14 janeiro 2026

Amarelando, literalmente

Incerteza política nos EUA sob Trump leva a tensão econômica e fortalecimento do ouro como ativo de proteção, o que pode reduzir a importância do dólar como referência global e dar espaço para novos modelos de negociação no comércio exterior

(Ilustração criada com IA)

A matéria que o Estadão publicou no seu caderno de Economia, no dia 29/12, da analista Marianna Gualter, intitulada Diante da incerteza global, BC aumenta reserva de ouro em 33%, revela a crescente consolidação de uma tendência global determinante nestes tempos de incerteza “trumpista”.

Conforme a matéria, esta tendência – recente – “alinha o Banco Central do Brasil a outros pelo mundo na busca por reduzir a exposição a títulos da dívida americana”, que, como sabemos, é cotada em dólares.

Ainda segundo ela, “a participação total de ouro no nível das reservas internacionais do BC também aumentou no período de janeiro a novembro, de 3,6% para 6,5%.” Para acalmar o mercado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, observou que esta política “não tem como objetivo, no curto prazo, um retorno ao padrão ouro”.

‘O ouro é considerado como um ativo de proteção, especialmente em períodos de maior incerteza geopolítica e volatilidade nos mercados financeiros’

Para a economista Luíza Pinese, da XP Investimentos, esta política “reflete uma estratégia de diversificação das reservas internacionais alinhada a uma tendência global observada nos últimos anos (….) o ouro é considerado como um ativo de proteção, especialmente em períodos de maior incerteza geopolítica e volatilidade nos mercados financeiros.” Ela assinala, ainda, que “o Brasil possui hoje um colchão sólido de reservas internacionais para poder enfrentar choques externos”.

Este fenômeno não é aparentemente um caso isolado brasileiro.

No levantamento feito junto aos bancos centrais das economias emergentes foi constatado que o desempenho das reservas em ouro é fator principal: ou seja, trata-se de um ativo seguro. Tal avaliação é também compartilhada por 77% das economias avançadas.

Segundo os analistas “esta política ocorre em meio a um cenário de aumento da incerteza global e de recorde da alta do preço dos ativos (em dólares) considerados seguros.

A mesma percepção é corroborada pelo Banco Central Europeu (BCE), o qual indicou num relatório que, “no ano passado, os BCs pelo mundo, em geral, aumentaram suas reservas de ouro em mais de 1 mil toneladas, pelo terceiro ano consecutivo…o volume representa o dobro do nível médio anual observado na década anterior.” Segundo a London Bullion Market Association (LBMA), “o ouro acumulou uma variação superior a 60% em 2025”.

‘Esta tendência sinalizaria que a “era do dólar” estaria paulatinamente cedendo espaço para um outro paradigma geoeconômico’

Para alguns analistas esta tendência sinaliza que a “era do dólar” estaria paulatinamente cedendo espaço para um outro paradigma geoeconômico e refletindo as profundas mudanças que o cenário internacional vem registrando, sobretudo desde que Donald Trump voltou à Casa Branca.

Para entender o processo recorramos, como sempre, à história.

O chamado gold exchange dollar system nos remete a um momento conturbado na história moderna, mais especificamente a 1971, quando os Estados Unidos da era Nixon abandonaram o padrão-ouro e romperam com o sistema de Bretton Woods que “lincava” o valor das moedas internacionais ao ouro.

Esta atitude deu início à política de câmbios flutuantes baseada num sistema centralizado no dólar; este foi, de acréscimo, um dos momentos mais críticos da economia mundial, sobretudo em 1973/74 quando o preço do petróleo quadruplicou devido ao embargo da OPEP em retaliação ao apoio ocidental a Israel, causando inflação global e recessão.

De “positivo”, estimulou o surgimento de políticas energéticas alternativas, como o Proálcool no Brasil.

‘O que segurou a política do dólar ao longo dos tempos foi a percepção, em esfera mundial, da supremacia política e econômica dos Estados Unidos’

Obviamente o que segurou a política do dólar ao longo dos tempos foi a percepção, em esfera mundial, da supremacia política e econômica dos Estados Unidos, ou seja, a certeza de que o dólar e a economia americana seriam o sustentáculo sólido da ordem mundial.

Só que o tempo passou e o processo de globalização das economias tomou um ritmo distinto. Novos atores assumiram papel protagonista no cenário planetário, sobretudo os asiáticos, com a China e a Índia liderando o processo.

Grupos de países também se firmaram, isoladamente ou em grupo, como o Brics, a Asean, o Mercosul/União Europeia, que hoje lideram o impulso desenvolvimentista da economia – e por que não – da política planetária.

Cito sempre o exemplo da minha geração (nasci no final da Grande Guerra, em 1945). Desde então, ela conviveu com cinco hegemonias no prazo de oitenta anos:

  • 1) a queda do Império Britânico, que dominara o cenário internacional desde o espraiamento do colonialismo europeu, no final do século XVII;
  • 2) a hegemonia compartilhada a partir de então entre os Estados Unidos e a União Soviética, sob a ameaça do holocausto nuclear;
  • 3) a supremacia absoluta americana após a queda da URSS, em 1991;
  • 4) no início deste século, a reemergência da China – que fora a principal potência econômica mundial durante séculos -, em “tandem” com os Estados Unidos; e
  • 5) e atualmente as hegemonias compartilhadas entre EUA, RPC, os grupos geoeconômicos – Brics, Asean – e a Índia (?), o país mais populoso do planeta, já a 5ª maior economia, e a passos largos para tornar-se a 3ª até o final deste século, segundo as previsões.

Como sabemos, os chineses e os membros do Brics, entre outros, advogam cada vez mais que as transações entre eles se façam por parâmetros e moedas próprios.

Nós, mesmos, já estamos considerando esta hipótese. Neste cenário, ainda haveria espaço para a supremacia inconteste do dólar / EUA (?), sobretudo num planeta tão conturbado???

OURO X US$$$$$?

Fausto Godoy é colunista da Interesse Nacional. Bacharel em direito, doutor em direito internacional público pela Universidade de Paris (I) e diplomata, serviu nas embaixadas do Brasil em Bruxelas, Buenos Aires e Washington. Concentrou sua carreira na Ásia, onde serviu em onze países. Foi embaixador do Brasil no Paquistão e Afeganistão (2004/2007) e Cônsul-Geral em Mumbai (2009/10). É coordenador do “Centro de Estudos das Civilizações da Ásia” da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e curador da Ala Asiática do MON.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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