A Nova República morreu neste domingo, e o que virá ainda não nasceu
Os eleitores brasileiros não se limitaram a votar contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eles enterraram um projeto político que vinha sobrevivendo artificialmente há quase uma década

No domingo, 4 de outubro de 2026, os brasileiros não se limitaram a votar contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eles enterraram um projeto político que vinha sobrevivendo artificialmente há quase uma década.
Esse projeto é a Nova República. Ela surgiu em meados da década de 1980, das ruínas de uma ditadura militar de 21 anos, e foi consagrada na Constituição de 1988 do país. Por uma geração, os brasileiros chamaram-na de pacto democrático, e ela se baseava em três compromissos.
O primeiro era social. A Nova República abraçou o pluralismo e transformou a diversidade do Brasil em parte de sua identidade nacional, em vez de um problema a ser gerenciado.
O segundo era institucional. Em um sistema multipartidário fragmentado, ninguém governa sozinho; por isso, o consenso era o motor das políticas públicas. Esse consenso provinha de eleições livres e justas, mas também de coalizões que permitiam aos governos federal, estaduais e municipais implementar uma agenda comum, além de um equilíbrio funcional entre o presidente, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.
O terceiro dizia respeito às políticas: manter a economia estável, utilizar programas sociais para reduzir uma das desigualdades mais gritantes do mundo e ampliar a participação popular na política.
Por cerca de 30 anos, o pacto se manteve razoavelmente bem. Seus resultados foram desiguais, mas reais: a hiperinflação foi controlada, dezenas de milhões de brasileiros saíram da pobreza, e o poder foi transferido pacificamente, pelo menos entre os dois principais partidos daquela época, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).
O primeiro ataque
Muitos na esquerda afirmam que a Nova República começou a desmoronar com o impeachment, em 2016, da ex-presidente de esquerda Dilma Rousseff. Sua destituição teria sido planejada para preservar as estruturas corruptas que o novo pacto não havia corrigido.
Mas foi a vitória do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 que representou um ataque frontal a cada um dos compromissos democráticos do Brasil. O político, hoje preso, apresentou-se como um outsider, apesar de ter passado 28 anos no Congresso Nacional, e colocou o nacionalismo cristão em vez do pluralismo como prioridade em sua agenda.
Ele redefiniu o sistema de construção de consensos como corrupção da elite, e a política de coalizões que mantinha o Brasil governável tornou-se, segundo ele, a fonte de sua decadência. Ele prometeu consertar a economia tirando o Estado do caminho das empresas e dos indivíduos, tudo em nome da “liberdade”.
Mas Bolsonaro cumpriu pouco. Uma vez no cargo, descobriu que precisava governar dentro do pacto contra o qual havia feito campanha. Era preciso negociar com o Congresso, obedecer aos tribunais, e os governadores tinham suas próprias bases de poder. Essas restrições ajudam a explicar por que tantos de seus eleitores se sentiram decepcionados. Isso também ajuda a explicar por que, depois de perder para Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022, ele planejou um golpe para permanecer no poder. Um líder que não consegue contornar as regras pode acabar acreditando que precisa quebrá-las.
A restauração que não aconteceu
Depois de governar o Brasil por dois mandatos entre 2003 e 2010, Lula voltou ao poder em 2023 prometendo salvar a democracia brasileira. Em vez disso, seu terceiro mandato tornou-se a prova mais clara de que a Nova República não poderia ser salva.
O equilíbrio institucional que sustentava o sistema havia desaparecido. O Congresso, que agora controla grande parte do orçamento federal por meio de verbas destinadas a projetos específicos, mantinha a Presidência como refém, enquanto a Suprema Corte preenchia cada vez mais o vácuo ao legislar a partir do tribunal.
As tentativas de Lula de levar adiante sua agenda esbarravam repetidamente. Seu histórico econômico era respeitável, mas não transformador: crescimento decente e baixo desemprego que nunca se traduziram em uma melhoria visível na vida da maioria das pessoas.
A segurança pública, consistentemente entre as principais preocupações dos eleitores, ficou em grande parte sem solução. Para ser justo, sob a divisão de poderes do Brasil, a maior parte do policiamento é de competência dos estados, e o governo federal tem um alcance limitado.
Mas os eleitores não se importam tanto com o espírito da Constituição. Eles querem resultados.
Depois, há o próprio Lula. Aos 80 anos e com quatro décadas de vida pública, ele havia se tornado o rosto mais reconhecível da Nova República. Isso o tornou um alvo conveniente. Muitos brasileiros transformaram sua frustração com o sistema político em frustração com Lula e, para alguns, em ódio declarado.
Um canto do cisne
Portanto, se a derrota de Lula for confirmada no segundo turno, a ser realizado em 25 de outubro — e as chances de reverter os resultados do primeiro turno deste domingo são mínimas —, será mais do que uma perda pessoal ou um revés para o Partido dos Trabalhadores, que governou o Brasil por quase 18 dos últimos 24 anos. Será o canto do cisne de um projeto político que prometeu construir um novo país a partir das ruínas do autoritarismo e que nunca conseguiu cumprir plenamente o que prometeu: estabilidade política, prosperidade econômica e justiça social. A frustração que decidiu esta eleição é a frustração dessa promessa não cumprida.
Nada disso significa que os 56 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, um dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, rejeitem a democracia. Alguns rejeitam. Eles sentem nostalgia de um passado em grande parte imaginário, quando a classe média era mais forte (e muito menor), quando os valores familiares cristãos prevaleciam e quando impor ordem valia mais do que o Estado de Direito.
Mas a lição mais importante do dia 4 de outubro é outra. Milhões de brasileiros querem um tipo diferente de democracia: menos pluralista, construída sobre uma ideia diferente do que a democracia deve ser. Acima de tudo, eles não acreditam mais que a Nova República possa responder aos desafios do mundo em que vivem.
O velho está morrendo
O filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891-1937) observou, em sua famosa frase, que a crise surge quando “o velho está morrendo e o novo não consegue nascer”. O Brasil encontra-se agora nessa encruzilhada.
Ao contrário de seu pai, Flávio Bolsonaro assumiria o cargo com um raro alinhamento de forças políticas. Os resultados de domingo sugerem que seus aliados deterão cerca de um quarto tanto da Câmara dos Deputados, a câmara baixa do Congresso Nacional, quanto do Senado — uma base sólida em um Congresso onde as coalizões são alugadas, e não construídas. Ele também poderia nomear quatro dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal durante seu mandato.
Jair Bolsonaro passou quatro anos combatendo as instituições. Seu filho pode vir a reformulá-las.
Isso não faz de Flávio a novidade que Gramsci esperava. Ele certamente não é. É um político de carreira com várias acusações de corrupção e o herdeiro de uma marca familiar, representando mais uma continuidade da reação da última década do que uma ruptura com ela.
Mas sua vitória vira de cabeça para baixo o cenário político brasileiro. Os brasileiros que discordam de sua plataforma, sejam da esquerda, do centro ou da direita democrática, não podem mais contar com o antigo pacto para protegê-los ou levá-los de volta ao poder. Eles terão que aprender a navegar nesse novo jogo se quiserem um retorno em breve.
A Nova República chegou ao fim. A questão para o Brasil — e para todos que o viam como um termômetro da democracia no Sul Global — é o que irá substituí-la e se as novas regras finalmente conduzirão o Brasil ao futuro. Se os brasileiros não quiserem que esse futuro se pareça com um passado distante e sombrio, precisam entender que a luta ainda não acabou.
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Guilherme Casarões é professor da Fundação Getúlio Vargas, doutor e mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual de Campinas. Coordena o Observatório da Extrema Direita
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