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14 setembro 2026

A política externa entrou na urna

A eleição de 2026 incorporou o processo de domesticação da política externa, em que questões internacionais são selecionadas, simplificadas e incorporadas ao conflito político nacional com o objetivo de reafirmar uma identidade interna. O fenômeno ocorre em um ambiente internacional marcado pela competição entre grandes potências, pela erosão das instituições multilaterais, pela expansão da geoeconomia e pela circulação transnacional de movimentos políticos. 

Fumaça sobe sobre bairros residenciais em Tiro, no sul do Líbano, após um ataque aéreo (Foto: ONU News)

Durante boa parte da história democrática brasileira, a política externa permaneceu praticamente ausente das campanhas presidenciais. O eleitor votava pensando em inflação, emprego, segurança, saúde e educação, enquanto as relações internacionais ficavam confinadas aos programas de governo, às páginas menos visitadas dos jornais e aos debates entre especialistas. Em 2026, essa distância diminuiu. A política externa entrou na urna, não necessariamente como um conjunto coerente de propostas, mas como extensão da polarização que organiza a política doméstica.

O movimento não começou agora. A redemocratização foi acompanhada por controvérsias sobre integração regional, abertura comercial, relações com os Estados Unidos e aproximação com países do Sul Global. Ainda assim, durante décadas esses assuntos tiveram baixa capacidade de mobilização eleitoral. Mesmo quando governos sucessivos imprimiram marcas distintas à diplomacia, o debate raramente ultrapassou círculos especializados. 

‘A novidade contemporânea está menos na existência de divergências e mais na transformação de países, guerras e organizações internacionais em sinais de pertencimento político dentro do Brasil’

A novidade contemporânea está menos na existência de divergências e mais na transformação de países, guerras e organizações internacionais em sinais de pertencimento político dentro do Brasil.

Estados Unidos e China deixaram de aparecer apenas como parceiros com os quais o país precisa negociar. Passaram também a representar projetos de mundo. 

Israel e Palestina já não são discutidos somente como temas de segurança, direito internacional ou assistência humanitária, mas como referências identitárias utilizadas para classificar adversários. Venezuela e Ucrânia cumprem função semelhante. 

Até instituições como o Mercosul e o BRICS são frequentemente apresentadas ao público por meio de uma linguagem binária: aproximação ou submissão, autonomia ou isolamento, democracia ou cumplicidade autoritária.

‘Esse processo pode ser chamado de domesticação da política externa’

Esse processo pode ser chamado de domesticação da política externa. Questões internacionais são selecionadas, simplificadas e incorporadas ao conflito político nacional. O objetivo nem sempre é explicar como determinada escolha afeta os interesses econômicos, estratégicos ou diplomáticos do Brasil. Muitas vezes, a referência ao exterior serve principalmente para reafirmar uma identidade interna: dizer a qual campo se pertence, quais valores se pretende representar e quem deve ser tratado como adversário.

A eleição de 2026 torna esse fenômeno visível porque ocorre em um ambiente internacional marcado pela competição entre grandes potências, pela erosão das instituições multilaterais, pela expansão da geoeconomia e pela circulação transnacional de movimentos políticos. 

Tarifas, sanções, restrições de vistos, campanhas digitais e declarações de autoridades estrangeiras produzem efeitos que atravessam a fronteira entre o externo e o interno. A política internacional já não chega ao cidadão apenas por meio de uma cúpula diplomática. Ela pode chegar pelo preço de um produto, pelo mercado de trabalho, pelas redes sociais ou por uma controvérsia envolvendo as instituições nacionais.

‘Todos reivindicam a soberania; cada lado a mobiliza para justificar prioridades distintas’

Nesse contexto, a soberania tornou-se uma das palavras centrais da campanha. O consenso, porém, termina no vocabulário. Para um campo político, defender a soberania significa resistir a pressões externas, preservar a capacidade de decisão do Estado e diversificar parcerias para reduzir dependências. Para outro, significa proteger o país de organizações, ideologias e governos vistos como ameaças à civilização ocidental, mesmo que essa defesa envolva maior proximidade com Washington ou com forças políticas estrangeiras. Todos reivindicam a soberania; cada lado a mobiliza para justificar prioridades distintas.

Essa disputa não é meramente retórica. A forma como o próximo governo definir a autonomia brasileira terá consequências concretas. Uma política externa autônoma não se mede pela distância em relação a uma potência específica nem pela proximidade automática com outra. Mede-se pela capacidade de ampliar opções. 

O Brasil não se torna mais independente ao substituir uma dependência por outra, nem ao converter afinidades partidárias em critérios permanentes de inserção internacional. Autonomia exige diversificação de parceiros, instituições profissionais, previsibilidade e disposição para negociar com governos ideologicamente diferentes. 

O caso das relações com Estados Unidos e China é exemplar. A China ocupa posição central no comércio exterior brasileiro, especialmente para o agronegócio e a mineração, e é fonte relevante de investimentos. Os Estados Unidos continuam fundamentais em finanças, tecnologia, defesa, educação e inovação, além de manterem vínculos históricos com o Brasil. Transformar essa relação triangular em uma escolha excludente seria um erro estratégico. 

‘O interesse nacional não está em aderir integralmente a Washington ou Pequim, mas em preservar espaço de decisão diante da competição entre ambos’

O interesse nacional não está em aderir integralmente a Washington ou Pequim, mas em preservar espaço de decisão diante da competição entre ambos.

Também é necessário reconhecer que política externa nunca foi totalmente separada da política interna. Presidentes possuem visões de mundo, partidos estabelecem prioridades e eleições existem justamente para permitir mudanças. A ideia de uma política de Estado não pode ser usada para retirar escolhas internacionais do debate democrático ou para conferir a um corpo burocrático o monopólio da definição do interesse nacional. O problema surge quando a alternância legítima produz rupturas tão profundas que parceiros deixam de saber quais compromissos brasileiros sobreviverão ao próximo ciclo eleitoral.

A polarização agrava essa instabilidade porque transforma gestos diplomáticos em mensagens para o público doméstico. Uma visita, uma ausência, um voto em organismo internacional ou uma declaração presidencial passam a ser avaliados principalmente por sua capacidade de satisfazer bases eleitorais. A política externa torna-se performática. Em vez de instrumento para produzir resultados, converte-se em palco no qual governantes demonstram fidelidade ideológica. Essa lógica pode render apoio imediato, mas cobra um preço elevado em reputação, capacidade de mediação e confiança.

As guerras no Oriente Médio ilustram bem essa dinâmica. No Brasil, discussões sobre Israel e Palestina são frequentemente absorvidas pela polarização e reduzidas a testes de lealdade política. A complexidade histórica do conflito, a proteção de civis, o combate ao terrorismo, a responsabilização por violações e a busca de uma solução política cedem espaço a slogans. O debate externo passa então a organizar identidades internas, enquanto comunidades diretamente afetadas são convertidas em símbolos de uma disputa que pouco contribui para a paz ou para uma atuação diplomática consistente.

‘A campanha de 2026 deveria, portanto, ir além da pergunta sobre quais países cada candidato admira’

A campanha de 2026 deveria, portanto, ir além da pergunta sobre quais países cada candidato admira. Seria mais útil saber como pretendem conciliar relações econômicas com China e Estados Unidos; fortalecer o Mercosul sem fechar o país; utilizar o Brics sem transformar o agrupamento em aliança ideológica; posicionar o Brasil diante de guerras e crises humanitárias; proteger instituições contra pressões estrangeiras; e recuperar capacidade de negociação num sistema internacional cada vez mais fragmentado.

Essas escolhas precisam ser submetidas ao eleitor, mas acompanhadas de algum consenso sobre interesses permanentes. Entre eles estão a preservação da autonomia decisória, a diversificação de parcerias, a integração sul-americana, a defesa do multilateralismo, a promoção dos direitos humanos, a abertura de mercados e a previsibilidade dos compromissos assumidos. 

Governos podem divergir sobre os meios e estabelecer hierarquias diferentes entre esses objetivos. O que o país não pode fazer a cada quatro anos é recomeçar sua presença internacional como se não houvesse memória, obrigações ou reputação acumuladas.

‘A entrada da política externa na campanha não deve ser lamentada. Ao contrário, uma sociedade democrática ganha quando discute como deseja se relacionar com o mundo’

A entrada da política externa na campanha não deve ser lamentada. Ao contrário, uma sociedade democrática ganha quando discute como deseja se relacionar com o mundo. O risco está na qualidade dessa discussão. Se o debate internacional servir apenas para reproduzir a guerra cultural doméstica, teremos mais slogans, mas pouca política externa. Se, porém, a eleição for capaz de conectar valores a interesses concretos e escolhas a consequências, 2026 poderá marcar o amadurecimento de uma dimensão historicamente negligenciada do debate público brasileiro.

O próximo presidente encontrará um mundo menos permissivo, no qual as grandes potências exigem alinhamentos, os conflitos regionais produzem efeitos globais e as fronteiras entre comércio, segurança, tecnologia e política se tornam cada vez mais tênues. Nesse ambiente, o Brasil precisará de uma diplomacia capaz de combinar princípios e pragmatismo. 

A urna decidirá quem conduzirá essa política. O desafio maior será assegurar que, depois da eleição, o interesse nacional não permaneça prisioneiro da campanha.

Karina Stange Calandrin é colunista da Interesse Nacional, professora de relações internacionais no Ibmec-SP e na Uniso, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutora em relações internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).

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