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17 agosto 2026

Uma nova estratégia brasileira para diversificação de mercados

Quanto mais integrada e diversificada for a economia brasileira, menor será sua vulnerabilidade a decisões unilaterais de qualquer parceiro específico. Em um ambiente internacional mais fragmentado e protecionista, ampliar parceiros, mercados e fluxos de investimento pode ser não apenas uma alternativa comercial, mas uma estratégia de segurança e desenvolvimento econômico

Foto: ApexBrasil

O comércio internacional atravessa um período de transformação marcado pelo aumento das barreiras tarifárias, pela maior utilização de instrumentos unilaterais de política comercial e pela crescente associação entre comércio, segurança econômica e objetivos de política doméstica.

Para o Brasil, essa mudança tornou-se especialmente concreta com as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos, mas o problema é mais amplo do que a relação bilateral entre os dois países. A intensificação das disputas comerciais representa um desafio ao sistema multilateral construído em torno da Organização Mundial do Comércio (OMC), a partir de 1995, e antes disso com o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), desde 1947.

‘O cenário aumenta o risco de fragmentação da economia mundial ao mesmo tempo que cria incentivos para que países com uma pauta exportadora diversificada, como o Brasil, ampliem sua rede de parceiros e utilizem a política comercial como instrumento de redução de riscos’

O cenário aumenta o risco de fragmentação da economia mundial ao mesmo tempo que cria incentivos para que países com uma pauta exportadora diversificada, como o Brasil, ampliem sua rede de parceiros e utilizem a política comercial como instrumento de redução de riscos, de maior integração à economia internacional e, no limite, para aceleração do desenvolvimento.

A política comercial norte-americana é hoje uma das principais manifestações dessa mudança. Em julho de 2026, os Estados Unidos adotaram, por meio da Seção 301, uma tarifa adicional de 25% sobre parcela relevante das importações provenientes do Brasil e, paralelamente, estabeleceram tarifas de 10% ou 12,5% contra dezenas de parceiros comerciais no âmbito de investigação relacionada ao trabalho forçado pelo United States Trade Representative (USTR).

‘Mais importante do que as alíquotas individualmente é a consolidação de uma lógica na qual medidas tarifárias são utilizadas como instrumento de negociação econômica e política’

Mais importante do que as alíquotas individualmente é a consolidação de uma lógica na qual medidas tarifárias são utilizadas como instrumento de negociação econômica e política. Essa dinâmica não se restringe à relação com o Brasil, o índice conjunto de atividade de política comercial da OMC e do Fundo Monetário Internacional (FMI) alcançou novo recorde no início de 2026 e, entre janeiro e maio, ficou quase duas vezes acima do nível médio registrado em 2024. O risco é que outros países respondam ao protecionismo com novas barreiras, produzindo uma escalada de retaliações capaz de reduzir comércio, investimentos e previsibilidade para empresas que operam internacionalmente.

O sistema multilateral deveria funcionar como mecanismo de contenção desse processo, mas hoje ele enfrenta uma limitação institucional importante. A OMC continua operando, negociando e constituindo painéis de solução de controvérsias. No entanto, seu Órgão de Apelação permanece sem membros desde 2020, impedindo o funcionamento da segunda instância do sistema de solução de disputas. Isso, efetivamente, enfraquece a capacidade da corte de julgar qualquer pedido que passe para a segunda instância no órgão de apelação.

‘Para o Brasil, recorrer à OMC contra medidas americanas continua importante para preservar direitos e construir legitimidade jurídica, mas dificilmente será suficiente para resolver o problema comercial no curto prazo’

Para o Brasil, portanto, recorrer à OMC contra medidas americanas continua importante para preservar direitos e construir legitimidade jurídica, mas dificilmente será suficiente para resolver o problema comercial no curto prazo. Assim, em um ambiente no qual a capacidade disciplinadora das instituições multilaterais é menor, cresce a importância das negociações bilaterais, regionais e plurilaterais.

Nesse cenário, a melhor resposta brasileira não parece ser reproduzir o protecionismo americano, mas acelerar a diversificação de suas relações econômicas. Isso significa reduzir a vulnerabilidade decorrente da dependência de poucos mercados sem necessariamente abandonar parceiros tradicionais.

Os Estados Unidos continuam sendo um mercado estratégico para o Brasil e diversificar não significa substituí-los, mas sim aumentar as alternativas disponíveis às empresas brasileiras. Quanto maior o número de mercados acessíveis, menor o impacto potencial de uma mudança tarifária, política ou econômica em um único país. Essa estratégia também permite que empresas redirecionem gradualmente parte da sua produção quando determinado destino perde competitividade, preservando investimentos, empregos e capacidade produtiva.

Mas o Brasil não é um país totalmente livre para negociar acordos econômicos, e aqui o Mercosul assume papel central nessa estratégia. O bloco possui atualmente um acordo com a União Europeia em vigor e concluiu negociações com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA). Para o futuro, está internalizando o acordo com Singapura e mantém negociações com Canadá, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Vietnã, além do processo de ampliação do acordo comercial existente com a Índia.

‘Uma política de diversificação bem-sucedida deve buscar justamente essa pluralidade em ampliar relações com União Europeia, Ásia, América Latina, Oriente Médio e outras economias emergentes’

Essa rede potencial é particularmente relevante porque amplia o acesso brasileiro a diferentes polos da economia mundial: Europa, América do Norte, Oriente Médio e Ásia, e reduz a necessidade de escolher entre grandes potências. Nesse caminho, uma política de diversificação bem-sucedida deve buscar justamente essa pluralidade em ampliar relações com União Europeia, Ásia, América Latina, Oriente Médio e outras economias emergentes, preservando simultaneamente os vínculos comerciais e empresariais construídos com Estados Unidos e China.

A diversificação, contudo, não depende apenas da assinatura de acordos. Para transformar abertura formal de mercados em comércio efetivo, empresas precisam encontrar compradores, adaptar produtos, obter certificações, organizar canais de distribuição e superar custos logísticos e regulatórios.

É nesse ponto que ganha relevância o novo Plano de Diversificação de Exportações da ApexBrasil anunciado no dia 11 de agosto pela agência. O programa prevê R$ 210 milhões em investimentos e apoio a aproximadamente 5.300 empresas, combinando inteligência comercial, identificação de mercados alternativos e aproximação entre exportadores brasileiros e compradores estrangeiros.

Entre seus instrumentos estão reuniões virtuais e presenciais de negócios, participação em feiras internacionais, consultoria especializada, projetos setoriais e a plataforma Buy Brazil. A iniciativa também criou a Bolsa Exportação, por meio da qual empresas podem receber apoio para participação em eventos internacionais, certificações, design de produtos e comércio eletrônico.

O mérito do programa está em entender que programas de longo prazo não são baseados em subsídios ou extensos incentivos governamentais, mas sim em um planejamento que reconhece que diversificação comercial exige mais do que simplesmente identificar países interessados em produtos brasileiros e em tempo.

A entrada em um novo mercado possui custos, como padrões técnicos diferentes, certificações, logística, construção de relacionamento com distribuidores e adaptação às preferências dos consumidores, o que pode ser um gargalo atacado com pouco custo e mais informação. Assim, o apoio público pode reduzir esses custos iniciais e acelerar a internacionalização.

‘O principal desafio será avaliar o programa não apenas pelo número de empresas atendidas ou de novos destinos alcançados, mas pela capacidade efetiva de gerar contratos, preservar margens e substituir parte relevante das vendas eventualmente perdidas em mercados submetidos a novas barreiras’

O principal desafio será avaliar o programa não apenas pelo número de empresas atendidas ou de novos destinos alcançados, mas pela capacidade efetiva de gerar contratos, preservar margens e substituir parte relevante das vendas eventualmente perdidas em mercados submetidos a novas barreiras. Além disso, políticas de promoção de exportações terão impacto limitado se não forem acompanhadas por avanços domésticos em infraestrutura, produtividade, ambiente regulatório e custos de comércio.

Nesse sentido, o Plano de Diversificação da ApexBrasil deve ser compreendido como parte de uma estratégia maior. O objetivo de longo prazo não deve ser simplesmente encontrar destinos emergenciais para mercadorias afetadas pelas tarifas americanas, mas criar condições para que empresas brasileiras operem estruturalmente em um número maior de mercados e dar incentivos para que o Brasil possa não só diversificar sua produção como aumentar capacidade produtiva e institucional e intensificar a exportação e produção em áreas de valor agregado cada vez maior.

Isso exige que o Brasil também esteja disposto a abrir sua economia, negociar novos acordos, facilitar importações de insumos e tecnologias e oferecer condições competitivas para investimentos internacionais. Quanto mais integrada e diversificada for a economia brasileira, menor será sua vulnerabilidade a decisões unilaterais de qualquer parceiro específico. Em um ambiente internacional mais fragmentado e protecionista, ampliar parceiros, mercados e fluxos de investimento pode ser não apenas uma alternativa comercial, mas uma estratégia de segurança e desenvolvimento econômico.

Economista pela PUC-Rio e Mestre em Relações Internacionais e em Administração Pública pela Universidade Columbia, em Nova York. Atua nas áreas de resolução de conflitos,gestão de projetos de infraestrutura para PPPs, licitações e concessões, bem como em análise política, economia e dados, para os setores público e privado, no Brasil e no exterior.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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