Antissemitismo não é política externa
Um seminário sobre antissemitismo deveria ocupar-se, antes de tudo, do antissemitismo. Das suas formas contemporâneas no Brasil, nos discursos, nas redes, nas instituições. O que se produziu foi algo diferente. A maior parte do tempo foi consumida pela discussão sobre Gaza, sobre o posicionamento do governo brasileiro no conflito, sobre o sionismo como ideologia política, sobre as relações entre Brasil e Israel

O seminário realizado no Itamaraty em 16 de abril sobre o enfrentamento ao antissemitismo gerou reações de naturezas muito distintas. Algumas se perguntaram se o encontro era oportuno, dados os atritos recentes no relacionamento bilateral com Israel. Outras questionaram se a Chancelaria era o lugar adequado para um evento desse perfil, em momento diplomaticamente sensível. São perguntas legítimas, e o debate que suscitaram tem valor. Mas há uma dimensão do problema que esse debate, em larga medida, deixou de lado, e que talvez seja a mais importante: o que de fato se disse sobre antissemitismo dentro do seminário.
A crítica ao evento centrada em considerações diplomáticas, sobre momento, sobre lugar, sobre consistência institucional do Itamaraty entre governos, é, em si mesma, reveladora. Ela trata o seminário exclusivamente como um ato de política externa, avaliando-o pelo que significou para a relação com Israel, para a imagem do governo no plano bilateral, para a coerência da Chancelaria.
Essa lente não é errada. Mas é insuficiente. E sua insuficiência ilumina, involuntariamente, o problema central: a tendência sistemática de reduzir o debate sobre antissemitismo a um debate sobre política externa.
‘O ódio a judeus enquanto fenômeno autônomo, com história própria, com lógica própria, com manifestações que independem do que ocorre no Oriente Médio, desaparece da conversa’
Não é uma tendência nova, nem exclusiva de um lado do espectro político. Ela opera simultaneamente em direções opostas: quem quer esvaziar o combate ao antissemitismo encontra no conflito Israel-Palestina um pretexto para protelar, condicionar ou relativizar essa luta; quem quer imunizar qualquer crítica a Israel encontra no antissemitismo uma acusação pronta para silenciar o adversário. Em ambos os casos, o ódio a judeus enquanto fenômeno autônomo, com história própria, com lógica própria, com manifestações que independem do que ocorre no Oriente Médio, desaparece da conversa.
Um seminário sobre antissemitismo deveria ocupar-se, antes de tudo, do antissemitismo. Das suas formas contemporâneas no Brasil, nos discursos, nas redes, nas instituições. Da legislação existente e de suas lacunas. Das experiências de comunidades judaicas brasileiras diante de episódios concretos de discriminação. Das definições internacionais disponíveis, a Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA) elaborou uma delas amplamente adotada, e dos debates que essas definições suscitam. Da pedagogia do Holocausto como instrumento de prevenção. São temas que não dependem da política israelense para existir, e que poderiam ter constituído a espinha dorsal do encontro.
O que se produziu foi algo diferente. A maior parte do tempo foi consumida pela discussão sobre Gaza, sobre o posicionamento do governo brasileiro no conflito, sobre o sionismo como ideologia política, sobre as relações entre Brasil e Israel. Apenas uma minoria dos painelistas tratou do antissemitismo enquanto fenômeno que precede o Estado de Israel em séculos e que se manifesta independentemente das posições que qualquer judeu, em qualquer lugar do mundo, adote sobre qualquer questão geopolítica.
‘Quando o debate sobre o ódio a judeus é sistematicamente reorientado para o conflito israelense-palestino, o que se produz, na prática, é um teste político implícito: a proteção do judeu passa a estar condicionada à sua posição sobre Israel’
Esse deslocamento não é inocente. Quando o debate sobre o ódio a judeus é sistematicamente reorientado para o conflito israelense-palestino, o que se produz, na prática, é um teste político implícito: a proteção do judeu passa a estar condicionada à sua posição sobre Israel. Quem adotar a posição correta merece solidariedade; quem não a adotar, enfrenta um ódio que se torna, aos olhos de alguns, compreensível. Essa lógica, independentemente da embalagem em que venha, é uma das formas mais antigas de discriminação: a responsabilização coletiva, a exigência de que o grupo perseguido prove sua inocência antes de ser protegido.
O antissemitismo antecede o sionismo em dois milênios. Existiu em países que não têm relação alguma com o conflito no Oriente Médio. Prosperou em épocas em que Israel não existia e tampouco existia qualquer debate sobre sua legitimidade. Afeta judeus que criticam abertamente o governo israelense com a mesma frequência com que afeta os que o apoiam. Sua lógica interna não depende da política externa de nenhum Estado, nem do israelense, nem do brasileiro.
‘Reconhecer essa autonomia não implica, em absoluto, imunizar Israel de críticas, que são legítimas, como são legítimas as críticas a qualquer governo’
Reconhecer essa autonomia não implica, em absoluto, imunizar Israel de críticas, que são legítimas, como são legítimas as críticas a qualquer governo. Tampouco implica negar que, em contextos específicos, o conflito em Gaza possa alimentar manifestações de ódio antissemita. Implica apenas sustentar que o antissemitismo tem causas, mecanismos e história que não se reduzem ao conflito, e que qualquer política séria de combate a ele precisa partir dessa constatação.
É essa separação analítica, entre antissemitismo como fenômeno e política externa como tema, que o debate em torno do seminário de abril, em seus diferentes registros, não conseguiu sustentar. Quem criticou o evento pelo prisma diplomático avaliou-o como se fosse exclusivamente um ato de política externa. Quem defendeu ou atacou seu conteúdo o fez, em grande medida, nos mesmos termos. O resultado, em ambos os casos, é que o antissemitismo, o tema que figurava no título do encontro, foi o grande ausente da discussão.
‘A dificuldade de separar as duas discussões não é acidental. Ela reflete tensões reais no debate político contemporâneo, em que o antissemitismo e a questão palestina se tornaram, para muitos atores, categorias mutuamente instrumentalizáveis’
A dificuldade de separar as duas discussões não é acidental. Ela reflete tensões reais no debate político contemporâneo, em que o antissemitismo e a questão palestina se tornaram, para muitos atores, categorias mutuamente instrumentalizáveis. O governo Netanyahu, como se observou durante o seminário, usa acusações de antissemitismo para blindar sua política de críticas; setores do campo progressista usam a causa palestina para relativizar ou condicionar o combate ao ódio a judeus. Ambos os movimentos contribuem para o embaralhamento que torna o debate estéril.
O Brasil tem comunidades judaicas com presença significativa, história longa e contribuições documentadas à vida nacional. Essas comunidades enfrentam, como enfrentam comunidades judaicas em outros países, manifestações concretas de discriminação que merecem ser levadas a sério, não como apêndice de um debate sobre política externa, mas em seus próprios termos. Um seminário que se propõe a enfrentar o antissemitismo deveria começar por aí.
O debate que o evento de abril gerou, sobre consistência institucional, sobre oportunidade diplomática, sobre a relação entre os dois governos, tem sua validade. Mas não substitui o debate que não aconteceu: sobre como o Brasil pode, de fato, combater o antissemitismo. Enquanto as duas discussões continuarem sendo tratadas como a mesma, a segunda continuará sendo adiada pela primeira.
Karina Stange Calandrin é colunista da Interesse Nacional, professora de relações internacionais no Ibmec-SP e na Uniso, pesquisadora de pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP e doutora em relações internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).
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