O professor Denis Lerrer Rosenfield analisa a visão que põe a Rússia como centro do mundo, e que, no momento, se espraia pelo universo eslavo por afinidade de valores, mesmo que separados por fronteiras territoriais. Isto significa que seus princípios, instituições, costumes e história teriam dimensão sagrada, traduzindo-se por uma validade absoluta, pois remontam a Deus conforme a crença ortodoxa. Por via de consequência, os interesses nacionais russos se sobreporiam a todos os demais, em particular aos do mundo eslavo em um primeiro momento, justificando qualquer invasão ou conquista territorial.
O diplomata propõe neste texto que a guerra na Ucrânia seja vista como a confluência de movimentos de conflitos étnico-ideológicos domésticos e rivalidade entre superpotências. “Reduzir a Guerra a essa última dimensão, ou atribuí-la exclusivamente ao conhecido binômio expansionismo da OTAN versus ameaça existencial à Rússia é grave equívoco”, acentua ao avaliar a guerra à luz de três motivações: ucraniana, russa e a busca da paz. Nem os 100 mil militares russos na fronteira da Ucrânia, nem a era Biden, tida como refém de limites inibidores pela forte oposição republicana, ou mesmo o enfraquecimento por democracias iliberais favoreceu Putin.