A reconfiguração geopolítica do Ártico em tempos de fragmentação do multilateralismo
A proposta de anexação da Groenlândia sinaliza uma mudança paradigmática na política externa dos Estados Unidos, ao priorizar a posse territorial direta em detrimento da aliança estratégica tradicional e ao desconsiderar, em grande medida, as instituições multilaterais consolidadas

Este artigo analisa as implicações geopolíticas e geoeconômicas da proposta de aquisição da Groenlândia pela administração de Donald Trump em 2026. Por meio de uma análise dos recentes discursos diplomáticos e movimentos de política externa norte-americana, examinamos a interseção entre pressões tarifárias, segurança energética — com ênfase em minerais críticos e terras raras — e a importância estratégica da ilha para o controle das rotas comerciais árticas.
Conclui-se que a iniciativa representa uma tentativa de transição de um modelo de cooperação multilateral para um de “soberania plena”, o que impõe desafios significativos à coesão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e à estabilidade da infraestrutura logística nas altas latitudes.
‘A Groenlândia emerge não apenas como um ponto geográfico, mas como um “nó logístico” vital’
A ascensão do Ártico como novo epicentro de competição entre grandes potências tem redefinido as prioridades estratégicas de Washington. A Groenlândia, território autônomo sob o Reino da Dinamarca, emerge não apenas como um ponto geográfico, mas como um “nó logístico” vital. Assim, a recente manobra diplomática norte-americana tem se utilizado da imposição de tarifas comerciais contra aliados europeus como ferramenta de barganha para a transferência de soberania territorial, um movimento que desafia as normas internacionais de autodeterminação e cooperação transatlântica.
Sob a perspectiva neorrealista de Kenneth Waltz, o qual rememoramos nesta análise, esse comportamento pode ser compreendido como uma resposta direta às pressões estruturais do sistema internacional.
Em um ambiente caracterizado pela anarquia – isto é, pela ausência de uma autoridade central capaz de regular de forma vinculante as interações entre os Estados –, as grandes potências tendem a priorizar estratégias que maximizem sua segurança e sua posição relativa no sistema.
‘A Groenlândia adquire valor não por suas características domésticas ou normativas, mas por sua localização estratégica e por sua capacidade de alterar a distribuição de capacidades no Ártico’
Nesse sentido, a Groenlândia adquire valor não por suas características domésticas ou normativas, mas por sua localização estratégica e por sua capacidade de alterar a distribuição de capacidades no Ártico, elemento central da análise waltziana.
Ainda segundo a perspectiva de Waltz, o comportamento dos Estados não deriva primariamente das intenções individuais de seus líderes, mas das constrições impostas pela estrutura do sistema internacional. A intensificação da competição entre Estados Unidos, China e Rússia no Ártico cria incentivos sistêmicos para ações unilaterais voltadas à redução de vulnerabilidades estratégicas.
A busca norte-americana pela soberania plena sobre a Groenlândia, portanto, pode ser interpretada como uma tentativa de adaptação estrutural a um sistema cada vez mais multipolar e competitivo, no qual a segurança passa a ser concebida como um jogo de soma zero.
‘A estratégia de política externa observada baseia-se no uso do poder econômico como vetor de coerção’
A estratégia de política externa observada baseia-se no uso do poder econômico como vetor de coerção. Ao ameaçar com tarifas de até 25% nações como Dinamarca, Alemanha e França, os Estados Unidos buscam forçar uma renegociação do status da Groenlândia.
Essa “diplomacia transacional” visa converter relações de segurança de longo prazo em ativos de propriedade plena. A recusa dinamarquesa em considerar a venda é confrontada pela visão estadunidense de que o modelo de arrendamento ou licenciamento — como o atualmente vigente na Base Aérea de Pituffik (Thule) — é psicologicamente e operacionalmente insuficiente para as demandas de uma nova “Guerra Fria” no Ártico.
Um pilar central da justificativa para a anexação reside na segurança de recursos. A Groenlândia detém vastas reservas de minerais de terras raras, essenciais para a indústria tecnológica e bélica contemporânea.
Atualmente, a dependência global de cadeias de suprimentos controladas por adversários sistêmicos impulsiona Washington a buscar o controle soberano sobre esses depósitos. Além disso, a implementação planejada do sistema de defesa antimíssil Golden Dome na região transformaria a ilha em um escudo avançado, protegendo o território continental americano contra vetores balísticos transpolarizados.
‘Uma ruptura com a Europa e o Canadá poderia isolar os Estados Unidos’
O controle do Ártico é definido por três camadas: presença física, sustentabilidade logística e capacidade de negação de acesso (area denial). Embora a soberania plena sobre a Groenlândia pudesse facilitar a expansão de infraestrutura de uso duplo sem entraves burocráticos europeus, há o risco identificado de uma “perda de profundidade logística”. A operação em altas latitudes depende de uma rede colaborativa de portos, sistemas de Busca e Salvamento (SAR) e troca de dados meteorológicos. Uma ruptura com a Europa e o Canadá poderia isolar os Estados Unidos, tornando sua presença no Ártico mais onerosa e menos eficaz frente ao avanço da Rota do Mar do Norte (NSR), controlada pela Rússia.
A proposta de anexação da Groenlândia sinaliza uma mudança paradigmática na política externa dos Estados Unidos, ao priorizar a posse territorial direta em detrimento da aliança estratégica tradicional e ao desconsiderar, em grande medida, as instituições multilaterais consolidadas — fenômeno que aqui denominamos fragmentação do multilateralismo.
Destacam-se dois cenários principais: o Cenário de Integração Soberana, no qual os EUA lograriam êxito na negociação, consolidando um hub logístico autônomo ao custo de uma alienação duradoura de seus aliados históricos; e o Cenário de Fragmentação Transatlântica, em que a insistência na anexação gera retaliações comerciais da União Europeia, enfraquece a OTAN e cria vácuos de segurança passíveis de exploração por competidores asiáticos e euroasiáticos.
Em última análise, a Groenlândia deixou de ser percebida por Washington como um mero “pedaço de gelo” para se tornar um dos epicentros onde se decidirão a hegemonia marítima e mineral do século XXI e a divisão do sistema internacional entre as três grandes potências: Estados Unidos, China e Rússia.
Anthony Inforçatti Oaks é Acadêmico do curso de Relações Internacionais (ESPM) e Pesquisador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
Roberto Rodolfo Georg Uebel é professor do curso de Relações Internacionais (ESPM) e Coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
Anthony Inforçatti Oaks é professor do curso de relações internacionais da ESPM e pesquisador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM)
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