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04 setembro 2026

A força militar dos EUA na América Latina

É possível antecipar que as ações militares na região, com a justificativa de combate ao crime organizado e à droga para defender o território dos EUA, deverão aumentar com o apoio da maioria dos governos da região

O Secretário de Guerra Pete Hegseth reúne-se com militares dos EUA no Centro de Treinamento de Operações na Selva – Sul, no Panamá, em 12 de agosto de 2026 (Foto: Departamento de Guerra dos EUA)

O chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, setor das Forças Armadas responsável por monitorar a América Latina e o Caribe, visitou na semana passada a Colômbia para se reunir com a nova cúpula militar nomeada pelo presidente Abelardo de la Espriella, novo aliado de Donald Trump em sua estratégia de combate ao narcotráfico na América Latina.

Poucos dias após sua posse, Trump incluiu a Colômbia no chamado Escudo das Américas, coalizão formada por cerca de 20 países da região para combater organizações do tráfico de drogas. Em 12 de agosto foram autorizadas operações militares conjuntas na guerra contra o narcotráfico. Washington prevê destinar US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) à segurança na Colômbia, maior produtora de cocaína do mundo. A Colômbia “é um parceiro de longa data na luta contra os cartéis e um líder vital para a segurança regional”, acrescentou representante do Comando Sul, que coordena, a partir da Flórida, as operações militares dos Estados Unidos para a América Latina e o Caribe.

O general Donovan, que chefia o Comando Sul, visitou neste ano a Guatemala, o Equador e a Venezuela, após a captura do então presidente Nicolás Maduro e a normalização das relações diplomáticas.

‘As Forças Armadas norte-americanas se preparam para realizar operações no território de países aliados com o objetivo de combater organizações de narcotráfico’

Segundo o secretario da Guerra, Hegseth, afirmou que as Forças Armadas norte-americanas se preparam para realizar operações no território de países aliados com o objetivo de combater organizações de narcotráfico na América Latina.

A crescente interferência militar dos EUA na América Latina, na linha do previsto no Corolário Trump, da Estratégia de Segurança Nacional, começou na crise com a Venezuela. 55 barcos, com 227 mortos, foram atacados pela marinha norte-americana sob a acusação de tráfego de drogas. O Equador executou operações contra os grupos classificados como terroristas, com a participação de militares norte-americanos. Guatemala e Honduras permitiram que os EUA realizem operações militares conjuntas contra grupos criminosos em seus territórios.

Em meados de agosto, os EUA iriam promover uma inédita demonstração de força militar na região, empregando bombardeiros pesados (B-52), com o apoio da Argentina e do Chile. O plano previa que três bombardeiros estratégicos, com capacidade para ataques nucleares, voariam de Base em Dakota do Norte para o Cone Sul, onde seriam acompanhados por aviões de reabastecimento e caças da Argentina e Chile. A operação conjunta foi adiada, sem maiores explicações. Segundo informação do Comando do Sul, a missão foi postergada devido a “novas exigências operacionais”. O Brasil não foi informado dessa operação conjunta, visto que não passaria pelo espaço aéreo nacional. 

‘A manifestação de força é o resultado da preocupação com o tráfico de drogas, originárias da Colômbia, Peru e Bolívia, que, alinhados com Trump, reconhecem os grupos criminosos como cartéis terroristas’

Os objetivos da Estratégia de Segurança Nacional focalizam a defesa do território norte-americano e a contenção da presença da China na região. A manifestação de força é o resultado da preocupação com o tráfico de drogas, originárias da Colômbia, Peru e Bolívia, que, alinhados com Trump, reconhecem os grupos criminosos como cartéis terroristas.

No início de março passado, o secretário da Guerra, Pete Hegseth liderou a Conferência da Coalisão das Américas de Combate aos Cartéis (Escudo das Américas), da qual participaram 18 países latino-americanos. A Conferência ocorreu na sede do Comando Sul dos EUA. Da América do Sul, estavam presentes representantes da Argentina, Guiana, Bolívia, Equador, Paraguai, Chile e Peru. Da América Central, estavam Belize, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, Honduras, Jamaica, Panamá e Trinidad e Tobago.

Em seu discurso de abertura, Hegseth afirmou que “os Estados Unidos estão preparados para enfrentar essas ameaças e partir para o ataque sozinhos, se necessário. No entanto, nossa preferência — e o objetivo desta conferência — é que, no interesse deste hemisfério, façamos isso juntos; com vocês, com nossos vizinhos e com nossos aliados”. O secretário do governo Trump enfatizou que a “coalizão” firmada na Flórida expressa a política do Corolário Trump à Doutrina Monroe, incluído na Estratégia de Segurança Nacional, anunciada em dezembro de 2025 pelos Estados Unidos.

‘Os EUA querem “acesso irrestrito a áreas estratégicas e ao comércio, para que nossas nações possam se industrializar”‘

Ao explicar a nova doutrina na Conferência da Flórida, o secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou que os EUA querem “acesso irrestrito a áreas estratégicas e ao comércio, para que nossas nações possam se industrializar”. “Queremos impedir que potências externas ameacem nossa paz e independência em nossa região comum”, acrescentou. Em agosto, Hegseth participou no Panamá de fórum da Aliança, reafirmando a guerra ao terrorismo contra alvos em terra.

Nesse contexto, é possível antecipar que as ações militares na região, com a justificativa de combate ao crime organizado e à droga para defender o território dos EUA, deverão aumentar com o apoio da maioria dos governos da região.

Toda essa atividade do Comando Sul do Pentágono, na América Latina, ocorre em meio a uma série de demissões na cúpula militar dos EUA, em função de críticas a maneira como a guerra no Irã está sendo conduzida.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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