Trump e sua diplomaciade conflitos
O comportamento internacional dos Estados Unidos na era Trump tem sido comumente interpretado como reação à perda gradual de sua posição hegemônica no mundo. A palavra de ordem relançada para o segundo mandato na Casa Branca – Make America Great Again – parece reconhecer esse poder diminuído ou enfraquecido. O esforço para tentar recuperá-lo é feito mediante reformas radicais em diferentes áreas do governo, da diplomacia ao comércio exterior, da administração pública à política migratória e uma série de ações de grande ousadia no âmbito internacional.
Tais objetivos aparecem reconfigurados sob influência de dois fatores: de um lado, o estilo personalista e a retórica soberba e exacerbada de Trump. De outro, o debate ideológico acirrado em nível global com o fortalecimento das correntes de pensamento de direita e extrema-direita, as quais fazem parte do DNA do presidente.
O Brasil foi um dos alvos do tiroteio de queixas e pressões cuja impertinência saltava aos olhos, inclusive pelo equívoco dos argumentos apresentados. Este foi o caso dos alegados déficits dos EUA no comércio bilateral, que justificariam, na visão de Trump, as taxas e sobretaxas aplicadas à importação de produtos brasileiros. A questão agravou-se, ainda, pelo confronto político-diplomático suscitado nas tentativas de ingerência em processos judiciais no Brasil envolvendo o Supremo Tribunal Federal.
O governo brasileiro reagiu de maneira firme e serena a tais investidas intervencionistas, ressaltando a necessidade de respeito à soberania do país e ao princípio da não ingerência, e, ao mesmo tempo, mostrando-se aberto ao diálogo. Assim, a partir do trabalho de aproximação do presidente Lula com o presidente Trump, complementado pelas gestões do chanceler Mauro Vieira junto ao secretário de Estado Marco Rubio, teve início uma série de rodadas de conversações bilaterais centradas na questão tarifária. A paciente e complexa negociação, embora já tenha produzido resultados com a suspensão das tarifas de alguns produtos, ainda apresenta indefinições e pendências. Foi importante o clima de diálogo preservado bilateralmente, que terá continuidade em novo encontro Lula-Trump, previsto para março em Washington.
O recurso à imposição de elevadas tarifas a grande número de parceiros, como instrumento de pressão, representou uma política de atirar para todos os lados, com cobranças e exigências que ferem direitos soberanos, bem como aspirações e interesses de vários países, além de tentar debilitar o multilateralismo e desprezar as organizações internacionais. Em ato isolacionista, inteiramente gratuito, Trump retirou os EUA de todas as organizações de caráter intergovernamental, menos do Conselho de Segurança da ONU.
No plano hemisférico, adquiriu destaque a Nova Estratégia de Segurança Nacional, lançada pelo presidente Trump no início de seu segundo mandato, a qual reposicionou a América Latina como foco da política externa dos EUA. Considerada como atualização da “Doutrina Monroe”, que no século XIX buscava afastar a influência de potências europeias do continente americano (“A América para os americanos”), a nova estratégia tem por objetivo combater o crime organizado, o narcotráfico, a imigração ilegal e a crescente presença chinesa na região. A nova política, teoricamente, daria aos EUA o direito de intervir em qualquer país da região – inclusive com uso da força –, caso identifiquem ameaças à ordem institucional e à sua própria segurança.
Do ponto de vista da América Latina, fica evidente o propósito de Washington considerar oficialmente a região como sua área de influência exclusiva, de modo a garantir interesses dos EUA e impedir interferências de potências rivais. Ficou evidente também que a coexistência na região de governos progressistas e de governos conservadores ou liberais tem levado alguns governos a valorizar ou privilegiar a perspectiva partidária ou a ideológica na condução de suas relações exteriores.
No começo de 2026, quando já se falava na “Doutrina Donroe”, o governo de Trump comandou a intervenção militar na Venezuela. Esse cenário, considerado improvável até seu retorno à Casa Branca, acabou por tornar-se viável à luz da determinação presidencial de confrontar o regime chavista. Desenhou-se, assim, um rápido desfecho da crise deflagrada com a monumental presença de forças aeronavais no Caribe, seguida dos ataques a embarcações de narcotraficantes e da infiltração de agentes da CIA no território terrestre venezuelano.
Essas medidas levaram à surpreendente operação de captura de Maduro e de sua esposa. O líder do regime chavista, sob custódia policial e forte esquema de segurança, foi transferido para Nova York a fim de submeter-se a julgamento, por acusação de tráfico de drogas. Esperava-se, com isso, que fosse logo anunciada a transição para um regime democrático, mas, contrariando as expectativas, deu-se a acomodação com a vice-presidente, Delcy Rodríguez, que assumiu o lugar de Maduro e passou a manter um diálogo obediente e conciliatório com Washington. O presidente Trump declarou que a mudança de regime na Venezuela seria um processo necessariamente longo e que os EUA passariam a dedicar atenção prioritária à reorganização do setor de petróleo do país sul-americano. As empresas petrolíferas norte-americanas que sofreram grandes prejuízos quando da nacionalização decretada no governo de Carlos Andrès Perez, anterior ao chavismo, teriam agora, segundo Trump, oportunidade de serem indenizadas.
O episódio da intervenção na Venezuela foi um dos temas ressaltados por Trump durante sua participação na reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Segundo afirmou, os EUA haviam acabado de fazer um acerto para apropriar-se de 50 milhões de barris/dia das reservas de petróleo venezuelano. Disse que a Venezuela passaria agora a auferir consideráveis benefícios do petróleo, coisa que não aconteceu durante o chavismo.
Estremecimento nas relações transatlânticas
Mas o principal tema que ocupou o presidente Trump em Davos foi a campanha pela aquisição da Groenlândia. Até então, suas declarações públicas sobre o assunto colocavam ênfase, de um lado, no interesse econômico na exploração dos recursos minerais raros existentes naquele território de soberania dinamarquesa, os quais são empregados em indústrias de alta tecnologia. Acentuavam igualmente a importância estratégica e geopolítica da Groenlândia para a segurança dos EUA e da própria Europa, dada a proximidade com a Rússia e a China, ambas hoje muito interessadas no Ártico e, em especial, nas novas rotas de navegação que se abrem com o degelo. Por diversas vezes, Trump chegou a mencionar expressamente ameaça de uso da força, caso o interesse norte-americano não fosse atendido, e anunciou que seriam adotadas tarifas elevadíssimas às importações dos países europeus que, em apoio à Dinamarca, estivessem articulando uma posição comum de resistência contra as pressões norte-americanas.
O problema, em suma, provocou um estremecimento nas relações transatlânticas, tendo motivado o envolvimento do secretário-geral da OTAN em contatos com os líderes europeus no sentido de apaziguar as tensões. Trump baixou o tom quando de sua passagem por Davos, ao esclarecer que não cogitava uso da força. Enfatizou que seu objetivo real era iniciar uma negociação sobre a aquisição do território pelos Estados Unidos e, reiterou os compromissos de seu país no âmbito da aliança transatlântica. Em reforço de sua reivindicação, lembrou que os EUA lutaram durante a Segunda Guerra Mundial em defesa da Groenlândia e depois a devolveram-na à Dinamarca, tendo mantido ali uma base militar. Hoje arrependem-se daquela decisão e consideram que agora existe uma situação nova favorável à transferência da soberania para os EUA.
Logo no início de seu segundo mandato, Trump alardeou interesse em tomar de volta a propriedade do Canal do Panamá. A intenção repercutiu mal na região, por interferir em questão resolvida pelos tratados Carter-Torrijos de 1977, que definiram a devolução gradual da via interoceânica, dos EUA ao Panamá, completada em 31 de dezembro de 1999. Isso evidencia a importância do princípio pacta sunt servanda na tradição jurídica e, especialmente, na consolidação da base territorial da formação dos estados latino-americanos.
Consta que a preocupação de Trump teria a ver mais com insatisfação pelos serviços da empresa chinesa que opera a passagem dos navios pelo Canal do que por considerações ligadas à questão da soberania. De toda forma, diminuíram posteriormente as declarações de Trump a respeito do assunto.
Talvez o país cujo governo recebeu a maior carga de ameaças e críticas nos pronunciamentos do mandatário estadunidense foi a República Islâmica do Irã. O estado de tensão na região vinha aumentando desde o agravamento das divergências sobre o programa nuclear iraniano, que culminaram com os ataques aéreos às suas instalações. Ao escalar as pressões contra Teerã, os EUA anunciaram o envio de uma força-tarefa à região do Golfo, para a realização de exercícios militares de prontidão. Veio a público na ocasião que o presidente Trump decidira ordenar novos ataques contra o Irã, mas desistiu de fazê-lo a conselho de Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Em Davos, advertiu expressamente o Irã com ameaça de novas punições no caso de persistir a repressão do regime às manifestações de protestos que vêm ocorrendo no país. Essa repressão custou quase 6 mil mortos.
Para tentar, de novo, marcar posição de liderança mundial, Trump anunciou em Davos a constituição de um conselho – denominado “Conselho da Paz” – a ser presidido por ele próprio, com a missão de contribuir para o soerguimento da Faixa de Gaza. Convidou vários chefes de estado a integrar o órgão, entre os quais o presidente Lula, que, justificadamente, ficou de responder depois. Outros aceitaram o convite de imediato, como o presidente da Argentina, Javier Milei, alinhado a Washington em política externa e, decerto, agradecido pelo apoio financeiro recebido do Tesouro americano por ordem de Trump. A participação no Conselho envolveria pagamento, por cada país, de contribuição de um bilhão de dólares. Para o Brasil, era necessário esclarecer este e vários outros aspectos, como a base de legitimidade da iniciativa, o papel dos palestinos, o mandato e as atribuições do órgão, as regras ou critérios sobre tomada de decisões, vinculação com o sistema das Nações Unidas e o impacto sobre o multilateralismo. O presidente Lula conversou por telefone com Trump, demonstrando a atenção dedicada ao assunto, de modo prudente e pragmático.
Épossível antever cenários diferentes?
O que esperar da evolução, no curto, médio e longo prazos, de toda esta pauta de complexas questões levantadas pelo presidente dos EUA e que, de certa forma, tocam nos interesses e preocupações do Brasil? É possível antever cenários diferentes aos que se desenharam abruptamente com as ações tomadas pelo presidente Trump?
Na Venezuela, não deixaram de surpreender os primeiros desdobramentos. Com o afastamento de Maduro, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o comando do regime chavista, tutelado por Washington com seu interesse no petróleo, talvez maior do que numa rápida restauração da democracia. O que será da estrutura do regime chavista após o uso da força pelos EUA? Em que direção será encaminhado o problema da Venezuela, cujas graves implicações transbordam em todo o continente?
As iniciativas de Trump sobreviverão ao teste das eleições legislativas da metade do mandato presidencial que se realizam no final deste ano? Como serão tratadas no Congresso norte-americano em caso de alteração na composição das bancadas de Democratas e Republicanos?
Por outro lado, vale acreditar na capacidade dos parceiros no hemisfério ocidental (Brasil, México, Canadá, Panamá, Colômbia e outros) de resistir, individual ou coletivamente, às pressões e ameaças que têm sofrido da superpotência no contexto da sua propalada nova doutrina Monroe? Na Europa, como deverá evoluir a questão da tentativa dos EUA de adquirir a Groenlândia e quais serão os seus desdobramentos à luz das relações transatlânticas? Qual o papel da China e da Rússia na articulação dos objetivos comerciais e estratégicos dos EUA, e como isso pode influir em uma mudança de atitudes do presidente?
Um aspecto da atual administração dos Estados Unidos, que afeta diretamente o Brasil, é a agressividade seletiva e arbitrária de sua política comercial, com dois pesos e duas medidas. É o caso das tarifas alfandegárias aplicadas de modo diferenciado, em função do tratamento atribuído a cada parceiro, e, o que é mais grave, ao inteiro arrepio das regras do comércio internacional. O presidente tem aumentado e baixado tarifas de modo unilateral, como instrumento de pressão política e em função de seus humores momentâneos.
Seria lícito esperar, com o passar do tempo, que atitudes de moderação e comedimento da parte norte-americana sejam capazes de dar encaminhamento mais racional a cada uma das questões? Ou, quem sabe, será possível apostar em recuos forçados a partir de dificuldades ou obstáculos que venham a travar as pretensões desmedidas do governo Trump? Isso foi, justamente, o que aconteceu no caso da sua tentativa de impor imperialmente à Dinamarca e aos países europeus a sua vontade de adquirir e anexar a Groenlândia. Blefou, inicialmente, com ameaça de uso da força para, depois, aceitar uma negociação sobre o objetivo da aquisição do território.
Neste e em outros temas, o presidente Trump e seu governo costumam assumir posturas de extremismo, de desprezo pelo direito internacional e, ainda, de completo desrespeito pelo multilateralismo.Ofendem parceiros com declarações, gestos e decisões abertamente hostis. Geram situações de crise e instabilidade quando, por exemplo, desconsideram abertamente os princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, entre os quais, a soberania dos estados, a integridade territorial, a não intervenção em assuntos internos, a solução pacífica de controvérsias, a proibição de ameaça ou uso da força. Provocam verdadeiro espanto na comunidade internacional quando anunciam, com total desfaçatez, seu desrespeito pela ordem pós-1945, construída sobre os escombros da Segunda Guerra Mundial. A mesma perplexidade é provocada pelo presidente quando critica as Nações Unidas e tenta impor à organização, com argumentos distorcidos, uma imagem de ineficiência ou inutilidade. O desprezo pelo multilateralismo se manifesta quando Trump retira seu país de praticamente todos os organismos e convenções internacionais e se nega a participar do debate sobre questões fundamentais como as do meio ambiente e as das mudanças climáticas. Tudo isso sem falar no tratamento agressivo adotado com a política de deportação de imigrantes, bem como com as sanções gratuitas e arbitrárias aplicadas contra estrangeiros com base na lei Magnitsky. Felizmente, neste último caso, foram revogadas medidas do gênero que haviam sido adotadas contra autoridades brasileiras.
A política de Trump de atirar para todos os lados parece ter chegado tarde, pois há tempos os Estados Unidos enfrentam dificuldades na cena internacional e, hoje, especialmente, passam por desafios cada vez mais complexos, como a luta contra o terror, as guerras do Oriente Médio e da Ucrânia, o problema do Irã, o papel da China e da Rússia na nova geopolítica mundial, sem falar das incertezas no comércio internacional. No plano interno, a política de deportação de imigrantes ilegais, aplicada desde o início da atual administração norte-americana, já tem sido alvo de críticas e contestações por parte da imprensa, dos tribunais e da sociedade civil, sobretudo após os recentes acontecimentos em Minneapolis. Tudo, enfim, se resume a um comportamento intrusivo e errático em relação a países do hemisfério ocidental (Panamá, Colômbia, México, Venezuela, Canadá, Brasil) e, até mesmo, em relação aos estratégicos parceiros europeus da aliança transatlântica. O caso da Groenlândia é um dos mais ilustrativos das pretensões do presidente Trump. Restará comprovar, passado o momento mais áspero dessa controvérsia, na qual os dois lados ameaçaram adotar tarifas altamente punitivas um contra o outro, se haverá espaço para entendimentos práticos, com base jurídica adequada e com boa-fé. Este seria um exemplo de retorno à sensatez, capaz de influir positivamente no tratamento dos demais tópicos da conflitiva agenda internacional do presidente Trump.
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