20 agosto 2022

Por que ‘Os Versos Satânicos’, de Salman Rushdie, permanece tão controverso décadas após sua publicação

Para muitos muçulmanos, Rushdie, em sua recontagem ficcional do nascimento dos principais eventos do Islã, implica que, em vez de Deus, o próprio profeta Maomé é a fonte das verdades reveladas

Para muitos muçulmanos, Rushdie, em sua recontagem ficcional do nascimento dos principais eventos do Islã, implica que, em vez de Deus, o próprio profeta Maomé é a fonte das verdades reveladas

Manifestantes protestam contra o livro, em 1989 (Robert Croma, CC BY-NC-SA)

Por Myriam Renaud*

Um dos livros mais controversos da história literária recente, Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, foi publicado há mais de três décadas e quase imediatamente desencadeou manifestações furiosas em todo o mundo, algumas delas violentas.

Um ano depois, em 1989, o líder supremo do Irã, o aiatolá Khomeini, emitiu uma fatwa, ou decisão religiosa, ordenando que os muçulmanos matassem o autor. Nascido na Índia em uma família muçulmana, mas na época um cidadão britânico morando no Reino Unido, Rushdie foi forçado a se esconder por quase uma década.

O que estava –e está– por trás dessa indignação?

A controvérsia

O livro, Os Versos Satânicos, vai ao cerne das crenças religiosas muçulmanas quando Rushdie, em sequências de sonhos, desafia e às vezes parece zombar de alguns de seus princípios mais sensíveis.

Os muçulmanos acreditam que o profeta Maomé foi visitado pelo anjo Gabriel, que, durante um período de 22 anos, recitou as palavras de Deus para ele. Por sua vez, Maomé repetiu as palavras para seus seguidores. Essas palavras acabaram sendo escritas e se tornaram os versículos e capítulos do Alcorão.

O romance de Rushdie retoma essas crenças centrais. Um dos personagens principais, Gibreel Farishta, tem uma série de sonhos em que se torna seu xará, o anjo Gabriel. Nesses sonhos, Gibreel encontra outro personagem central de maneiras que ecoam o relato tradicional do Islã sobre os encontros do anjo com Maomé.

Rushdie escolhe um nome provocativo para Maomé. A versão do profeta do romance é chamada Mahound –um nome alternativo para Maomé às vezes usado durante a Idade Média por cristãos que o consideravam um demônio.

Além disso, o Mahound de Rushdie coloca suas próprias palavras na boca do anjo Gabriel e entrega decretos a seus seguidores que convenientemente reforçam seus propósitos egoístas. Embora, no livro, o escriba fictício de Mahound, Salman, o Persa, rejeite a autenticidade das falas de seu mestre, ele as registra como se fossem de Deus.

No livro de Rushdie, Salman, por exemplo, atribui certas passagens reais do Alcorão que colocam os homens “responsáveis ​​pelas mulheres” e dão aos homens o direito de agredir as esposas de quem “temem a arrogância”, às visões sexistas de Mahound.

O escritor britânico Salman Rushdie (Fronteiras do Pensamento, CC BY-SA)

Através de Mahound, Rushdie parece lançar dúvidas sobre a natureza divina do Alcorão.

Desafiando textos religiosos?

Para muitos muçulmanos, Rushdie, em sua recontagem ficcional do nascimento dos principais eventos do Islã, implica que, em vez de Deus, o próprio profeta Maomé é a fonte das verdades reveladas.

Na defesa de Rushdie, alguns estudiosos argumentam que sua “zombaria irreverente” pretende explorar se é possível separar fato de ficção. O especialista em literatura Greg Rubinson ressalta que Gibreel é incapaz de decidir o que é real e o que é um sonho.

Desde a publicação de Os Versos Satânicos, Rushdie argumentou que os textos religiosos deveriam estar abertos ao desafio. “Por que não podemos debater o Islã?” Rushdie disse em uma entrevista de 2015. “É possível respeitar os indivíduos, protegê-los da intolerância, sendo céticos em relação às suas ideias, até mesmo criticando-os ferozmente.”

Essa visão, no entanto, colide com a visão daqueles para quem o Alcorão é a palavra literal de Deus.

Após a morte de Khomeini, o governo do Irã anunciou em 1998 que não realizaria sua fatwa ou encorajaria outros a fazê-lo. Rushdie agora vive nos Estados Unidos e faz aparições públicas regulares.

Ainda assim, mais de 30 anos depois, as ameaças contra sua vida persistem. Embora os protestos em massa tenham parado, os temas e as questões levantadas em seu romance permanecem muito debatidos.


*Myriam Renaud é afiliada à Faculdade de Bioética, Religião e Sociedade no Departamento de Estudos Religiosos da DePaul University


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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