Terras raras e soberania
A política externa de Lula terá o desafio de alinhar-se ou não a um claro movimento anti-Pequim, promovido por Trump e, tendo em mente a dependência em relação à China, manter uma posição de independência entre os EUA e a China

As terras raras tornaram-se um tema central na política externa e de segurança nacional dos Estados Unidos, com vistas a reduzir a dependência da China, que controla cerca de 90% do refino desses materiais. A administração Trump, em 2026, intensificou essas ações com projetos bilionários e a busca de parcerias internacionais.
Nesta semana, o governo dos EUA convocou reunião sobre terras raras em Washington com o objetivo de construir uma aliança contra a China. Quarta-feira passada, cerca de 55 países foram convidados para encontro liderado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, com a presença do alto escalão norte-americano, inclusive do vice-presidente Vance. O objetivo do encontro é a negociação de um acordo que crie um sistema de controle de preços, a garantia de que barreiras não serão estabelecidas e que seja permitido o acesso às reservas do país que aceite o entendimento com a Casa Branca.
O Mexico, a União Europeia, o Japão e a Argentina já concordaram e assinaram o acordo.
‘A iniciativa de Trump visa reduzir a dependência dos EUA em relação à China’
A iniciativa de Trump visa reduzir a dependência dos EUA em relação à China para materiais essenciais a veículos elétricos, sistemas de defesa e tecnologia avançada.
Nesse contexto, Trump anunciou o plano para construir um estoque estratégico de minerais críticos, avaliado em US$ 12 bilhões. A proposta, conhecida como Projeto Vault, lançará um estoque estratégico inédito de minerais críticos. O plano soma US$ 1,67 bilhão em capital privado com um empréstimo de US$ 10 bilhões do Banco de Exportação e Importação dos EUA.
O governo brasileiro aceitou convite da Casa Branca para participar do encontro que incluiu os países do G7, além da Austrália, Coreia do Sul, Índia, entre outros. A representação brasileira ficou a cargo da embaixada do Brasil em Washington, que se limitou a receber a proposta e encaminhá-la a Brasília. Surpreendentemente, o governador do Goiás, Ronaldo Caiado também esteve presente.
‘Membros do Departamento de Estado norte-americano relatam ainda que estão tendo dificuldades para ter acesso aos tomadores de decisão no Brasil para consolidar uma agenda sobre o tema de terras raras’
Segundo se informa, membros do Departamento de Estado norte-americano relatam ainda que estão tendo dificuldades para ter acesso aos tomadores de decisão, principalmente no Ministério de Minas e Energia, para consolidar uma agenda sobre o tema de terras raras. O ministro das Minas e Energia confirmou as reuniões com representantes do governo de Washington. Segundo o ICL Notícias apurou, contatos estão sendo feitos entre diplomatas americanos e governos estaduais, como o de Minas Gerais e Goiás.
A busca por um mapeamento de onde existiriam reservas importantes e atores que poderiam estabelecer um diálogo também foi iniciada. O trabalho de identificação não ocorre por acaso. Em documentos, a Casa Branca ainda instruiu a CIA a mapear na América Latina onde estariam as reservas de recursos naturais que poderiam ser vitais para os EUA nas próximas décadas. Não seria surpresa se drones externos já estejam detectando reservas de terras raras na Amazônia e em outras partes do território nacional. A embaixada dos EUA em Brasília está organizando um seminário sobre minérios críticos em São Paulo em março com a presença de mineradoras que atuam no Brasil e o IBRAM.
‘O governo brasileiro deverá atuar com cautela e informar o governo de Washington que qualquer acesso de empresas dos EUA ou de empresas de outros países às terras raras nacionais deve incluir um compromisso de investimentos no país para a geração de maior valor agregado’
Segundo o Itamaraty, não houve ainda um convite formal para integrar o grupo. O governo brasileiro deverá atuar com cautela e informar o governo de Washington que qualquer acesso de empresas dos EUA ou de empresas de outros países às terras raras nacionais deve incluir um compromisso de investimentos no país para a geração de maior valor agregado, conforme legislação aprovada recentemente pelo Congresso. Por isso, o melhor seria tratar da matéria de forma bilateral e não oferecer uma resposta imediata para aguardar a visita presidencial aos EUA na primeira semana de março.
O tema de terras raras deve, assim, entrar na agenda bilateral do encontro de Lula com Trump, incluído pelo lado americano, e poderá servir de base de negociação para a eliminação das tarifas de 50% sobre 22% das exportações brasileiras para os EUA. A preocupação do governo brasileiro tem de ver com eventuais condicionantes comerciais, riscos de exclusividade e possíveis impactos sobre a autonomia da política comercial, da necessidade de compatibilizar o convite com outros acordos e parcerias estratégicas em curso.
‘A China se manifestou oficialmente contrária à proposta de Washington, insinuando consequências para quem participar’
No mesmo dia do encontro sobre terras raras, Trump conversou com Xi Jinping para tratar do acordo comercial que ainda não foi aprovado, para conversar sobre Taiwan e a guerra da Ucrânia. Nas informações sobre a conversa, não há referência a política de isolamento da China nas terras raras, mas certamente de alguma maneira o tema deve ter sido tratado. Trump anunciou que, na questão comercial, a China vai comprar 20 milhões de toneladas de soja em 2026 e 25 mil em 2027. Depois da conversa com Trump, a China se manifestou oficialmente contrária à proposta de Washington, insinuando consequências para quem participar.
A política externa de Lula terá o desafio de alinhar-se ou não a um claro movimento anti-Pequim, promovido por Trump e, tendo em mente a dependência em relação à China, manter uma posição de independência entre os EUA e a China. Tudo isso, terá de ser sopesado pelo governo brasileiro para ver o que será mais favorável aos interesses do governo e do setor privado.
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Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
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