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19 outubro 2026

Três anos do 7 de outubro – A segurança que a guerra não entregou

O massacre não autoriza uma resposta sem limites. A devastação de Gaza não apaga os crimes do Hamas. E o sofrimento de uma população não diminui o direito da outra de viver em segurança

Foto: ONU News

Três anos depois do 7 de outubro de 2023, o Oriente Médio continua vivendo as consequências de um dia que rompeu certezas e reorganizou prioridades. 

O ataque liderado pelo Hamas, que matou cerca de 1.200 pessoas e levou 251 reféns para Gaza, abalou a confiança dos israelenses na capacidade do Estado de protegê-los. 

A ofensiva israelense que se seguiu devastou a Faixa de Gaza e produziu uma catástrofe para a população palestina. A violência transbordou fronteiras e transformou uma crise em uma sucessão de confrontos regionais. 

O balanço desses três anos exige perguntar o que a guerra efetivamente resolveu e quais condições criou para o futuro.

‘O 7 de outubro expôs o fracasso de uma concepção de segurança’

O 7 de outubro expôs o fracasso de uma concepção de segurança. Durante anos, governos israelenses apostaram na possibilidade de administrar o conflito com os palestinos por meio de superioridade militar, inteligência, barreiras e contenção. Nessa lógica, seria possível reduzir os riscos sem enfrentar as questões políticas que sustentavam o conflito. 

A fragmentação palestina e a aproximação de Israel com países árabes pareciam ampliar a margem para essa estratégia. A questão palestina poderia permanecer sem solução enquanto outras relações avançavam.

O ataque desfez essa expectativa de controle. Isso não significa que a violência do Hamas fosse inevitável ou justificável. O assassinato de civis e a tomada de reféns foram escolhas pelas quais seus responsáveis devem responder. Significa reconhecer que uma política de segurança precisa ser avaliada também por suas premissas. 

O poder de vigiar, conter e retaliar não equivale à capacidade de construir uma ordem duradoura. Confundir essas capacidades teve consequências profundas.

‘Para a sociedade israelense, a ruptura atingiu um elemento central da relação entre cidadãos e Estado: a promessa de proteção’

Para a sociedade israelense, a ruptura atingiu um elemento central da relação entre cidadãos e Estado: a promessa de proteção. Pessoas foram mortas em suas casas, em comunidades próximas à fronteira e em um festival de música. O trauma envolve as perdas, o cativeiro e a percepção de abandono. Sua dimensão política não desaparece com a passagem do tempo. Investigar o que ocorreu, identificar falhas e atribuir responsabilidades são condições para reconstruir a confiança pública.

É nesse ponto que a trajetória de Benjamin Netanyahu se encontra com a memória do ataque. Um dirigente que construiu sua imagem como garantidor da segurança precisa responder pela maior ruptura dessa promessa sob seu governo. Sua campanha procura recuperar essa autoridade por meio da disposição de continuar combatendo e da apresentação de força diante dos adversários. A dificuldade é que demonstrar capacidade de atacar não responde, por si só, à pergunta sobre a incapacidade de proteger.

‘A substituição do primeiro-ministro, contudo, não produziria automaticamente um consenso sobre os palestinos ou um caminho para a paz’

Às vésperas das eleições de 27 de outubro, a disputa envolve diferentes interpretações desses três anos. Netanyahu procura transformar a continuidade de sua liderança em garantia contra novas ameaças. Seus adversários precisam converter a cobrança por responsabilidade em uma alternativa de governo. A substituição do primeiro-ministro, contudo, não produziria automaticamente um consenso sobre os palestinos ou um caminho para a paz. A rejeição a um líder pode reunir forças que divergem profundamente sobre o futuro do conflito.

Em Gaza, o balanço exige olhar para a destruição das condições de vida. A morte de dezenas de milhares de palestinos, o deslocamento de famílias e a devastação de moradias e serviços essenciais atingem a possibilidade de uma sociedade se reconstruir. O cessar-fogo firmado em outubro de 2025 reduziu a intensidade dos combates, mas não encerrou a violência nem solucionou a disputa pelo controle do território. A sobrevivência cotidiana permanece subordinada à insegurança.

‘A redução da capacidade militar do Hamas não produz, automaticamente, uma autoridade legítima, instituições funcionais ou uma perspectiva de futuro para os palestinos’

Há uma questão estratégica que precisa ser enfrentada: que ordem política pode surgir dessas condições? A redução da capacidade militar do Hamas não produz, automaticamente, uma autoridade legítima, instituições funcionais ou uma perspectiva de futuro para os palestinos. Sem esses elementos, o uso da força pode alterar o equilíbrio entre atores armados e ainda deixar intacto o problema de como governar e proteger a população.

Reconhecer isso tampouco significa tratar o Hamas como representante incontestável dos palestinos. Uma organização que escolhe atacar civis e que subordina a população a sua estratégia militar deve ser responsabilizada por suas decisões. Mas essa responsabilidade não elimina a obrigação de Israel de responder pelos meios que emprega, nem converte civis palestinos em alvos legítimos. A proteção de pessoas não pode depender da simpatia que suas lideranças despertam.

A dimensão regional reforça os limites da promessa de segurança pela guerra. Os confrontos envolvendo o Líbano e o Irã evidenciaram como diferentes frentes podem se alimentar e ampliar os custos de cada decisão. Para Israel, sucessos militares podem reduzir ameaças específicas. Para os países atingidos, deixam perdas humanas, deslocamentos e novos obstáculos à reconstrução. Em nenhum desses casos, a alteração da correlação de forças garante um acordo sobre o que virá depois.

No Líbano, por exemplo, o debate sobre as armas do Hezbollah está ligado à capacidade do Estado de exercer autoridade e à presença militar israelense no sul. Fortalecer as instituições libanesas exige enfrentar essas questões em conjunto. Uma população submetida à insegurança prolongada dificilmente encontrará razões para confiar em uma ordem política que não consegue protegê-la.

‘Também fora da região, o 7 de outubro e a guerra produziram uma disputa sobre quais sofrimentos merecem reconhecimento’

Também fora da região, o 7 de outubro e a guerra produziram uma disputa sobre quais sofrimentos merecem reconhecimento. Em muitos espaços, lamentar as vítimas israelenses passou a ser interpretado como apoio ao governo Netanyahu; denunciar a devastação de Gaza, como adesão ao Hamas. Essa lógica empobrece a análise e transforma pessoas em símbolos de campos políticos. O mesmo vale para a transferência de responsabilidades a judeus, palestinos e muçulmanos pelo mundo. Nenhuma comunidade deve responder coletivamente por decisões de um Estado ou de uma organização armada.

Três anos depois, lembrar o 7 de outubro exige preservar a especificidade do ataque e enfrentar as consequências da guerra que se seguiu. O massacre não autoriza uma resposta sem limites. A devastação de Gaza não apaga os crimes do Hamas. E o sofrimento de uma população não diminui o direito da outra de viver em segurança.

O futuro depende de decisões que a força militar não pode substituir: responsabilização, proteção de civis, instituições legítimas e uma perspectiva política para israelenses e palestinos. Sem isso, o aniversário continuará marcando a distância entre a segurança prometida pelos dirigentes e a insegurança vivida pelas sociedades.

Karina Stange Calandrin é colunista da Interesse Nacional, professora de relações internacionais no Ibmec-SP e na Uniso, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutora em relações internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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