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09 outubro 2026

11 de Setembro – 25 anos

Um quarto de século depois, a poeira das Torres Gêmeas ainda tem efeitos nocivos. Bombeiros investigam no meio da rua o que parece um vazamento de gás em Manhattan. Um avião passa rasante, e o cinegrafista, que registra o trabalho dos brigadistas para um documentário, levanta a câmera a tempo de captar o choque. São […]

Um quarto de século depois, a poeira das Torres Gêmeas ainda tem efeitos nocivos.

Bombeiros investigam no meio da rua o que parece um vazamento de gás em Manhattan. Um avião passa rasante, e o cinegrafista, que registra o trabalho dos brigadistas para um documentário, levanta a câmera a tempo de captar o choque. São 08h46 da manhã.

Noticiários vão ao ar. Interrompem a rotina de boa parte da população mundial, que corria à época em torno da grade de programações da televisão. Jornalistas começam a cobrir o tema ao vivo. Como os espectadores, procuram situar-se.

Um incêndio consome o alto da Torre Norte do World Trade Center (WTC). Um avião pequeno teria atingido o arranha-céu. Pode acontecer. Foi o que houve em 1945, quando um bimotor atingiu o Empire State em meio a um nevoeiro. Aos poucos, começa a decantar a informação de que teria sido algo mais grave: um Boeing 767, o voo 11 da American Airlines, que deveria ir de Boston a Los Angeles, havia batido no prédio. A fumaça preta e as labaredas rubras contrastam com o azul profundo do céu, onde helicópteros sobrevoam a perplexidade.

“Uma ferida aberta na fachada do prédio” é uma frase comum entre as testemunhas.

Chuva de vidro, aço, papel e gente. Olhares no alto, queixos no chão, milhões de novaiorquinos encaram o horror de pessoas presas acima do centésimo andar. Sirenes bradam pelas ruas e sulcam para sempre o subconsciente. Ebulição ou despenhadeiro: a escolha que milhares de pessoas jamais pensaram que fariam ao saírem da cama naquele dia, ainda mais no alto da silhueta urbana mais famosa do mundo.

Em uma escalada de 17 minutos, bilhões de olhos se grudam à TV, e então o golpe máximo: às 09h03, outro Boeing 767, o voo United 175, transporta a humanidade, através da fachada da Torre Sul, para o século XXI.

Cai a ficha. Não se trata de acidente: “America is under attack”.

O Pentágono é atingido, e um avião que seria destinado ao Capitólio ou à Casa Branca cai em Shanksville. Quantos mais? A única aeronave autorizada a voar é a do Presidente George W. Bush. Decola em inclinação vertiginosa para evitar potencial ataque que poderia estar preparado contra o Air Force 1.

Em NY, toda esperança de salvamento se vai em duas enxurradas de entulhos e concreto em pó pelas ruas da cidade e pelas vias aéreas de milhares de testemunhas, enquanto o WTC evapora e obscurece o otimismo até então vigente.

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“O dia amanheceu lindo”. “Era uma bela manhã de terça-feira”. “Todo mundo se lembra de onde estava”. É o que costumam dizer documentários ou testemunhos sobre aquele 11 de setembro de 2001. São frases um tanto batidas, mas contêm sua verdade: a data marca o último dia de uma época que boa parte da humanidade acreditava ser solar.

Apesar de prioridades diferentes, era possível supor que o Governo Bush daria seguimento ao otimismo da Administração Clinton. Era inevitável: endividamento público em 60% do PIB, superávit fiscal, dólar onipresente. Juros baixos e consumo febril. Internet nascente. A receita do sucesso estava clara: democracia liberal e livre comércio.

O Consenso de Washington arvorava-se como contrato social das Relações Internacionais. Seria o fim da anarquia, com o monopólio da força e da economia nas mãos da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Sistema de Bretton Woods, ou, em última análise, dos EUA, que se apresentavam como a republicanização da virtude.

Única superpotência depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos irradiavam hard e soft powers, combinados: de um lado, Saddam Hussein expulso do Kuwait pela maior coalizão internacional depois da Segunda Guerra Mundial, aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU e liderada, claro, pelos EUA; de outro, Dream Team, com Michael Jordan e Magic Johnson; Michael Jackson e Madonna; Esqueceram de Mim, “F.R.I.E.N.D.S” e Forrest Gump. Cursos de inglês descolados. Viagem para a Disney da classe média. Vitória do capitalismo. É a economia, estúpido!

Com o fim do sistema internacional bipolar, agendas de esperança, como meio ambiente e direitos humanos, ganhavam espaço. A humanidade nunca estivera tão plena, imaginava-se. O “sonho americano” jamais havia sido tão acessível. Era só se esforçar, e a casa própria, com piscina, automóveis na garagem, conforto, filhos e um cachorrinho, estava à mão.

Fim da História.

Nem todas as agendas do pós-Guerra Fria eram de cores tão vibrantes nos anos 1990, porém. O fantasma do genocídio voltava a assombrar a humanidade, com as Guerras da Bósnia e do Kosovo. À eleição de Nelson Mandela e o consequente fim do apartheid na África do Sul, em 1994, se contrapunha Ruanda, onde mais de 800 mil pessoas morreram a golpes de facão num conflito genocida de 60 dias. Pouca gente notou: a matança começou no dia seguinte à conquista do tetra pelo Brasil na Copa dos EUA.

Na mesma década, surgiriam certa Al-Qaeda e certo Osama bin Laden com ataques às Embaixadas dos EUA no Quênia e na Tanzânia em 1998. Dois anos depois, o grupo atingiria contratorpedeiro USS Cole no Iêmen.

Algo fermentava sob o verniz de otimismo.

Porém, a Pax Americana tinha swagger, brilho e atração. Quem em sã consciência pensaria em acabar com esse mundo ideal?

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A punição tem de ser exemplar. O tom agora, nas palavras de Bush, é “quem não está conosco ou está contra nós”. É claro, sem tirar os olhos das próximas eleições, em 2004.

A “América” peita quem quiser e pronto. A nação acredita em seu excepcionalismo advindo do Destino Manifesto. Com os outros, as coisas dão errado. Conosco, não. Ainda mais na onda de otimismo que temos surfado desde a vitória “definitiva” na Guerra Fria. Ninguém pode parar a ira da maior força militar da História.

A taxa de juros a 1% aquece a economia, e o consumo ajuda a garantir a pose de “terra da liberdade”. A “democracia” é o novo evangelho. Nessa onda, vai primeiro o Afeganistão. Depois, sem o aval do Conselho de Segurança, o Iraque. Em comum, não tinham nada, salvo fronteiras a leste e a oeste do Irã, o que leva a perguntar se o plano militar na região não era maior do que acabou acontecendo.

Enfim…

Em 2008, também no mês de setembro, novo choque: para conter a inflação do consumismo, o “Federal Reserve” (FED) sobe a taxa de juros, que não mais cabe no orçamento de quem se endividou. Calotes e caos. Vai-se o emprego. Vai-se a casa, dada como garantia da dívida.

À noite, estacionamentos ainda hoje se enchem de pessoas que passam as noites em seus carros com suas famílias. Outras vão morar em motéis à beira da estrada, com dois ou mais filhos em um quarto. Para quem ainda tem algo, o custo de vida só aumenta: mercado, combustível, aluguel. A atual guerra aérea contra o Irã não ajuda. É preciso escolher quais contas não serão pagas no mês. Em uma sociedade que se orgulhava do “sonho americano”, 42 milhões de habitantes dependem de parcos programas sociais, como cupons do governo para alimentação, os food stamps.

O valor do seguro de saúde dispara, e muitos morrem à míngua no país mais rico do mundo, onde não existe saúde gratuita. A situação se agrava após a pandemia de Covid-19.

O desnorteio é grande demais para conseguir processar o que aconteceu. No início da era da enchente informativa das redes sociais, a capacidade geral de prestar atenção, ler e interpretar textos ou o mundo declina de modo sensível. A realidade é tão dolorida, que é preciso negá-la ou acreditar em uma paralela.

Os predadores da democracia se alimentam da frustação popular. Como “resposta”, avançam agendas antidemocráticas e autoritárias, cujos únicos beneficiários são os que estão no poder e seus grupos familiares e de influência. Oferecem explicação mais fácil.

Você não passa de um peão no tabuleiro. Fez tudo certinho, como lhe disseram para fazer, estudou, trabalhou e… se deu mal. Só pode ser sabotagem. É “lógico” que todo o resto que lhe contaram está, portanto, errado, inclusive a história, a economia e a ciência – enfim, tudo o que dizem as “elites educadas” de Washington e das Costas Leste e Oeste, cujos filhos estão nas universidades, e não, morrendo no Afeganistão e no Iraque, como no caso das famílias “blue collar”, operárias.

Primeiro, socam dois aviões no WTC. Depois, quebram a economia e dizimam famílias. Aí “criam” a Covid para robotizarem as pessoas por meio de chips programados. Pais são obrigados a vacinar crianças e mandar seus filhos para a escola, onde já se viu? Só pode ser o “sistema”.

É evidente que as “elites” conspiram contra você. São os donos da mídia e das big techs. Universitários e cientistas. Bilionários que querem o fim da “civilização judaico-cristã”. Só não vê quem não quer, quem acredita na grande mídia. Está aí. Está no grupo de WhatsApp. Faz sentido, pensa um pouco: quem, então, em sã consciência pensaria em acabar com o mundo ideal? Os comunistas, claro!

O objetivo “deles” é cristalino: a “nova ordem mundial”, um governo planetário, tirano e corrupto, para que as “elites” possam continuar a usufruir de privilégios. Para isso, “criminalizam” o homem, o branco, o cristão, a família. Buscam substituir você por imigrantes.

– Saio no meu bairro e não me sinto mais na “América” (na Europa, no Brasil, oi?). Olho em volta e só vejo gente de olho puxado, usando véu de arco-íris, com uma foice e um martelo estampados, rezando para Meca e falando espanhol. E você já notou que eles estão sempre só entre eles, que eles não se misturam, que não falam nem querem aprender o nosso idioma e os nossos costumes? Vêm aqui e só querem saber de aproveitar o que nós construímos. Sabe por quê, né? Porque as “elites” querem nos substituir. Elas sabem que pessoas “de bem” jamais vão votar nos candidatos-fantoche delas.

Desconsidera-se que a imigração é um fenômeno histórico. Se não é possível continuar na África, no Oriente Médio e na Ásia, por exemplo, porque países desenvolvidos foram lá e colonizaram ou bombardearam tudo, as pessoas procuram oportunidades em outros lugares. Com frequência, mudam-se para essas nações mais ricas, que, por meio dos recursos explorados, hoje têm melhor qualidade de vida e, por isso, atraem o impulso humano de sobreviver.

Ignora-se que imigrantes costumam ter mais filhos. Foi assim que se comportaram os antepassados alemães, italianos, irlandeses, etc. de quem hoje é “nativo” e reclama dos vizinhos africanos, árabes e asiáticos. Tampouco parece interessar que os “nativos” queiram ter famílias menores. É, afinal, o que de modo geral acontece em setores sociais mais prósperos, que, apesar do relativo empobrecimento desde 2008, nos tempos modernos são brancos em muitos países.

– É só mandar esses usurpadores de volta ou para penitenciárias de segurança máxima, criar um muro na fronteira ou empoderar agentes públicos para atirar nos “ilegais”. Logo, teremos os “bons tempos” de volta.

Vale notar, por outro lado, que pelo mundo essa interação nociva também acontece dentro de grupos de brancos e não-brancos. Na Europa Ocidental, por exemplo, europeus orientais são discriminados. Na África, povos negros de países vizinhos sofrem perseguição de negros sul-africanos, que acusam zimbabueanos, moçambicanos ou nigerianos de lhes roubarem o emprego, a escola e o hospital.

Se não pode rechaçar os “diferenciados”, quem tem recursos se retira. Em geral, os endinheirados vão para bairros exclusivos e não se misturam. Olham para a periferia com bondoso sorriso antropológico para disfarçar o nojinho a cheiro de rodoviária.

Em casos mais extremos, nos quais a cor da pele necessariamente conta, surgem “cidades brancas” como “Retorno à Terra”, no Arkansas, que se inspira em Orânia, na África do Sul. Por serem construídas em propriedades privadas, os habitantes acreditam ser livres da ingerência do Estado. Querem “apenas” estar entre os “seus”, cultivar sua própria religião e educar seus filhos sem interferência estatal (sinônimo de “comunista”). Críticas são recebidas como um ataque ao seu “modo de vida”, à sua “liberdade de crença” ou, acreditem, como “racismo”.

O irônico é que toda essa multidão desiludida reproduz um discurso vendido por “bilionários do povo”.

Um quarto de século depois, as ruínas do “Marco Zero” não existem mais. No lugar, o novo prédio e os monumentos às vítimas dão a impressão de novo começo; porém, as nuvens de concreto que se ergueram com a evaporação das Torres Gêmas e da economia continuam a obscurecer psiques, traumatizadas pelo terrorismo e enrijecidas pela cobiça a ponto de quebrar. Ainda matam pessoas – mais de nove mil morreram de doenças como câncer por causa da bruma tóxica, e incontáveis outras, por meio da intolerância.

Os ataques podem até ter sido vingados no campo militar. Osama está morto. Porém, o custo para esse acerto de contas é incontável. Talvez a vitória mais expressiva dos agressores tenha sido, para além da derrocada econômica, o recrudescimento da paranoia contra o diferente e a recusa do diálogo: o embrião do fascismo, que, se não remediado, pode carcomer por dentro nações que se consideram multiculturais e democráticas, como os EUA, o Brasil e a África do Sul.


O texto foi publicado no substack do autor. Leia aqui

João Bimbato é diplomata desde 2010. Desde 2019 acompanha o continente africano de modo direto. Além desse período, trabalhou três anos (2012 a 2015) com a promoção da língua portuguesa, tema com ampla presença africana. Serviu na Delegação Permanente do Brasil junto à Aladi e ao Mercosul de 2017 a 2019, em Montevidéu. O texto não necessariamente reflete a opinião do Ministério das Relações Exteriores ou da Embaixada do Brasil na África do Sul.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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