A visita do presidente da Coreia do Sul
Como acompanhamos, o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, realizou uma visita de Estado, ao Brasil, entre os dias 26 e 28 de julho, ocasião em que se reuniu com o presidente Lula, em Brasília, no dia 27/07, e passou pelo ABC Paulista, no dia 28. Este encontro ocorreu cerca de cinco meses após […]

Como acompanhamos, o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, realizou uma visita de Estado, ao Brasil, entre os dias 26 e 28 de julho, ocasião em que se reuniu com o presidente Lula, em Brasília, no dia 27/07, e passou pelo ABC Paulista, no dia 28. Este encontro ocorreu cerca de cinco meses após o nosso presidente ter realizado a sua terceira visita à Coreia do Sul (as anteriores ocorreram em 2005 e 2010); foi, porém, a primeira a ter o status de “visita de Estado”, reservado aos compromissos de maior relevância política, econômica e diplomática entre as nações.
Em Brasília foi realizada uma reunião de cúpula capitaneada pelos dois Chefes de Estado, ocasião em que foram assinados vários atos; entre eles o “Plano de Ação Brasil-Coreia 2026–2029”, para expandir a cooperação em inovação, energia e comércio, e um memorando de entendimento, que estabelece uma agenda de intercâmbio de conhecimentos e experiências em temas como regulação, gestão mineral, inovação, desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade. Também estão previstas ações conjuntas, seminários, estudos técnicos, além da criação de um grupo de trabalho para coordenar a implementação das iniciativas acordadas nas áreas de semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, transição energética, saúde, educação e agricultura.
A visita ocorreu em meio ao avanço do intercâmbio entre os dois países, consolidado, neste ano, com a elevação das relações bilaterais ao status de parceria estratégica, que tem uma maior abrangência. Neste espírito, as discussões abordaram temas cada vez mais relevantes para ambos, sobretudo no que tange ao fortalecimento e ampliação do comércio no processo de transição energética em todo o planeta, inclusive no que respeita à cooperação em minerais críticos e terras raras, semicondutores e inteligência artificial.
‘A Coreia do Sul foi, em 2025, o quarto maior parceiro comercial do Brasil na Ásia e o quinto principal destino das nossas exportações para a região’
Para tanto, foi firmado um memorando de entendimento entre a Agência Nacional de Mineração (ANM) e a Korea Mine Rehabilitation and Mineral Resources Corporation (Komir). A propósito, a Coreia do Sul foi, em 2025, o quarto maior parceiro comercial do Brasil na Ásia e o quinto principal destino das nossas exportações para a região. No período, a corrente do comércio bilateral alcançou a cifra de US$ 10,8 bilhões. Paralelamente, a Coreia do Sul ocupa a 19ª posição entre os maiores investidores estrangeiros no Brasil.
Foram igualmente aprofundadas as negociações para a formalização de um acordo de livre comércio com o Mercosul. Também constaram da pauta acordos na área de educação e cinema; como sabemos, a cultura do K-Pop, promovida pelo Estado sul-coreano, avança como um dos grandes “produtos” culturais do planeta e arregimenta a juventude de forma “avassaladora”.
Em um gesto simbólico, na noite do dia 28, em visita à sede do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, Lee Jae-myung recapitulou similaridades nas carreiras dos dois chefes de Estado desde o movimento sindical à liderança de seus países.
No encontro, Lee relembrou as lutas operárias na Coreia do Sul, ocasiões em que ele teria resistido a cercos jurídicos, realizado uma greve de fome e sofrido um atentado, em 2024, quanto liderava a resistência parlamentar à tentativa de imposição da lei marcial no país. Ele compartilhou estas reflexões nas redes sociais: como disse, “…ao olhar ao redor, lembrei-me naturalmente dos meus tempos de jovem trabalhador. Por termos crescido em ambientes difíceis, Lula e eu sabemos o valor que cada pessoa tem. Sinto que nossas trajetórias de vida semelhantes nos aproximam ainda mais. Sou grato por este dia, em que pudemos compreender profundamente o coração um do outro sem a necessidade de muitas palavras…”
‘Esta iniciativa busca amenizar os efeitos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos às nossas exportações, que nos obriga a sairmos da nossa casca protecionista e “viciada” no mercado americano’
Para além da retórica político-ideológica, cabe analisar a relevância da aproximação com um país que galga espaços a passos largos na agenda internacional, sobretudo nas áreas de tecnologia (a Samsung, a Hyundai, a LG que o digam). Como sabemos, esta iniciativa busca amenizar os efeitos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos às nossas exportações, que nos obriga a sairmos da nossa casca protecionista e “viciada” no mercado americano, e a buscarmos mercados alternativos.
O cenário mais “óbvio”, pelo menos momentaneamente, pelas imensas oportunidades que oferece, e aguardam para serem prospectadas com maior denodo, é para mim, o mercado asiático, o continente que concentra a maior população do planeta, a que mais cresce, e que cada vez mais abraça as áreas de tecnologias.
Não negligenciando as demais, se formos consultar o FMI para sabermos quais são atualmente as seis maiores economias do planeta, em termos de Produto Interno Bruto – constaremos que entre elas estão três asiáticas: China (2ª), Japão (4ª) e Índia (6ª). Se, em paralelo, formos consultar em termos de paridade de poder de compra, o cenário se modifica: a China passa a ocupar o primeiro lugar, suplantando os Estados Unidos; a Índia assume o 3º lugar; e o Japão o 5º. Não é pouca coisa…o que a insensibilidade e o corporativismo das nossas elites teimam em escamotear.
Descartando o nosso desconhecimento – e o consequente preconceito -, isto não significa que vamos nos “bandear” para a Ásia, mas, sim, recorrermos à onipresente lição do nosso maior Chanceler do século XX , Antonio Azeredo da Silveira, que cunhou a teoria do “pragmatismo responsável”, a mesma “mutatis mutandis”, empregada por Deng Xiaoping quando abriu a economia chinesa para o mundo: “não importa a cor do gato, desde que ele cace ratos”: ou seja, vamos para onde poderemos aferir maiores benefícios!
Por ora, a bússola aponta para a Ásia!
Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.
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