Quase cinco décadas na Nigéria – O que Norma Jibrilu ainda tem a ensinar ao Brasil
Empresária e proprietária de uma rede de supermercados no Norte da Nigéria, sua trajetória oferece ao Brasil uma perspectiva rara de quem acompanhou de dentro profundas transformações sociais e econômicas e aprendeu, na prática, como relações duradouras são construídas. Trata-se de um exemplo prático de cooperação Sul-Sul.

Por Vanessa Africani e Ronaldo Vieira
Há histórias que explicam um país melhor do que muitos relatórios econômicos. A de Norma Jibrilu é uma delas. Brasileira, Norma chegou à Nigéria em 1978. Quase cinco décadas depois, o país se tornou sua casa, sua família e também o lugar onde construiu sua vida profissional.
Empresária, é proprietária de uma rede de supermercados no Norte da Nigéria, que hoje emprega quase mil pessoas. Sua trajetória oferece ao Brasil uma perspectiva rara: a de quem acompanhou de dentro profundas transformações sociais e econômicas e aprendeu, na prática, como relações duradouras são construídas. Trata-se de um exemplo prático de cooperação Sul-Sul.
Norma é casada com o nigeriano Alhaji Dr. Lema Jibrilu, o Dan-Iyan Katsina, título tradicional ligado ao Emirado de Katsina. O vínculo da família com a estrutura tradicional da regiãos: o pai de Lema foi professor de três Emirs de Katsina e de suas esposas e também exerceu a função de juiz.
Essa história ajuda a entender por que o conhecimento de Norma sobre o Norte da Nigéria vai muito além da própria história da Nigéria. Ela conhece a região pelas relações familiares, sociais, culturais e institucionais que formam a vida cotidiana.
Em nossas conversas, essa Nigéria aparece em camadas. Histórias de Zaria, uma das mais antigas cidades da região e da rainha Amina. Ela comandou um exército, convivem com lembranças de empresas brasileiras, festivais, transformações econômicas e novas gerações. Aos poucos, fica evidente a primeira mensagem que o Brasil deveria levar a sério: a Nigéria não pode ser tratada como um mercado único.
Norma também envolve seu filho mais novo, Nasir Jibrilu, para conversar conosco durante a última entrevista.
Conhecimento antes do investimento
A Nigéria reúne uma diversidade extraordinária de povos, línguas, histórias e formas de organização social. Nasir, filho de Norma, lembra que essa diversidade também foi moldada pela formação de comunidades ao longo de séculos, muito antes da formação da própria Nigéria: grupos se deslocavam, criavam novas aldeias e construíam identidades próprias. Para quem olha de fora, diferenças que parecem pequenas podem alterar completamente a forma de entrar em uma região, escolher parceiros ou desenvolver um projeto.
Quando pergunto a Norma o que diria a uma empresa brasileira interessada em investir na Nigéria, a resposta vem rapidamente: conhecimento.
Conhecer o setor. Conhecer a região. Saber quem pode ajudar. Encontrar pessoas que tenham credibilidade e experiência local. Entender o ambiente antes de tomar decisões.
A experiência empresarial de Norma reforça essa visão. Construir e manter uma rede de supermercados no Norte, empregando quase mil pessoas, exige leitura constante do mercado, das relações locais e das necessidades de cada comunidade. É esse tipo de presença que transforma conhecimento em confiança.
As oportunidades, na visão dela, são amplas. Agricultura, mineração, turismo, cultura e economia criativa aparecem entre as áreas nas quais Brasil e Nigéria poderiam desenvolver novas conexões. A escolha depende do objetivo. Algumas regiões entre Sokoto e Kaduna podem fazer mais sentido para agricultura; Kano tem forte tradição comercial; outros setores apontam para outros lugares. A pergunta mais útil passa a ser: “o que queremos fazer, em que região e com quem? ”.
A cultura também pode abrir portas. Norma cita música, audiovisual, gastronomia, festas populares, Carnaval, manifestações do Nordeste, Amazonas e Araguaia como exemplos de um Brasil que ainda poderia ser melhor apresentado aos nigerianos. No sentido inverso, há uma Nigéria igualmente pouco conhecida pelos brasileiros.
Uma conexão simbólica está na alimentação: o acarajé brasileiro encontra seu par no akara nigeriano. É uma lembrança concreta de histórias que atravessaram o Atlântico e continuam presentes nos dois lados. Em países com populações jovens e forte produção cultural, essas afinidades podem gerar intercâmbio, turismo, festivais, coproduções e negócios.
O Norte da Nigéria que o Brasil ainda conhece pouco
Para Norma, falar genericamente em “Norte da Nigéria” já limita a compreensão. Sokoto, Katsina e Kano têm histórias, tradições e estruturas sociais ancestrais próprias. O Califado de Sokoto e os antigos Emirados, como Katsina e Kano, continuam exercendo influência cultural, econômica e social e ajudam a explicar como as comunidades se organizam.
Quem chega sem compreender essas diferenças corre o risco de interpretar mal o próprio mercado. Norma insiste na importância do tempo e da convivência. Uma visita rápida dificilmente revela quem exerce influência, como as decisões são construídas ou quais relações sustentam determinado setor.
Ela mesma já recebeu, em Katsina, uma delegação de mais de 12 embaixadores de diferentes países, a pedido do Emir, entre eles o, então, embaixador Costa e Silva. Para Norma, experiências assim permitem que representantes estrangeiros conheçam uma realidade que não aparece em agendas restritas a Abuja ou Lagos.
O Norte guarda ainda um patrimônio cultural pouco conhecido no Brasil, mas que deve ser explorado. Norma lembra o Festival de Argungu, tradicional competição de pesca, e o Durbar, celebração equestre realizada em torno do Eid, quando cavaleiros com trajes e cavalos decorados se apresentam diante do Emir. São manifestações que ajudam a revelar a dimensão histórica e cultural da região e também apontam oportunidades em turismo, patrimônio e economia criativa.
Permanência constrói confiança
Norma acompanhou um período em que a presença brasileira na Nigéria era muito maior. Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, havia empresas de construção, telecomunicações, a Cotia Trading, a Petrobras e outros projetos brasileiros. Em determinadas regiões, segundo ela, chegaram a viver mais de dois mil brasileiros, reunidos em mais de mil famílias.
Uma das lembranças mais curiosas desse período é o guaraná. Em Kaduna, nos anos 1980, o refrigerante produzido pela empresa Brahma entrou no cotidiano: estava nas lojas, nas festas, nos casamentos e até nas escolas. Décadas depois, ainda havia nigerianos perguntando se o “guaraná” voltaria. A história mostra o que acontece quando um produto estrangeiro deixa de ser novidade e passa a fazer parte da memória local.
Muitas empresas brasileiras, porém, saíram do país em períodos de crise econômica. Para Norma, essa retirada deixou uma consequência duradoura: a percepção de que o parceiro brasileiro pode desaparecer quando surgem dificuldades…
Reputação, nesse contexto, depende de continuidade, de sustentabilidade. É construída com presença, capacidade de superar momentos difíceis e relações que sobrevivam a uma oportunidade comercial específica. A própria vida de Norma oferece o contraponto: ela permaneceu, criou família, desenvolveu negócios e gerou empregos. Quase cinquenta anos depois, sua história continua ligada ao país porque houve compromisso de longo prazo.
Essa talvez seja uma das lições mais importantes para empresas brasileiras que desejam voltar à Nigéria. Uma missão empresarial pode abrir uma conversa; a confiança nasce depois, no acompanhamento, na escolha de parceiros e na disposição para compreender o país em sua complexidade.
As pontes já existem
Brasil e Nigéria carregam uma ligação histórica que frequentemente desaparece nas análises comerciais (lembrem do filme Malê, de Antônio Pitanga, nesse caso). Nasir lembra a presença de brasileiros e afrodescendentes que retornaram à África, especialmente a partir do século XIX, levando conhecimentos, técnicas hábitos e referências culturais.
Em Lagos, o Brazilian Quarter é uma marca visível dessa história. Famílias com sobrenomes como da Silva e da Costa permanecem na sociedade nigeriana. Até o inglês pidgin guarda vestígios dessa circulação: “sabi”, usado no sentido de “saber”, integra o vocabulário cotidiano.
Essas conexões mostram o valor das pessoas que conhecem os dois lados. Brasileiros que vivem há décadas na Nigéria, nigerianos que estudaram ou viveram no Brasil e famílias como a de Norma podem funcionar como intérpretes culturais e institucionais. Em uma relação entre países, esse conhecimento humano muitas vezes antecipa riscos e oportunidades que dificilmente aparecem em planilhas.
A diplomacia também pode se beneficiar dessas pontes. Norma recorda um tempo em que embaixadores e cônsules viajavam mais pelo Norte, participavam de eventos e conheciam comunidades locais. Questões de segurança mudaram essa dinâmica, mas concentrar a relação apenas nas capitais reduz a compreensão do país e limita oportunidades econômicas, culturais e acadêmicas.
Há ainda um obstáculo prático: a circulação de pessoas. Norma relata dificuldades enfrentadas por nigerianos, inclusive por membros de famílias tradicionais e por sua própria família, para obter vistos brasileiros. Ela reconhece a necessidade de triagem, mas defende processos mais eficientes, capazes de distinguir perfis e facilitar viagens legítimas.
Essa discussão tem impacto direto sobre negócios, educação, turismo e cultura. Uma relação bilateral se fortalece quando empresários, estudantes, artistas, pesquisadores e famílias conseguem circular e criar vínculos.
A próxima Nigéria já está chegando
Os filhos de Norma representam uma geração mais globalizada, acostumada a transitar entre culturas e a enxergar Brasil e Nigéria com naturalidade. Nasir resume a afinidade entre os dois países pela “energia das pessoas”: a facilidade de conversar, fazer amizade e criar proximidade.
Essa nova geração ocupará posições de liderança em empresas, instituições e projetos nos próximos anos. Para o Brasil, aproximar-se da Nigéria também significa construir relações com quem estará tomando decisões amanhã.
Depois de quase cinco décadas, Norma conhece as possibilidades e as contradições do país. Viu empresas brasileiras chegarem e partirem, acompanhou mudanças econômicas, viveu de perto a força das tradições do Norte, recebeu diplomatas, criou uma família e construiu uma empresa que hoje emprega quase mil pessoas.
Sua experiência deixa mensagens concretas para o Brasil: conhecer antes de investir, escolher parceiros com credibilidade, compreender as diferenças regionais, usar a cultura como ponte, facilitar a circulação de pessoas e, acima de tudo, permanecer tempo suficiente para construir confiança.
A Nigéria é grande e diversa demais para ser compreendida em uma fração ou equação. Ao mesmo tempo, sua história com o Brasil é profunda demais para ser tratada como uma relação nova.
Quase cinco décadas depois de chegar ao país, Norma Jibrilu continua mostrando, pela vida que construiu, que as pontes mais fortes entre Brasil e Nigéria nascem do conhecimento, da convivência e da permanência.
Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing, com experiência na promoção de negócios, relações governamentais, institucionais e articulação empresarial internacional. Estudante de Relações Internacionais, atua na promoção de relações bilaterais e comerciais entre o Brasil e mercados estratégicos, com ênfase na África, nas América do Norte, no Mercosul e, mais recentemente, na Ásia, tendo participado da organização do Networking Empresarial Brasil–Indonésia e Brasil–Vietnã.
Ronaldo Vieira, diplomata de carreira, mestre em Relações Internacionais, Cônsul do Brasil em Lagos, na Nigéria.
Vanessa Africani é especialista em comunicação e marketing com experiência profissional em promoção de negócios. Atua na promoção com ênfase no continente africano e na promoção de relações bilaterais e comerciais com diversos países do Mercosul, Américas e África.
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