Número 73

Ano 19 / abr - jun

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É bacharel (1979) e mestre (1982) em economia pela PUC do Rio de Janeiro e PhD (1986) pela Universidade de Harvard. É professor da PUC desde 1986. No setor público, entre 1993 e 1999, foi secretário adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, diretor da Área Internacional e presidente do Banco Central do Brasil. É sócio fundador da Rio Bravo Investimentos desde 2000. É autor de diversos livros e escreve regularmente para jornais e revistas de grande circulação desde 1988.

Século da água: segurança hídrica moldará a transição energética

A água doce, por séculos tratada como um recurso inesgotável e disponível de forma quase automática, passou a ocupar um espaço central na arquitetura global do poder. Não por acaso: é a única matéria-prima absolutamente insubstituível de todos os processos essenciais. Ao contrário do petróleo – para o qual existem alternativas – ou dos minerais críticos – para os quais se desenvolvem substitutos e tecnologias de reciclagem –, a água não possui sucedâneo. Nenhuma cadeia industrial, agrícola, alimentar, energética, tecnológica ou urbana funciona sem acesso contínuo e seguro a recursos hídricos. E, justamente por isso, a água desponta como o verdadeiro insumo estratégico do século XXI.

O Brasil entra nesse debate com uma posição singular, que combina abundância, diversidade hidrológica e papel geopolítico crescente. A bacia amazônica responde por até 38% da água fluvial do planeta, enquanto grandes aquíferos – como o Guarani e o Alter do Chão – somam volumes que superam, isoladamente, o armazenamento de muitos países inteiros. Ao considerar rios, lagos, lençóis freáticos e zonas de recarga, o Brasil detém cerca de 13% da água doce renovável global, situando-se como potência hídrica estrutural. Essa vantagem natural, porém, não significa estabilidade plena; ao contrário, depende intensamente de políticas públicas, diplomacia ambiental e gestão territorial.

Ao mesmo tempo, enquanto a água ascende silenciosamente como ativo geopolítico, são os minerais críticos que ocupam o debate internacional de forma ostensiva. Estados Unidos, União Europeia, Japão, Índia e Austrália estabelecem listas formais que identificam os minerais essenciais para suas estratégias industriais e militares. Esses países desenvolvem políticas de incentivos, constroem estoques estratégicos, financiam projetos de mineração, modernizam cadeias produtivas e negociam acordos bilaterais e multilaterais com países fornecedores. O lítio, o níquel, o cobalto, o grafite e as terras raras são, hoje, tratados como recursos de alto interesse estatal.

A transição energética acelerou esse processo. Em um mundo empenhado em reduzir emissões, baterias, turbinas, semicondutores, painéis solares e veículos elétricos tornaram-se o coração da nova infraestrutura global. Porém, a transição cria uma dependência ainda maior de minerais específicos — e isso levou os países centrais a elaborarem estratégias sofisticadas para controlar suprimentos. A Lei de Redução da Inflação dos Estados Unidos, com centenas de bilhões de dólares mobilizados, é, talvez, o exemplo mais evidente do esforço ocidental de reorganizar cadeias produtivas, reduzir dependência da China e garantir autonomia industrial.

Nesse conjunto de ações, cada detalhe é meticulosamente planejado: localização de jazidas, corredores logísticos, refinarias, unidades de reciclagem, cooperação tecnológica e acordos internacionais. O grau de sofisticação das políticas voltadas aos minerais críticos contrasta com a relativa ausência de planejamento estratégico dedicado à água — embora seja ela, e não os minerais, o fator limitante de todas as cadeias produtivas, inclusive as da economia verde.

Proteção ao acesso a minerais críticos, mas não àágua

É surpreendente, e até contraditório, que o mundo tenha arquitetado um sistema tão avançado para garantir acesso a minerais críticos, mas não tenha estruturado mecanismos equivalentes para proteger a água. Não há, em escala global, um regime integrado de segurança hídrica. Não existem reservas estratégicas de água, nem mecanismos multilaterais sólidos que arbitrem disputas entre países ou que projetem cenários de risco com antecedência. Mesmo as Nações Unidas, ao apresentarem relatórios alarmantes sobre escassez e estresse hídrico, admitem que a governança da água está fragmentada e insuficiente diante das pressões contemporâneas.

Essa lacuna fica evidente quando se observam países avançados enfrentando desafios profundos. A crise do Rio Colorado, nos Estados Unidos, tornou-se símbolo dessa vulnerabilidade. O rio abastece quase 40 milhões de pessoas em estados que são centros econômicos fundamentais. Irriga milhões de acres, influencia preços de alimentos e sustenta cadeias produtivas inteiras. No entanto, desde o início dos anos 2000, seu fluxo natural caiu de maneira contínua, e o Oeste americano vive sua maior seca em mais de um século. Reservatórios estratégicos atingiram níveis históricos de esvaziamento, e a disputa por cotas de água transformou-se em tema de segurança nacional. Essa crise demonstra que, mesmo com tecnologia avançada e capital abundante, uma economia moderna pode tornar-se refém da falta de água.

O Brasil, ao observar esse cenário, percebe sua posição diferenciada. Embora possua vastas reservas hídricas, enfrenta pressões internas crescentes: expansão da fronteira agrícola, desmatamento no Cerrado e na Amazônia, conflitos fundiários, mineração em áreas sensíveis, desigualdade de acesso ao saneamento e impactos localizados de seca prolongada em bacias como a do São Francisco. A abundância hídrica não elimina riscos; apenas desloca-os. Se o país não estruturar um plano nacional robusto de segurança hídrica, poderá ver sua vantagem se transformar em vulnerabilidade.

Além disso, a água brasileira é exportada de forma indireta por meio do comércio internacional. Soja, milho, café, algodão, carne bovina e avicultura incorporam enormes volumes de água ao longo de suas cadeias produtivas. Quando esses produtos chegam à China, aos Estados Unidos, à Europa ou ao Oriente Médio, carregam consigo uma parcela da água brasileira. Essa exportação de “água virtual” coloca o Brasil no centro de sistemas alimentares que dependem diretamente da manutenção de suas bacias e florestas. A China, por exemplo, depende da água virtual brasileira para compensar sua escassez hídrica crônica. Os Estados Unidos dependem dela para equilibrar o estresse do Colorado. Isso torna a gestão da água brasileira parte do sistema de segurança alimentar mundial.

O mundo quer os minerais, mas precisa mais da água brasileira

E aqui se estabelece a ponte essencial: se o mundo precisa dos minerais brasileiros, precisa ainda mais da água brasileira. Mas, ao contrário dos minerais, a água não tem substituto nem reciclagem ampliada — e sua perda não pode ser revertida. Se a nova economia depende de minerais críticos, ela depende de forma ainda mais estruturante da água. Uma política industrial voltada para a transição energética só é viável se houver disponibilidade hídrica estável. O Brasil, ao planejar sua atuação estratégica em minerais críticos, precisa articular simultaneamente um plano estruturado para a água, sob risco de comprometer todo o seu potencial produtivo e diplomático.

A combinação de água, minerais críticos, biodiversidade, agricultura e energia coloca o Brasil numa posição singular, capaz de influenciar a segurança de três grandes potências: Estados Unidos, China e União Europeia. A estabilidade hidrológica brasileira é, na prática, um componente da segurança alimentar chinesa, da segurança energética americana e da política climática europeia. Poucos países exercem impacto tão direto sobre sistemas estratégicos de outras regiões.

Mas para transformar essa posição em influência legítima, o Brasil precisa fazer da água seu principal ativo geopolítico e diplomático. Isso envolve ampliar investimentos em monitoramento hidrológico, restaurar nascentes e matas ciliares, fortalecer órgãos ambientais, integrar dados climáticos e hidrológicos, estabelecer zonas prioritárias de proteção e desenvolver tecnologias de irrigação eficiente, dessalinização e reuso industrial. A água precisa deixar de ser tratada apenas como recurso natural e passar a ser tratada como infraestrutura.

Ao mesmo tempo, a diplomacia brasileira pode incorporar a água como eixo de cooperação com Estados Unidos e China. Com os americanos, a cooperação pode incluir modelos de gestão de bacias, tecnologias de precisão hídrica e sistemas de alerta precoce. Com os chineses, pode envolver biodiplomacia, financiamento de restauração ambiental e troca de tecnologia agrícola de baixo impacto. Esse diálogo pode posicionar o Brasil não como dependente de grandes potências, mas como parceiro estratégico indispensável.

A emergência climática reforça a urgência dessa agenda. A intensificação de eventos extremos, como secas severas, enchentes repentinas e variações abruptas de regime pluviométrico, torna a gestão da água mais complexa e menos previsível. O Brasil, apesar de sua abundância relativa, já sente impactos em bacias-chave, que afetam geração hidrelétrica, abastecimento urbano e produção agrícola. A degradação do Cerrado e o desmatamento amazônico comprometem rios voadores, alteram padrões de chuva e aumentam a vulnerabilidade de regiões inteiras.

Por isso, construir uma política nacional de segurança hídrica é mais do que questão ambiental: é pilar de soberania. Um país que possui vastos recursos hídricos, mas não os protege adequadamente corre o risco de perder sua vantagem geopolítica e se tornar refém de crises internas e externas. A água é, ao mesmo tempo, a essência da produção, da vida e da diplomacia contemporânea.

O século XXI será marcado pela disputa por insumos essenciais. E embora minerais críticos ocupem temporariamente o debate global, a água é o insumo que define todos os demais. Não há transição energética, segurança alimentar ou estabilidade climática sem água. Transformar essa verdade em política pública, estratégia de desenvolvimento e instrumento diplomático é o desafio que determinará a posição do Brasil nas próximas décadas.

O país tem diante de si uma oportunidade histórica: articular sua condição de potência hídrica com seu papel emergente nas cadeias de minerais críticos, transformando abundância em influência e recursos naturais em capital geopolítico. Para isso, precisará fazer o que o mundo ainda não fez: tratar água como uma questão de Estado — não como recurso infinito, mas como pilar invisível que sustentará o futuro global.


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Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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