13 julho 2023

920 milhões de pessoas poderão enfrentar conflitos em relação aos rios do mundo até 2050

O compartilhamento de águas gera tensão entre diferentes Estados, e a África já está caminhando para um cenário de crises e seca. Para pesquisadora, conflitos podem surgir até 2050 devido, principalmente, à construção de barragens hídricas

O compartilhamento de águas gera tensão entre diferentes Estados, e a África já está caminhando para um cenário de crises e seca. Para pesquisadora, conflitos podem surgir até 2050 devido, principalmente, à construção de barragens hídricas

Por Sophie de Bruin*

O projeto da Grande Barragem do Renascimento Etíope no rio Nilo começou a operar em fevereiro de 2022. Isso reforçou as tensões entre a Etiópia, o Sudão e o Egito. Os três países dependem fortemente da água do Nilo. O Sudão e o Egito consideram a barragem, que custou US$4,6 bilhões, uma ameaça ao abastecimento vital de água. A Etiópia, por outro lado, a vê como essencial para o seu desenvolvimento. 

Esse é apenas um exemplo de como conflitos podem surgir entre países que compartilham bacias hidrográficas. E há um risco real de que tais conflitos se tornem mais comuns à medida que as temperaturas globais aumentam.

‘Centenas de rios são divididos entre dois ou mais países. Compartilhar águas pode ser uma fonte de cooperação ou conflito.’

Centenas de rios são divididos entre dois ou mais países. Compartilhar águas pode ser uma fonte de cooperação ou conflito. Isso depende das condições econômicas, culturais e institucionais. Também depende das relações históricas entre os países.

Apesar de historicamente a cooperação prevalecer sobre os conflitos e violentos confrontos internacionais de larga escala não terem ocorrido até agora, as tensões relacionadas à água existem há muito tempo. Além disso, essas estão crescendo acerca de várias bacias hidrográficas.

A África possui 66 bacias hidrográficas transfronteiriças. Isso inclui a bacia do Nilo e as bacias de Juba-Shebelle e do Lago Turkana no Chifre da África. O risco de conflitos pode aumentar à medida que as populações crescem, que o uso da água se intensifica e que o clima muda. 

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Não há consenso sobre os mecanismos precisos que alimentam as tensões em tais bacias. É, no entanto, possível identificar as áreas onde os riscos são projetados para se agravar. Isso pode ser feito combinando os dados sobre as condições de risco de conflito identificadas na literatura existente.

Em um estudo recente que realizei com três pesquisadores de sistemas hídricos da IHE Delft, da Utrecht University e da Wageningen University & Research, chegamos a três futuros possíveis em relação ao risco de conflito em bacias hidrográficas transfronteiriças globais.

‘Se nada mudar substancialmente na forma como as bacias fluviais são gerenciadas e com o agravamento das mudanças climáticas, 920 milhões de pessoas viverão em áreas de risco muito alto a alto até 2050’

Nosso estudo prevê que, se nada mudar substancialmente na forma como as bacias fluviais são gerenciadas e com o agravamento das mudanças climáticas, 920 milhões de pessoas viverão em áreas de risco muito alto a alto até 2050.

Se as nações melhorarem o uso da água, fortalecerem a cooperação e fizerem mais para prevenir ou mitigar tensões, esse número cairá para 536 milhões.

Tratados sobre a água e forte organizações de áreas fluviais aumentam a probabilidade de haver uma cooperação estável e de longo prazo entre os Estados.

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Nossa pesquisa

Nosso estudo combinou projeções relativas à construção de mega-barragens e à resiliência institucional. Ele analisou fatores de risco hidroclimáticos, de administração e socioeconômicos. A associação desses fatores forneceu uma ideia do risco geral de conflito por bacia hidrográfica transfronteiriça.

Usamos uma interpretação ampla das disputas por recursos hídricos transfronteiriços. Isso variou de acusações e tensões diplomáticas a sanções econômicas e confrontos violentos.

‘A falta de cooperação entre os países pode levar à perda dos benefícios que resultam das atividades conjuntas’

A falta de cooperação entre os países pode levar à perda dos benefícios que resultam das atividades conjuntas. Isso inclui a adaptação às mudanças climáticas, a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento socioeconômico. As tensões entre os Estados sobre essas questões também podem se espalhar para outros setores, comprometendo as relações políticas ou econômicas regionais.

Nossas descobertas 

Nossos resultados mostram que, em um cenário de business-as-usual – em que nenhuma mudança importante é feita – 920 milhões de pessoas, dos 4,4 bilhões que vivem em bacias hidrográficas transfronteiriças, morarão em áreas de risco de conflito muito alto a alto até 2050. Na África, esse número inclui pessoas que vivem na Eritreia, Etiópia, Ruanda, Uganda, Quênia, Somália, Burkina Faso, Mauritânia e Níger. Também inclui os habitantes de Moçambique, Malaui, Benin e Togo.

‘Em um cenário de melhores práticas sobre o uso da água e maior resiliência institucional esse número diminui para 536 milhões.’

Em um cenário mais ambicioso – que implica melhores práticas sobre o uso da água e maior resiliência institucional – esse número diminui para 536 milhões. O cenário menos ambicioso sugere alguma melhoria na eficiência do uso da água, na capacidade institucional e na qualidade da administração. Nessa situação, 724 milhões de pessoas viveriam em bacias com risco de conflito muito alto a alto até 2050.

As bacias na África e na Ásia, especialmente, são projetadas para enfrentar riscos globais elevados, uma vez que vários riscos colidem nelas. Na África, várias bacias enfrentam dificuldades adicionais, como alta variabilidade dos fluxos e disponibilidade limitada de água. Há também uma dependência dos países a jusante em relação aos países a montante.

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As atuais tensões no Nilo em relação à Grande Barragem do Renascimento Etíope, por exemplo, podem aumentar quando a Etiópia decidir desenvolver várias novas represas de mega-hidrelétricas. O Egito e, em menor escala, o Sudão são altamente dependentes dos recursos hídricos relacionados à bacia.

O que isso significa 

‘Nosso estudo mostra que, potencialmente, mais 11 grandes represas hidrelétricas poderiam ser construídas na região do Nilo.’

Nosso estudo mostra que, potencialmente, mais 11 grandes represas hidrelétricas poderiam ser construídas na região do Nilo. Isso se baseia na viabilidade física, no rendimento energético e nos custos de construção. A projeção leva em conta algumas restrições, como reservas naturais protegidas.

Sete dessas barragens ficariam na Etiópia e as outras quatro no Sudão do Sul. A construção dessas represas aconteceria junto com o aumento da escassez de água, com as altas dependências e com os recursos econômicos limitados para lidar com os riscos relacionados à água.

‘Uma seca de vários anos na bacia do Nilo é inevitável.’

Essas novas barragens poderiam piorar os impactos da mudança climática regional e as demandas hídricas, especialmente quando a população e a economia estão crescendo. Embora os estudiosos não possam prever quando isso ocorrerá, uma seca de vários anos na bacia do Nilo é inevitável. Isso teria impactos graves na alocação de água.

A perspectiva de uma seca plurianual em partes da bacia do Nilo exige preparativos hoje. E, mesmo que o impacto de novas represas seja moderado, a percepção de risco pode afetar a forma como o Egito, por exemplo, toma decisões sobre a cooperação em rios compartilhados.

Duas outras grandes bacias – a de Juba-Shebelle, no Quênia, Somália e Etiópia, e a bacia do Lago Turkana, no Quênia e na Etiópia – estão projetadas para enfrentar altos níveis de risco de conflito. Nessas duas bacias, vários problemas, como confrontos locais, baixo desenvolvimento humano e disponibilidade limitada de água, já se chocam atualmente.

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Isso pode se agravar sem esforços adicionais até 2050 devido ao crescimento populacional relativamente alto e aos impactos das mudanças climáticas – sem obterem recursos suficientes para uma adaptação.

Mesmo em nosso cenário mais ambicioso – que implica melhorias substanciais na gestão da água, na administração doméstica geral e na resiliência institucional – as bacias de Juba-Shebelle e do Lago Turkana ainda enfrentam altos riscos.

Os desafios enfrentados por essas áreas devem ser explicitamente incluídos em planos mais amplos. Por exemplo, quando grandes barragens hidrelétricas são construídas, sua operação não deve prejudicar as metas de adaptação climática da região mais ampla.


*Sophie de Bruin é pesquisadora de mudanças climáticas na Vrije Universiteit Amsterdam


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.

Tradução de Letícia Miranda


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

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