‘Serventes do caos’ têm possibilidades e estímulo para dominar cada vez mais a política
A popularização da inteligência artificial e o domínio dos vídeos curtos nas redes sociais estão transformando a disputa política. Com baixo investimento e estratégias de viralização, jovens influenciadores e até personagens fictícios conseguem mobilizar eleitores, desafiar políticos tradicionais e lucrar com a polarização, em um cenário no qual a economia da atenção ganha peso crescente nas eleições.

Os Engenheiros do Caos, de Giuliano da Empoli, lançado em 2019 é um dos melhores livros em termos de explicar a política no contexto atual das redes sociais. A obra aborda como estrategistas aproveitaram a lógica dos algorítmicos para capturar a atenção e alçar espertos ao poder com muita eficácia ao longo dos últimos 15 anos.
Com a difusão da inteligência artificial (IA), e seguindo na analogia da construção civil, hoje, não é necessário ser um engenheiro para difundir o caos. Um jovem “servente” com pouca experiência já é capaz de ter impacto político.
Um choque para muitos, a votação de Eduarda Campopiano foi um exemplo claro deste fenômeno. Sem espaço no mainstream, a jovem vereadora de 21 anos há algum tempo é quase onipresente em plataformas de vídeos curtos. Sua principal estratégia de viralização foram debates no estilo uma conservadora x 25 LGBTs, um modelo surgido nos EUA e que se popularizou no Brasil nos últimos anos entre jovens buscando capturar atenção a partir de alguma identidade. Assim, Campopiano conseguiu conquistar um público relevante com uma campanha de baixíssimos custos.
Neste ano, a BBC Brasil apresentou a história de “Dona Maria”, uma personagem popular com centenas de milhares de seguidores que faz críticas ao governo nas redes. Com questionamentos a pontos de grande apelo como a alta dos preços nos supermercados, o perfil conseguiu mais engajamento que muitos políticos reconhecidos no cenário nacional. Dona Maria é uma criação de um motorista de aplicativo de Magé (RJ) que usou o ChatGPT para fazer o roteiro dos textos e algumas outras plataformas de IA para os vídeos. O investimento não passa dos R$ 20 por obra.
Nos EUA, a revelação de que a influenciadora pró-Trump Emili Hart era criação de um indiano estudante de Medicina que usava a plataforma Gemini para fazer seus vídeos gerou grande comoção. Não foi o único caso no país. Jessica Foster era uma suposta integrante do exército norte-americano que ganhou repercussão pelas posições conservadoras até que foi exposto que o perfil era criado por IA. Entre os conteúdos, havia até fotos da suposta militar ao lado de Trump.
No Reino Unido, Amelia, uma estudante gótica com posições contra imigração e o Islã viralizou em fóruns de jovens. Neste ponto, o fato dela não existir já não deve ser uma novidade. O interessante neste caso é que, ironicamente, a personagem havia sido criada por um grupo anti-extremismo que visava contar com a ajuda da criação de mensagens radicais entre adolescentes.
‘Servir ao caos pode ser atraente para aqueles que querem reforçar suas visões políticas ou se sentirem mais importantes em razão do alcance que atingem nas redes. Mas, além disso, é lucrativo.’
Servir ao caos pode ser atraente para aqueles que querem reforçar suas visões políticas ou se sentirem mais importantes em razão do alcance que atingem nas redes. Mas, além disso, é lucrativo. A monetização conseguida pelas visualizações de vídeos curtos é atraente para milhões de jovens com um mínimo conhecimento de tecnologia. Neste cenário, há ainda a possibilidade de vender cursos ensinando como outros podem buscar a mesma estratégia. Ainda que nem todos sejam bem sucedidos, a tendência é criar um ambiente virtual cada vez mais inundado de conteúdo buscando engajamento a todo custo.
O que muitos demoraram a entender sobre a gravidade da estratégia dos “campeonatos de cortes” que impulsionaram a candidatura de Pablo Marçal à prefeitura de São Paulo em 2024 é o quanto isso foi efetivo em um cenário cada vez mais tomado pelos vídeos curtos.
Marçal estimulava jovens, a maioria sem outra fonte de renda, a criar com ferramentas de IA como o CapCut peças favoráveis a ele que viralizassem nas redes. Com pagamentos que superavam até salários de meio de carreira, o estímulo econômico foi suficiente para inundar TikTok, Kwai, Reels e Shorts com “cortes” em prol do candidato, algo que hoje pode ser mais eficiente que tempo de TV. Para 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) baniu a prática para candidatos, mas as ferramentas para impedir que outros adotem as estratégias são limitadas.
‘Entre os mais jovens, já é consolidado um ambiente no qual a principal fonte de informação para este público são os vídeos curtos’
Entre os mais jovens, já é consolidado um ambiente no qual a principal fonte de informação para este público são os vídeos curtos. Em muitos casos, não há sequer concorrência de outros meios ou a imprensa tradicional. Em 2025, uma pesquisa do Pew Research com norte-americanos entre 18 e 29 anos apontou o TikTok como plataforma de notícias regular para 43% deles, na liderança, seguida de YouTube e Facebook, ambos com 41%.
Nas últimas eleições parlamentares colombianas, o candidato conhecido como “Elefante Branco” foi eleito ao Senado com a segunda maior votação dentro do Partido Verde. O líder na sigla foi um youtuber. O “paquidérmico” cresceu como um perfil anônimo nas redes no qual fazia denúncias de corrupção em obras, em especial as de grande porte e pouco propósito, também chamadas de elefantes brancos no país. Os vídeos do candidato viralizaram, seu Instagram acumulou centenas de milhares de seguidores, mas ninguém sabia quem era o autor do perfil, que decidiu se revelar apenas semanas antes da votação.
A escritora britânica Sarah Stein Lubrano tem algumas das ponderações mais interessantes da atualidade sobre a discussão política atual e o impacto desproporcional dos vídeos curtos. Em uma entrevista, ela apontou: “nossos cérebros estão preparados para procurar conflitos, para que possamos navegar no mundo social sem sermos assassinados ou algo do género — sem querer ser muito extrema. Os vídeos curtos podem, de certa forma, pressionar muitos desses mesmos botões”.
‘Vídeos com figuras polarizadoras, como presidentes e líderes partidários, possuem menos apelo neste cenário que é especialmente anti-establishment’
Vídeos com figuras polarizadoras, como presidentes e líderes partidários, possuem menos apelo neste cenário que é especialmente anti-establishment. Por outro lado, produções que conseguem gerar algum tipo de identificação são capazes de alto nível de engajamento. Em países como Portugal e Alemanha, as votações de partidos anti-imigração entre jovens contaram com impulso de produções de vídeos curtos alertando sobre os riscos dos países serem tomados por estrangeiros. Tática comum é a de influenciadores que se gravam em ruas de tradicionais comunidades de imigrantes e lamentam que aquilo “já não é a Europa”.
Neste sentido, um vídeo feito pela IA de um motorista de aplicativo que diz não aguentar mais a violência depois de seguidos roubos pode realçar uma especial conexão em países da América Latina. Neste caso, a culpa tenderá a cair no governo de turno, algo comum a este gênero de conteúdos, em um ônus aos incumbentes. Comerciantes e outros trabalhadores de app que critiquem a carga tributária, além de outros personagens que causem algum tipo de identificação podem ser persuasivos, ainda que nunca tenham existido. Cada vez mais a “é a economia da atenção, estúpido” que define eleições, diferente dos tempos da economia convencional da campanha de Bill Clinton em 1992 que deu origem a celebre frase.
Matheus Gouvea de Andrade é jornalista focado em temas internacionais baseado na América Latina. Trabalhou no Grupo Estado e publicou em veículos como BBC, Rest of World, Climate Change News, DW Brasil, Folha de S. Paulo, Piauí e Público, escrevendo a partir de Lisboa, Medellín, Lima, Buenos Aires e São Paulo
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