Ação dos EUA contra Venezuela decretam o fim definitivo do mundo liberal (para quem ainda acreditava nele)
A prisão de Nicolás Maduro consolida um precedente perigoso: quando as regras do direito internacional se tornam opcionais para quem dispõe de porta-aviões, a ficção do Estado soberano colapsa sob o peso da força bruta. Demorei a escrever. Preferi ouvir, observar, resistir à tentação do comentário imediato que busca capturar o frescor do acontecimento. Reli, […]

A prisão de Nicolás Maduro consolida um precedente perigoso: quando as regras do direito internacional se tornam opcionais para quem dispõe de porta-aviões, a ficção do Estado soberano colapsa sob o peso da força bruta.
Demorei a escrever. Preferi ouvir, observar, resistir à tentação do comentário imediato que busca capturar o frescor do acontecimento. Reli, algumas vezes, o artigo anterior que publiquei aqui no The Conversation, intitulado “Tabuleiro Molhado: a Doutrina ‘Donroe’ e o mar que os EUA não deixam de vigiar”, para tentar entender o que estava em jogo. Tomei distância para distinguir o que é ruído do que é estrutura. E cheguei nestas linhas.
A madrugada de 3 de janeiro de 2026 não marcou apenas a captura de Nicolás Maduro por forças especiais estadunidenses. Ela assinalou o colapso definitivo da ficção do Estado moderno soberano e a falência das promessas do mundo liberal.
Sob o comando de Donald Trump, a “Operação Absolute Resolve” utilizou o mar como plataforma estratégica para rasgar o direito internacional, estabelecendo um precedente perigoso em que a força bruta se apresenta como o único árbitro efetivo das relações entre Estados. Os eventos recentes exigem uma análise que vá além da superfície midiática e examine as estruturas profundas que sustentam — ou deixaram de sustentar — a ordem internacional contemporânea.
A ficção da soberania e a liturgia da ONU
O sistema internacional, teoricamente construído sobre a igualdade soberana das nações e consagrado no Artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas — que proíbe a ameaça ou uso da força contra a integridade territorial de qualquer Estado —, revelou-se uma liturgia vazia quando confrontado com os interesses de uma potência hegemônica.
O Secretário-Geral António Guterres manifestou estar “profundamente preocupado” e reconheceu que a ação estabelece um “precedente perigoso”, afirmando que “as regras do direito internacional não foram respeitadas”. Contudo, a condenação retórica permanece exatamente isso: retórica. O Conselho de Segurança encontra-se paralisado, como era previsível, pelo poder de veto que protege os membros permanentes de qualquer consequência substancial decorrente de suas violações.
É fundamental compreender que a ONU não falha diante das grandes potências; ela cumpre seu objetivo primordial: evitar guerras entre estas potências (nucleares). Quando o embaixador venezuelano Samuel Moncada declarou perante o Conselho de Segurança que “se o sequestro de um chefe de Estado é tolerado, a mensagem é devastadora: a lei é opcional, a força é o verdadeiro árbitro”, ele não estava revelando uma disfunção do sistema — estava descrevendo sua lógica operacional.
A ONU funciona como um instrumento no jogo de interesses, não como um tribunal de justiça imparcial. As alegações de “narcoterrorismo”, as “guerras às drogas” e a “guerra ao terror” são rótulos intercambiáveis, ficções convenientes categorias elásticas o suficiente para acomodar qualquer intervenção que sirva a cálculos geopolíticos e econômicos. São tentativas falhas de produzir legitimidade, mas que se enquadram nos discursos midiáticos. A retórica jurídica internacional opera como verniz civilizatório sobre práticas que, em sua essência, reproduzem a lógica colonial do século XIX.
O mar como palco de coerção imperial
A denominada “Doutrina Donroe” — expressão inicialmente forjada pela imprensa e posteriormente apropriada pelo próprio Donald Trump — encontrou no Caribe seu “tabuleiro molhado”. Longe de se reduzir à mera antítese entre cooperação e coerção, o espaço marítimo caribenho revela-se um domínio híbrido, no qual a projeção assimétrica de poder coexiste e até se articula estrategicamente.
O porta-aviões USS Gerald Ford, acompanhado de um grupo de ataque completo, transformou as águas caribenhas em território de exceção jurídica. Por meio da “Operação Southern Spear”, os Estados Unidos impuseram bloqueios marítimos e realizaram ataques letais que, segundo reportagens da CNN, resultaram na destruição de ao menos 30 embarcações e na morte de mais de 100 pessoas até meados de dezembro de 2025 — tudo sob o rótulo conveniente de “combate ao narcotráfico”.
Para além do combate ao narcotráfico, a operação insere-se em uma estratégia mais ampla de contenção da presença chinesa e russa no hemisfério ocidental, que inclui restringir o fluxo de petróleo venezuelano destinado a essas potências e reassegurar o controle sobre infraestruturas críticas como o Canal do Panamá — intenção que o próprio Trump explicitou em postagens nas redes sociais, convertidas em canal de comunicação presidencial.
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo — cerca de 300 bilhões de barris, o que representa 17% das reservas globais. Quando Trump declarou, em seu discurso de posse, que os Estados Unidos querem “se cercar de energia” e que “temos uma energia tremenda naquele país”, a máscara diplomática cedeu lugar à gramática crua do imperialismo energético. O mar emerge, assim, como fronteira e instrumento de coerção política e militar voltado à proteção dos interesses econômicos e de segurança norte-americanos.
A arrogância imperial e o destino manifesto
Trump trata o hemisfério ocidental como sua propriedade privada, vinculando sua retórica não apenas à exclusividade regional da Doutrina Monroe de 1823, mas também ao Destino Manifesto invocado explicitamente em seu discurso inaugural.
Ao declarar que os Estados Unidos voltarão a se considerar “uma nação em crescimento — que aumenta sua riqueza, expande seu território” e que “perseguiremos nosso destino manifesto até as estrelas”, citando William McKinley — presidente que anexou as Filipinas e Porto Rico — como modelo, Trump não está fazendo concessões à nostalgia histórica. Ele está anunciando um programa político.
Sua Estratégia de Segurança Nacional, publicada em novembro de 2025, declara, sem rodeios: “Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental… Negaremos aos competidores extra-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”.
A formulação é reveladora: “nosso Hemisfério”. As ameaças à Groenlândia, ao Canadá (“estado 51”), ao Panamá e, agora, à ocupação de facto da Venezuela seguem uma lógica territorial que remonta às guerras de expansão do século XIX.
Quando Trump afirma que “agora chamam de ‘Doutrina Donroe’” e que “a dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada”, ele está sinalizando que o consenso multilateral do pós-Guerra Fria — já fragilizado — foi definitivamente abandonado. O mundo liberal não apenas falhou em suas promessas de igualdade soberana e desenvolvimento compartilhado; ele deixou as portas abertas ao fascismo imperialista, agora desprovido das máscaras que outrora disfarçavam sua natureza predatória.
A semiótica do troféu: De Abu Ghraib ao espetáculo planejado
A diferença entre o escândalo de Abu Ghraib, em 2004, e a captura de Maduro, em 2026, não reside no grau de violência, mas na relação da imagem com o poder.
Em Abu Ghraib, as fotografias de tortura foram vazadas e provocaram indignação global — os soldados envolvidos foram processados e a administração Bush enfrentou uma crise de legitimidade. A mensagem-imagem operava contra a narrativa oficial.
Em 2026, Trump postou pessoalmente em sua rede social, Truth Social, a imagem de Maduro vendado, com fones de ouvido isolantes, vestindo moletom cinza da Nike, algemado, segurando uma garrafa d’água com ambas as mãos, colete salva-vidas ao pescoço, com um agente da DEA ao seu lado. A imagem foi concebida para ser exibida como troféu de caça pendurado na parede. Não há mais pudor; a mensagem-imagem opera a favor da narrativa oficial, celebrando a violência como demonstração de poder.
A semelhança com as imagens de prisioneiros chegando a Guantánamo em 2002 — como o australiano David Hicks, também fotografado com a visão e a audição bloqueadas — não é acidental. Ela estabelece continuidade visual com a “guerra ao terror”, inscrevendo Maduro na mesma categoria de “inimigo combatente” que justificou duas décadas de exceção jurídica.
Porém, enquanto as imagens de Guantánamo geraram debates sobre direitos humanos e legalidade, a foto de Maduro foi consumida como entretenimento político por apoiadores de Trump.
O passeio de helicóptero sobre Nova York, passando deliberadamente em frente à Estátua da Liberdade, com transmissão ao vivo da chegada ao Metropolitan Detention Center no Brooklyn — onde multidões se aglomeravam, alguns aplaudindo, outros vaiando, agitando bandeiras venezuelanas e americanas — foi uma peça de propaganda visual que tentou forjar uma imagética de “libertação” e “democracia americana em ação”.
A cena, com helicópteros sobrevoando a metrópole, remeteu instantaneamente ao filme Apocalypse Now e à chegada da cavalaria aérea no Vietnã — aquela sequência icônica ao som de “Ride of the Valkyries”. Só faltaram a trilha sonora e os créditos finais com a bandeira tremulando.
A hipocrisia das alianças e o precedente perigoso
Maduro é um ditador. Seu governo reprimiu a oposição, fraudou eleições, presidiu o colapso econômico que forçou mais de 7 milhões de venezuelanos ao exílio. Um relatório da ONU documentou crimes contra a humanidade cometidos pelas forças de segurança.
Nada disso, contudo, é juridicamente relevante para a questão da violação da soberania. O direito internacional não prevê o sequestro de chefes de Estado como uma ferramenta de “policiamento” unilateral. Como observou o senador Mark Warner (democrata), em tom de crítica: “Isso significa que qualquer país grande pode indiciar o governante de um país menor adjacente e capturá-lo?” A resposta, após 3 de janeiro de 2026, parece ser afirmativa — desde que o Estado possua “porta-aviões suficientes”.
A hipocrisia é escancarada pela seletividade de Washington. Enquanto Maduro é caçado por “narcoterrorismo”, Trump perdoou Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado nos próprios tribunais americanos por tráfico de drogas.
Enquanto a Venezuela é invadida sob alegação de autoritarismo, a administração Trump mantém apoio explícito a Nayib Bukele, presidente de El Salvador que suspendeu garantias constitucionais e construiu o CECOT — uma megaprisão de encarceramento em massa que organismos internacionais descrevem como violadora sistemática de direitos humanos.
Na Nicarágua, o presidente Daniel Ortega — cujas credenciais autoritárias rivalizam com as de Maduro — permanece intocado. A “guerra às drogas” e o “combate à tirania” revelam-se, assim, rótulos intercambiáveis, aplicados à conveniência geopolítica, não princípios consistentes de política externa.
Conclusão: O tabuleiro reconfigurado
A “Doutrina Donroe” sinaliza que, no século XXI, a hegemonia não é mais medida pelo consenso multilateral, por acordos comerciais ou por “soft power”, mas pela capacidade de neutralizar defesas alheias e de expropriar recursos sob o pretexto de guerras morais fabricadas.
O precedente está posto: se as regras de convivência internacional são opcionais para quem possui porta-aviões e/ou armar nucleares, o mundo liberal não apenas falhou — entregou as chaves ao império do arbítrio.
Quando Trump declara que vai “administrar” a Venezuela até uma “transição adequada” e que a “reconstrução e mudança de regime, ou como quiserem chamar, é melhor do que o que vocês têm agora”, ele está articulando uma doutrina que dispensa a aprovação do Congresso, ignora o direito internacional e trata Estados soberanos como propriedades a serem reorganizadas conforme os interesses de Washington.
O sistema internacional atual opera como um tabuleiro em que as peças menores podem ser removidas pelo dono do jogo a qualquer momento, sem que as regras escritas na lateral da caixa tenham qualquer valor real quando a partida se torna séria.
A ficção do Estado soberano moderno — pedra angular da ordem vestfaliana desde 1648 — revelou-se exatamente isso: ficção. Para os Estados que não possuem capacidade nuclear ou alianças que garantam sua integridade territorial, a “comunidade internacional” oferece apenas retórica de condenação enquanto assistem, impotentes ou coniventes, à imposição da vontade do mais forte.
O Caribe se transformou em fronteira; o mar, em palco para projeção de força sem constrangimentos jurídicos; e a Venezuela, em laboratório de uma nova ordem hemisférica onde a soberania é um privilégio concedido — e revogável — pelos Estados Unidos. O mundo liberal não apenas falhou em suas promessas; demonstrou também que nunca teve a intenção de cumpri-las para além do círculo restrito das grandes potências.
Os próximos meses revelarão se a comunidade internacional possui qualquer capacidade residual de impor limites à expansão da “Doutrina Donroe” ou se o precedente venezuelano inaugurará uma era de vandalismo internacional normalizado. Por ora, o único dado certo é que as regras do jogo mudaram — e quem não possui porta-aviões e/ou armas nucleares joga em desvantagem estrutural permanente.
Francisco Eduardo Lemos de Matos, Doutor em Relações Internacionais, PUC-Rio
This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
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