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05 agosto 2026

O que o presidente da Coreia do Sul veio buscar no Brasil e por que isso muda de patamar?

Se a Coreia tem a tecnologia e a capacidade industrial que o Brasil ainda busca consolidar, o Brasil tem os recursos naturais, energéticos e alimentares que a Coreia precisa para sustentar seu crescimento

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em parceria com a Federação de Indústrias Coreanas (FKI), realiza em São Paulo,no Gran Hyatt, o Brazil-Korea Business Roundtable. Focado na expansão das relações comerciais, tecnológicas e de investimentos entre os dois países, o evento integra a programação da visita oficial do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung e conta com a presença do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

A visita do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, ao Brasil no último dia 27 de julho não foi um evento diplomático entre outros. Em um cenário internacional cada vez mais fragmentado (guerra comercial entre grandes potências, disputa por semicondutores, tensões no Leste Europeu e no Oriente Médio, e uma corrida global por recursos estratégicos), o encontro em Brasília carregava um peso que vai muito além do protocolo.

Para entender o que está em jogo, é preciso voltar algumas décadas e olhar para o que a Coreia do Sul construiu.

Em pouco mais de duas gerações, o país saiu de uma economia agrária e pobre para se tornar a 12ª maior economia do mundo, com um PIB de quase US$ 1,9 trilhão. Hoje, destina cerca de 5% do PIB à pesquisa e desenvolvimento, um dos maiores índices do planeta. Empresas como Samsung, Hyundai, LG, SK Hynix e POSCO não são apenas marcas conhecidas; são líderes globais em semicondutores, baterias, inteligência artificial, construção naval e equipamentos de defesa. 

‘O “Milagre do Rio Han” foi resultado de uma estratégia nacional baseada em educação, industrialização e planejamento de longo prazo’

O chamado “Milagre do Rio Han” não foi acidente: foi resultado de uma estratégia nacional baseada em educação, industrialização e planejamento de longo prazo.

Mas a Coreia do Sul também é um país profundamente dependente. Depende de importações para alimentar sua população, para abastecer sua indústria de energia e para obter os minerais críticos indispensáveis à fabricação de baterias e chips. E, em um mundo onde as cadeias globais de suprimentos se tornaram armas geopolíticas, depender excessivamente de poucos parceiros tornou-se um risco existencial.

É aí que o Brasil entra.

O Brasil que recebeu Lee Jae Myung reúne ativos cada vez mais valorizados pela nova economia global. Possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. Tem reservas relevantes de lítio, grafite, níquel, nióbio e terras raras, insumos sem os quais não se fabrica um carro elétrico, um celular ou um sistema de defesa moderno. É um dos maiores produtores mundiais de alimentos, com capacidade de ampliar ainda mais essa produção. E tem um mercado consumidor de mais de 200 milhões de pessoas.

‘As vantagens competitivas de um respondem, em boa medida, às necessidades estruturais do outro’

Se a Coreia tem a tecnologia e a capacidade industrial que o Brasil ainda busca consolidar, o Brasil tem os recursos naturais, energéticos e alimentares que a Coreia precisa para sustentar seu crescimento. As vantagens competitivas de um respondem, em boa medida, às necessidades estruturais do outro.

Não por acaso, os anúncios feitos durante a visita refletiram exatamente essa complementaridade.

O principal deles foi o acordo de cooperação em minerais críticos e estratégicos, que prevê a atuação conjunta em toda a cadeia de suprimentos: da exploração ao beneficiamento. 

Para o Brasil, o desafio não é apenas vender minério bruto, mas agregar valor, atrair investimentos industriais e centros de pesquisa que permitam ao país participar de forma mais qualificada das cadeias globais. A Coreia, maior fabricante mundial de baterias e semicondutores, depende de suprimentos estáveis desses minerais. A coincidência de interesses é tão óbvia quanto estratégica.

‘Outro avanço concreto foi a decisão de acelerar as negociações para um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul’

Outro avanço concreto foi a decisão de acelerar as negociações para um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul. As conversas, iniciadas em 2018, vinham avançando em ritmo lento. Com a visita, foi criado um grupo de trabalho para destravar as tratativas. Para o Brasil, um eventual acordo significa acesso a um mercado sofisticado e tecnologicamente avançado. Para a Coreia, significa diversificar parceiros e reduzir vulnerabilidades em um cenário global incerto.

Na área de segurança alimentar, a Coreia anunciou o envio de uma missão sanitária ao Brasil para avaliar frigoríficos brasileiros. O gesto é significativo: a Coreia depende fortemente de importações de alimentos, e o Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de proteína animal. A abertura desse mercado pode representar um salto nas exportações brasileiras.

Houve ainda avanços na cooperação em energia limpa, com acordos voltados à transição energética e ao desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono, além do fortalecimento do diálogo em inteligência artificial, transformação digital e cidades inteligentes.

A visita foi encerrada com a percepção geral de que marcou um novo patamar na relação bilateral, acordos firmados em semicondutores, minerais críticos, defesa, aeroespacial e cultura. 

A nova geopolítica e o Sul Global

A aproximação entre Brasil e Coreia do Sul não acontece no vácuo. A Coreia ocupa uma posição delicada na geopolítica asiática: é aliada histórica dos Estados Unidos no campo da segurança, mas mantém uma intensa relação econômica com a China, seu maior parceiro comercial. Com o agravamento da rivalidade entre Washington e Pequim (que hoje envolve semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos e controle de cadeias globais), a Coreia precisa diversificar seus parceiros. Isso não é mais uma opção de política comercial. É uma necessidade estratégica.

‘A América Latina, e o Brasil em particular, surge como uma alternativa estável, previsível e dotada de recursos que o mundo industrializado busca com urgência’

A América Latina, e o Brasil em particular, surge como uma alternativa estável, previsível e dotada de recursos que o mundo industrializado busca com urgência. A política externa sul-coreana vem ganhando novos contornos: sem abandonar seus parceiros tradicionais, Seul intensificou sua presença no Sul Global, ampliando a cooperação com países da América Latina, África e Sudeste Asiático.

O Brasil, dentro desse movimento, destaca-se como o parceiro natural. Não apenas pelo tamanho de sua economia, mas por reunir vantagens que poucos países emergentes conseguem combinar como dito anteriormente: abundância de recursos minerais, liderança agropecuária, matriz energética renovável, parque industrial diversificado e capacidade de desenvolver soluções em biocombustíveis, agricultura tropical e tecnologia aplicada ao campo.

O que falta para essa parceria deslanchar?

Apesar dos avanços, o potencial da relação bilateral ainda é subaproveitado. O intercâmbio comercial entre Brasil e Coreia do Sul representa uma parcela modesta do comércio exterior brasileiro quando comparado ao volume com China, Estados Unidos ou União Europeia. Isso não é sinal de fraqueza, é a demonstração de que há amplo espaço para crescer.

‘A experiência sul-coreana nos mostra que o crescimento sustentável resulta da combinação entre políticas públicas consistentes, investimento em capital humano e forte integração entre governo, universidades e setor produtivo’

Para o Brasil, o verdadeiro desafio não é apenas exportar mais. É transformar suas vantagens comparativas (recursos naturais, terra, energia) em vantagens competitivas (conhecimento, tecnologia, inovação). A experiência sul-coreana nos mostra que o crescimento sustentável resulta da combinação entre políticas públicas consistentes, investimento em capital humano e forte integração entre governo, universidades e setor produtivo. O Brasil pode aprender muito com essa trajetória.

Na inovação, o potencial é enorme. Universidades, centros de pesquisa e empresas coreanas mantêm uma integração que o Brasil ainda está construindo. Ampliar a cooperação acadêmica e científica pode acelerar a formação de recursos humanos qualificados e fortalecer setores como inteligência artificial, biotecnologia e semicondutores.

Na área de defesa, a Coreia tornou-se um dos principais exportadores mundiais de equipamentos militares de alta tecnologia, enquanto o Brasil tem tradição na indústria aeronáutica e capacidade em tecnologias espaciais. Projetos conjuntos e transferência de conhecimento são caminhos possíveis.

Segundo Su Jung Ko, fundadora do BKC, “existe um potencial muito grande entre Brasil e Coreia do Sul tanto para o comércio exterior como para investimento em setores como tecnologia, energia, infraestrutura, saúde, agronegócio, mineração, audiovisual, arte e cultura e esporte”. O BKC (Brazil Korea Conference) foi fundado em 2016 com a visão de promover a parceria Brasil e Coreia do Sul em hubs internacionais nos principais ecossistemas de inovação do mundo como São Paulo, Seul e Londres onde realizam todos os anos a conferência para gerar oportunidades de negócios e ampliar o networking qualificado para apoiar os líderes empresariais nesses mercados. 

Su vai além: “precisamos promover mais missões empresariais de ambos os países, pois através delas, aprendemos não só novas oportunidades de negócios mas principalmente a cultura do outro, o que ajuda a construir a relação de confiança, fator importante em negócios cross-border.”

O que fica?

Mais do que os acordos específicos, talvez o principal legado da visita de Lee Jae Myung tenha sido o fortalecimento da confiança política entre Brasília e Seul. Em relações internacionais, confiança é um ativo estratégico. Reduz incertezas, facilita investimentos de longo prazo e cria condições para cooperação em temas sensíveis.

A visita reafirma uma tendência que vem se consolidando na política internacional: parcerias estratégicas já não se constroem apenas sobre afinidades diplomáticas, mas sobre complementaridades econômicas, tecnológicas e industriais. 

‘Brasil e Coreia do Sul possuem ativos distintos, mas igualmente estratégicos’

Brasil e Coreia do Sul possuem ativos distintos, mas igualmente estratégicos. Se souberem transformar essa complementaridade em uma agenda consistente de cooperação, estarão não apenas fortalecendo suas relações bilaterais, mas contribuindo para uma economia internacional mais resiliente e inovadora.

O verdadeiro teste, agora, é traduzir os compromissos políticos em projetos concretos, ou seja, investimentos, parcerias tecnológicas e iniciativas que gerem valor real para os dois lados. Se conseguirem, a visita de julho de 2026 será lembrada não como um encontro de rotina, mas como o ponto de partida de uma das parcerias mais promissoras do século XXI.

Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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