho para as Índias, e aí vem o nome antigo-novo; eu olharia mais para a Ilha de Qeshm do que para Kargh, pois esta “cairia pela manobra”, como se diz nas ciências militares, enquanto a primeira é ponto de lançamento (como foi) para ataques terrestres, insuflando os dilemas internos do Irã e suas minorias nas periferias geográficas com rebeliões, revoltas e guerras civis isolando o governo na centralidade do território e criando “buffer zones” ou mesmo territórios independentes ou se aliando a outros países fronteiriços e no litoral. 

‘O custo do terreno e geografia, embora muito alto, pode ter resultados de isolar o governo pela diminuição de suas capacidades militares’

O custo do terreno e geografia, embora muito alto, pode ter resultados de isolar o governo pela diminuição de suas capacidades militares previamente somado aos conflitos periféricos e internos que eclodirão, permitindo uma retirada estratégica e a criação de “vários Chipres” nas ilhas do estreito. 

Caos? Sim, e sem talvez necessitar de uma vitória completa nem permanências longevas com tropas no terreno. Um “Iraque e Afeganistão invertidos”, onde a lógica de desestabilização seria mais útil do que a ocupação, troca de regime ou estabilização. 

O pior dos piores

Mesmo sem esse cenário (e não é o pior, afinal, “nada é tão ruim que não possa piorar”, já dizia o ditado usado por militares), as configurações de posicionamentos no Oriente Médio e África estão difusas ou se alterando, os investimentos chineses devem ser repensados por seus contratantes e direcionados futuramente mais ao seu entorno e ao Golfo do que ao Hemisfério Sul (embora o contorno do Cabo da boa esperança lhe abra novas oportunidades e expansão). 

O Paquistão, atualmente grande colaborador chinês e uma das “pontes de safena” para o Golfo pelo projeto do corredor logístico para o porto de Gwadar, se apresenta como mediador da paz, mas seu fortalecimento na região, embora beneficie a China, pode envolver a Índia e o Afeganistão no conflito. Temos então dois “turning points”: 

  • A opção de emprego de forças terrestres dos EUA com tropas no Irã, talvez usando a justificativa da obstrução de Bab El Mandeb em conjunto com Ormuz e seus reflexos no mundo e na península; e
  • A abertura de um Teatro de Operações desta guerra (já mundial, concordo com quem traz esta visão, pois não há como desconectar os conflitos atuais na Ucrânia e palestino-israelense e o embate político EUA-China deste contexto) em solo africano, atraindo também nações europeias e outras com interesses no Mar Vermelho, como Egito, França e Turquia. Neste pior cenário, a espiral de conflitos deve dificultar uma ação limitada americana no Irã, as chances do mundo entrar numa nova era do flagelo da guerra são imensas (se já não está irreversivelmente assim) e  os resultados imprevisíveis ou ao menos muito, muito difíceis de serem estimados em termos de continuidades e prosseguimentos.

Uma visão chinesa

Mesmo somente com o primeiro cenário, uma guerra que trave as rotas é tudo o que a China não precisava, atrasando (já estão, no meu ver) os seus projetos de infraestruturas, recuando sua atenção para o estreito de Málaca (o que sobra do “triangulo estratégico” junto com Ormuz e Bab El que foi usado pelos portugueses para controlar “a rota das índias”) e para Taiwan, que segundo alguns especialistas, teria a janela de oportunidade aberta de ser conquistada por, entre outros fatores, o escasseamento de tropas americanas no Pacífico e da produção de munição americana ou atrasada pela opção de ocupação militar por alguns anos.

Nunca foi somente o petróleo, mas o complexo integrado das rotas comerciais e seus reflexos no fluxo internacional, justamente por onde o projeto de fortalecimento chinês passa. 

‘Com o mundo pegando fogo, a China se apresenta também como mediadora da paz’

Afinal, a crise energética em si ela já se planejou para suportar. Com o mundo pegando fogo, a China se apresenta também como mediadora da paz, e embora tenha dia 29 proposto uma inédita visita do governo de Taiwan ao seu território, a aproximação dos dois depende muito do que irá ocorrer no Golfo e de resistir à tentação da janela de oportunidade de resolver de vez a questão pelo meio militar. 

Apesar do discurso de harmonia, a China foi o maior fornecedor de armas e munições para 25 países africanos nas últimas décadas, inclusive para alguns em guerra civil (o Sudão do Sul recebeu 700 containers só de munição 7,62 no mesmo mês em que a China preparava tropas de paz para enviar ao país durante a guerra civil em 2013-14), sem contar as contribuições para o Irã. 

Se como usam comparar, a China gastou mais em tecnologia nos últimos anos do que os EUA em guerras, parte destes gastos se reverteram em material militar vendido onde pressões internacionais restringiam o ocidente, e mesmo não tendo disparado um tiro, muitos tiros de munição chinesa foram gastos pelo Oriente Médio e África, sem contar as chamadas “armadilhas das dívidas” advindas dos investimentos em infraestrutura que, sem muita dificuldade, podem ser usadas de forma dual em caso de conflito. 

Paciência x atrasos, quintal de um e quintal do outro

A referência à paciência chinesa vem sendo muito evocada, porém atrasos nos planos quinquenais, metas e objetivos a atrapalham – e muito. Atuar sobre um cenário de crise, planejar bem – e muito bem – para isso a China aprendeu a fazer, vide a situação energética decorrente das crises cíclicas no Golfo e como ela se preparou ao não abdicar da base carbonífera, fazer estoques de petróleo e diversificar fontes. Porém um imperativo muito falado nos estudos por lá – sobreviver e se desenvolver, se atacado, desestrutura os planos quinquenais, fere os planejamentos e metas. Sobreviver ela vai. 

Já o desenvolvimento, pode ser comprometido – o que é sensível. Durante os estudos lá, e em diversas publicações, se vê a assumida necessidade de investir em um modelo de desenvolvimento que altere a defasagem entre a produção crescente e o consumo interno insuficiente. 

‘A guerra em curso reconfigura cenários e tende a retrair os investimentos estruturais e atenções de Pequim para tentar reconstruir as condições de manter o “coração do mundo”’

A guerra em curso, e nesse caso, qualquer das linhas de ação que ocorram, sejam de longa duração ou término mais breve, reconfigura cenários e tende a retrair os investimentos estruturais e atenções de Pequim para tentar reconstruir as condições de manter o “coração do mundo”, como Peter Frankopan chama o Oriente Médio e as rotas da seda; foi o trancamento delas que fez a China deixar de ser o Império mais pujante do mundo entre os séculos XI e XIV d.C..

Esta desconexão atual pela guerra reforça a necessidade da unificação com Taiwan – qualquer que seja o meio; e deixa-a mais afastada ou atrasada nos investimentos direção ao Oeste e hemisfério Sul- atrasar o desenvolvimento chinês e retê-la mais no seu entorno – talvez seja essa a estratégia, mesmo que pela temerária, terrível e imprevisível opção de escalar uma 3ª Guerra Mundial, pois a quebra da harmonia dos fluxos comerciais internacionais é uma das poucas certezas de atraso ao desenvolvimento expansionista chinês- que vários autores e analistas estrangeiros chamam de neo-neo-colonialismo, pelos acordos difusos e “armadilhas de dívidas” em várias situações, como às críticas à ferrovia Queniana, ao Porto e investimentos em Sri Lanka etc.

Um mundo em guerra é terrível, mas a “Pax Chinesa” é também controversa. Alguns especialistas chamam a estratégia chinesa, em latim, (e o Capitão Nascimento não está entre eles desta vez) de “Pax Sinica”, o que talvez no nosso idioma ressoe curiosamente significante. Futuramente possivelmente precisaremos muito novamente da ONU fazendo seu tradicional papel de mediadora de conflitos como terceira parte, negociações de paz e monitoramento pós-conflitos…

Rafael Cunha de Almeida é doutor em Políticas Públicas e historiador. Coronel R1 do Exército Brasileiro, possui Mestrado em Estudos de Defesa e Estratégia pela National Defense University, Beijing, China; e em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Atuou na Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (UNMISS) durante a eclosão da guerra civil sul-sudanesa em 2013-14. Foi Chefe da Seção de Política e Estratégia da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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