A eleição de 2026 e o Brasil que já não cabe nos extremos
Numa tarde de maio, estava em São Paulo e puxei conversa sobre política com um motorista de aplicativo, 41 anos e que trabalha 12 horas por dia. Em poucas palavras, ele resumiu sua relação com a política de forma que nenhum dado de pesquisa consegue capturar completamente: “Eu voto, acompanho, fico com raiva. Mas, no fim do dia, nada muda”. Ele votou em Bolsonaro, em 2018, em Lula, em 2022, e diz que não sabe em quem vai votar em 2026. Não porque seja indiferente, mas porque desconfia de todo mundo.
Essa desconfiança é o fato político mais importante do Brasil neste momento. Não a polarização, não as pesquisas de intenção de voto, não os escândalos que se acumulam nas manchetes. O país discute governo, Supremo, Congresso, inflação, Pix, facções, religião e tarifas americanas todos os dias. Por trás do barulho, porém, cresce uma pergunta silenciosa que atravessa todas as classes, regiões e faixas etárias. Depois de tantos anos de confronto, quem ainda consegue entregar alguma coisa?
Seria tentador tratar esse cansaço como particularidade nacional, mais um capítulo da saga de instabilidade que o Brasil protagoniza desde 2013. Mas o que o país vive tem paralelos precisos em democracias muito diferentes.
Nos EUA ou na França, Hungria, Itália, Colômbia e em outros países com histórias e estruturas completamente distintas, o padrão se repete. Os partidos tradicionais perdem ancoragem, novas forças surgem prometendo ruptura e o eleitor oscila entre esperança e nova decepção.
O que une esses casos não é ideologia, mas uma mesma crise de intermediação. As instituições que antes filtravam, organizavam e traduziam os anseios da sociedade perderam legitimidade. Partidos, imprensa, sindicatos e parlamentos já não funcionam como pontes confiáveis entre o cidadão e o poder. No vácuo, entraram as plataformas digitais, que não foram construídas para governar, mas para engajar, e que premiam indignação, conflito e identidade de grupo muito mais eficientemente do que premiam proposta, argumento ou solução.
No Brasil, essa crise global encontrou uma década de rupturas acumuladas. Protestos de massa em 2013, impeachment de Dilma, Lava Jato, prisão de Lula, eleição de Bolsonaro, pandemia, derrota de Bolsonaro, 8 de janeiro e condenação de um ex-presidente por tentativa de golpe. Cada evento aprofundou a fratura. O eleitor chega a 2026 carregando memória de conflito, mas também cansaço. Em 2022, a disputa ainda foi vivida por muitos como decisão histórica. Para um lado, derrotar Bolsonaro era salvar a democracia. Para o outro, impedir Lula era salvar o Brasil. A eleição passou. O preço dos alimentos, a violência, o endividamento e a precariedade dos serviços públicos permaneceram como lembretes de que vencer o adversário não basta.
Os dados expõem paradoxo central na eleição
Na AP Exata Inteligência em Dados, acompanhamos esse ambiente digital em tempo real, classificando sentimentos e emoções, medindo confiança e acompanhando como a opinião pública avalia os atores políticos. É uma pesquisa de narrativas que mede o clima digital, a circulação de temas e a reputação em ambientes online.
Os dados que apuramos revelam um paradoxo central da eleição. No início de junho de 2026, Lula registrava 40,32% do volume médio de menções entre os presidenciáveis. Flávio Bolsonaro aparecia em segundo, com 28,64%. Mas, quando se olha para confiança, o quadro se inverte. Caiado liderava com 18,27%, seguido por Zema (16,45%), Renan Santos (15,38%) e Lula (15,35%). Flávio ficava em último, com 11,55%.
A fotografia é clara. Os personagens mais centrais não são os mais confiáveis. Volume de menções reflete protagonismo, mas também antagonismo. Confiança é outra moeda.
A avaliação digital do governo federal também aponta recomposição parcial, mas não aprovação confortável. Em setembro de 2025, o ótimo e bom aparecia em 25,8%, contra 48,9% de ruim e péssimo. Em junho de 2026, o ótimo e bom chegou a 33,7% e o ruim e péssimo caiu para 43,2%. A melhora é real. O governo saiu de um ambiente mais hostil para uma zona de competição. Mas o saldo ainda mostra rejeição elevada e um país longe de qualquer consenso.
Lula entra na eleição com uma vantagem objetiva. Está no governo, controla a agenda federal e organiza a esquerda em torno de pautas com rendimento político. A defesa da escala 6×1 é o exemplo mais nítido. Funcionou porque falou de vida concreta, sem exigir mediação ideológica. Tratou de tempo, descanso, família e exaustão. Para milhões de trabalhadores, o tema apareceu como resposta a uma rotina pesada. O governo conseguiu se associar à demanda que fala com a vida das pessoas, que é exatamente o território onde o lulismo sempre foi mais forte, ao lado de programas sociais, valorização do trabalho, presença do Estado e alegada defesa dos mais vulneráveis.
Mas, essa vantagem tem limites. A unidade da esquerda revela dependência excessiva de uma liderança que atravessou quase toda a história recente da República. Há experiência e memória social, mas envelhecimento, baixa renovação e dificuldade de admitir que parte da sociedade vê o governo como caro, populista e preso à defesa de si mesmo.
Os dados confirmam essa ambivalência. Entre 1º e 13 de maio, antes da crise do Banco Master, Lula tinha 41,09% de menções positivas e 16,60% de confiança. Entre 14 de maio e 7 de junho, as menções positivas caíram para 39,49% e a confiança para 15,67%. A melhora na avaliação do governo não se converteu em entusiasmo pelo presidente.
O desafio aparece com mais força em segurança pública, eficiência do Estado, articulação com o Congresso e contas públicas. A defesa da democracia continua relevante, mas não responde sozinha ao medo da violência. A crítica à extrema direita encontra limite quando o eleitor olha para Brasília e vê cargos, emendas e concessões parlamentares. Lula precisa demonstrar que sua candidatura representa entrega e estabilidade, não apenas resistência ao adversário.
A direita que se fragmentou
A direita tem pautas potentes. Segurança pública, combate ao crime organizado, liberdade econômica, irritação com impostos, crítica ao PT, contestação ao Supremo e rejeição aos privilégios de Brasília seguem mobilizando amplos setores. São temas reais, não invenções digitais.
O problema está na liderança. Jair Bolsonaro continua sendo o centro emocional do campo conservador, mas não estará na urna. Sua inelegibilidade criou uma disputa de herança que ainda não se resolveu, e a crise que se abateu sobre Flávio Bolsonaro tornou isso mais evidente.
Antes do caso Master, entre 1º e 13 de maio, Flávio tinha 43,61% de menções positivas e 16,43% de confiança. Entre 14 de maio e 7 de junho, as menções positivas caíram para 32,50% e a confiança foi a 11,38%, a queda mais forte entre todos os nomes monitorados. Os áudios, a relação com Daniel Vorcaro, o financiamento do filme Dark Horse e as explicações contraditórias criaram danos que alcançaram setores da própria direita. A esquerda atacou enquanto parte do campo conservador silenciou, entregando domínio narrativo ao adversário. Quem defendeu Flávio foram os eleitores mais radicalizados, o que o afastou justamente dos moderados com quem vinha avançando.
A crise do Banco Master explicitou algo que já estava latente. Sem Jair Bolsonaro na urna, o campo conservador passou a conviver com disputas de autoridade antes subordinadas à liderança do ex-presidente. Quem fala em nome do eleitor conservador? A família Bolsonaro, o PL, os governadores, as lideranças religiosas, os liberais, o Centrão ou os influenciadores digitais? A resposta segue indefinida.
O deputado Nikolas Ferreira, uma das maiores forças digitais conservadoras, passou a enfrentar ataques de bolsonaristas em disputas sobre protagonismo e lealdade. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, precisa preservar Flávio Bolsonaro, administrar o partido e negociar alianças, mas ao agir como dirigente enfrenta a desconfiança de quem esperava fidelidade, não cálculo. No plano estadual, o apoio de Jair a Arthur Lira, em Alagoas, incomodou a base. No Rio de Janeiro, aliados de Flávio carregam desgaste próprio. No Distrito Federal, a crise do Banco BRB e o movimento do PL para ocupar espaço compõem outro tabuleiro delicado. Enquanto isso, Carlos Bolsonaro e perfis bolsonaristas passaram a tratar os outros candidatos da Direita, Zema e Caiado, como ameaças. Zema virou alvo ao cobrar esclarecimentos sobre o caso Master. Caiado foi chamado de “ditador” por setores radicais após defender a vacinação. Pontes vão sendo destruídas.
Há ainda um erro de leitura recorrente. Tratar a direita como reservatório uniforme de votos ignora a natureza diversa do campo. Um eleitor de Zema pode rejeitar o estatismo lulista e, ainda assim, ver Flávio como risco. Um eleitor de Caiado pode querer ordem, mas desconfiar de radicalização. Um bolsonarista fiel pode ver Zema como oportunista. A soma aritmética da direita no primeiro turno não garante unidade no segundo. A esquerda chega à eleição com desgaste de governo e dificuldade em segurança pública, mas sabe em torno de quem se organizar. É nesse intervalo que Lula se mantém competitivo.
Dois personagens aparecem nos dados com força suficiente para alterar o cenário, mas ainda sem candidatura definida.
Michelle Bolsonaro registra 15,82% de confiança no monitoramento da AP Exata, número superior ao de Lula e ao de Flávio. Esse índice não reflete uma candidatura consolidada, mas um ativo emocional real dentro do campo conservador. Michelle representa algo que Flávio não consegue oferecer com a mesma intensidade. É uma recomposição afetiva do bolsonarismo, ancorada na figura da esposa dedicada e da mulher determinada, na identidade evangélica e numa linguagem de fé e família que fala diretamente com o eleitorado feminino religioso, um dos segmentos que mais cresceu politicamente na última década. Sua entrada dependeria de um colapso definitivo da candidatura de Flávio, mas o cenário não pode ser descartado.
Renan Santos, líder do MBL, aparece com 15,38% de confiança e 11,63% do volume de menções, números expressivos para alguém que ainda não ocupou cargo executivo. Sua força está na renovação geracional e na capacidade de dialogar com um eleitor jovem, urbano e insatisfeito que rejeita tanto o lulismo quanto o bolsonarismo familiar. O desafio de Renan é de escala. Engajamento digital não se converte automaticamente em votos em eleições presidenciais, e a travessia do campo digital para o país real exige estrutura, alianças e recursos que ele ainda não demonstrou ter.
Juntos, esses dois nomes revelam que o campo conservador tem alternativas ao herdeiro direto. O problema é que cada alternativa resolve parte do quebra-cabeça sem resolver o todo.
Símbolos de vida prática e a economia do bolso
O eleitor que se tornou mais pragmático desde 2022 não cabe bem nas categorias rígidas das redes. Há conservadores em costumes que defendem programas sociais. Há eleitores que rejeitam o PT sem aceitar Flávio como alternativa natural. Outros rejeitam o bolsonarismo sem aderir ao Estado lulista. O mesmo cidadão que reclama do preço da gasolina pode defender o Bolsa Família. Quem critica o Supremo pode tratar o Pix como símbolo de orgulho nacional.
Por isso, os grandes temas de 2026 precisam ser lidos como símbolos de vida prática. A escala 6×1 não trata apenas de jornada, mas de tempo. O Pix não é apenas tecnologia financeira, mas autonomia cotidiana. A segurança pública não é pauta exclusivamente conservadora, mas sensação de liberdade. A fé não é apenas identidade religiosa, mas pertencimento comunitário. Cada tema vira uma forma de o eleitor medir quem protege sua vida e quem a usa como munição eleitoral.
A Marcha para Jesus ilustrou essa fronteira. O monitoramento da AP Exata apontou 53,4% de menções negativas ao evento, contra 28,9% positivas e 17,7% neutras. O uso político liderou as conversas, com 30,6%. Flávio Bolsonaro foi o principal personagem individual, com 24,8%. Fé e música gospel, que deveriam ocupar o centro simbólico do evento, representaram apenas 6,9% do debate. O dado não indica rejeição à religião. Indica incômodo com a instrumentalização. A direita tem vantagem cultural em segmentos religiosos, mas pode desperdiçá-la se tratar o eleitor de fé como base automática. Isso vale para a segurança pública. A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA deu a Flávio pauta de alto potencial. A crise de confiança limitou o ganho. A agenda era forte. O portador da agenda estava fragilizado.
Por mais que o debate público gire em torno de democracia, instituições e identidade, a eleição também será decidida pela experiência concreta do orçamento doméstico. O Brasil começou 2026 com mais de 70 milhões de inadimplentes. A inflação de alimentos corrói o poder de compra das famílias de renda mais baixa de forma desproporcional. O crédito está caro. O trabalhador informal, que representa quase 40% da força de trabalho, vive sem rede de proteção robusta e sente qualquer instabilidade com muito mais intensidade do que os índices agregados conseguem capturar.
A classe média sente essa pressão de forma particular. Paga imposto, consome serviço privado quando o público falha, teme perder padrão de vida e desconfia de promessas grandiosas. É um eleitorado que não tem paciência para retórica e que mede governo pela experiência dos 12 meses anteriores à eleição, não pela narrativa histórica dos últimos 30 anos.
Lula precisa convencer que proteção social não significa descontrole e que pode induzir desenvolvimento sem sufocar produtividade. A direita, por sua vez, precisa provar que liberdade econômica não significa abandono. O discurso de corte de gasto e eficiência pode atrair, mas perde força se não vier acompanhado de respostas concretas para saúde, educação, segurança e desigualdade. O eleitor quer eficiência, mas não quer ficar sozinho.
A política que o eleitor procura
O eleitor que ganhou mais peso desde 2022 não rejeita o conflito, pois sabe que a política envolve disputa. O que rejeita é a simplificação permanente. Quer segurança pública sem bravata, proteção social sem desperdício, liberdade econômica sem abandono e defesa da democracia sem blindagem corporativa das instituições. Espera que a religião seja respeitada sem virar moeda eleitoral e que a soberania nacional seja tratada com seriedade, não como encenação para consumo das bolhas.
A política brasileira tem dificuldade de falar com esse eleitor porque as redes punem a nuance. Reconhecer duas dimensões de um problema pode soar como fraqueza. Admitir limites costuma irritar a própria base. Negociar uma solução intermediária vira suspeita de traição. A arquitetura digital favorece certezas rápidas e inimigos claros, enquanto governar exige escolhas imperfeitas, concessões e compromisso com a realidade.
O risco de Lula é disputar 2026 como se a repetição de 2022 bastasse. Para a direita, o perigo está em imaginar que substituir Jair por um herdeiro resolverá a sucessão. Governadores podem errar se confundirem boa gestão estadual com apelo nacional automático. Outsiders podem tomar engajamento digital por maioria social. Todos, de algum modo, enfrentam o mesmo alerta. O país parece cansado da política como estado permanente de exceção emocional.
A eleição não será decidida apenas pela disputa abstrata entre esquerda e direita, nem pelo volume de menções ou engajamento. O que estará em jogo é a capacidade de cada campo parecer confiável para reduzir riscos concretos, sejam eles econômicos, institucionais, de segurança ou diplomáticos. O eleitor observa quem transmite estabilidade, quem protege a renda, quem enfrenta o crime, quem evita aventuras externas e quem consegue sair do conflito sem entregar paralisia.
Até aqui, nenhuma das ofertas políticas disponíveis respondeu ao que mais importa nesta eleição. Existe um Brasil numeroso que está cansado de ser convocado apenas para torcer contra alguém. Esse eleitor não pede unanimidade nem conciliação vazia. Pede que alguém governe com foco na vida das pessoas, sem depender da polarização para se manter de pé.
Quando for votar, o motorista de aplicativo que abriu este texto vai chegar à cabine eleitoral procurando uma razão para confiar, não apenas uma razão para temer o adversário. Se algum candidato encontrar essa linguagem antes de outubro, terá mais do que votos. Terá a esperança de quem tinha parado de acreditar que a política pode mudar alguma coisa na sua vida.
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