O sociólogo Marco Aurélio Ruediger projeta uma sombra sobre a vida democrática do Brasil. Condição trazida por elementos de polarização, autoritarismo e conflito interinstitucional. Uma agenda se assenta numa guerra cultural e na busca por remodelagem entre poderes, tentando implantar um Executivo unitário, a exemplo do debate do trumpismo. Três razões confluem para essa corrosão: crescente déficit de confiança, derivado do desgaste das boas práticas públicas; esquemas de corrupção em caráter predatório às estruturas de Estado; e falta da razoabilidade na interpretação da lei, com uso radicalizado de recursos legais para além do princípio de presunção de inocência.
Como demonstrado no ‘Guide to Advertising Technology’ (2018), do Tow Center da Columbia University, são as tecnologias publicitárias que dominam e mandam na Internet. Desse modo, o debate cívico em todos os ambientes das plataformas digitais e nas redes sociais que nelas se formam, é regido também pela lógica das vendas. No entanto, essa não é a única explicação para o processo contínuo de desinformação que o mundo vive – misinformation, disinformation e malinformation, genericamente classificadas como ‘fake news’ – descrito no documento ‘Information disorder: toward an interdisciplinary framework for research and policy making’, da Comissão Europeia, que tem servido de base para o início da regulamentação da ação dos gigantes da tecnologia.
O domínio exercido pelos diversos agentes sobre a veracidade da comunicação e sua relação com o poder não é algo que pode ser considerado novo. Séculos atrás Sun Tzu já ensinava que todas as estratégias estão baseadas em inverdades. Na segunda guerra mundial, ao debater o impacto e a necessidade de manipular informações antes da invasão da Normandia, Winston Churchill afirmou em discurso que “na guerra, a verdade é tão preciosa, que deve ser protegida por mentiras como guarda-costas”
Enfim, aconteceu: os chamados “evangélicos” “termo-valise que significa hoje o que quer que queira quem o enuncia, frequentemente autoassertividade, para os de dentro, e ameaça, para os de fora “conquistaram cargos executivos de alta importância na política brasileira. Uma história que se arrastava desde meados dos anos 1980 e que seguiu um script improvisado, cheio de atalhos, muita controvérsia e muitos percalços (derrotas, tentativa e erro e oportunismos flagrados), chegou a um desfecho tão inesperado (visto desde aquele ponto de partida) quanto indesejado para um amplo segmento das elites políticas, sociais e culturais.