03 dezembro 2022

‘Argentina, 1985’, as imagens de um julgamento histórico

A Argentina viveu o processo ditatorial mais feroz de sua história entre 1976 e 1983. Em dezembro de 1983, Raúl Alfonsín assumiu a presidência e criou uma comissão para julgar os crimes da ditadura. O filme de Santiago Mitre narra esse acontecimento histórico com foco na figura do promotor Julio Strassera Por Viviana Andrea Montes* […]

A Argentina viveu o processo ditatorial mais feroz de sua história entre 1976 e 1983. Em dezembro de 1983, Raúl Alfonsín assumiu a presidência e criou uma comissão para julgar os crimes da ditadura. O filme de Santiago Mitre narra esse acontecimento histórico com foco na figura do promotor Julio Strassera

Ricardo Darín como Julio César Strassera no filme ‘Argentina, 1985’ (Amazon Prime)

Por Viviana Andrea Montes*

Dado que o filme a que me referirei neste texto e ao qual dedicará a leitura dos próximos minutos se refere a um acontecimento histórico, é fundamental contextualizar esse fato.

A Argentina viveu o processo ditatorial mais feroz de sua história entre 1976 e 1983. Em dezembro de 1983, Raúl Alfonsín assumiu a presidência da nação e iniciou um período de recomposição de direitos e garantias para os cidadãos enquanto tentava forjar uma democracia definitiva.

Uma das primeiras medidas do governo eleito foi a constituição da Comissão Nacional sobre Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), em 1983. Seu relatório final intitulado Nunca Más foi entregue ao presidente em 20 de setembro de 1984 e publicado. Entre os meses de abril e dezembro de 1985, ocorreu o julgamento das juntas militares, que incidiu sobre nove militares que dirigiram essas juntas durante a ditadura.

O filme Argentina, 1985 (Santiago Mitre, 2022) narra esse acontecimento histórico com foco na figura do promotor Julio Strassera.

A visibilidade do julgamento ontem e hoje

Quando ocorreu o julgamento em 1985, a televisão pública transmitia diariamente alguns minutos de imagens sem som e relatavam cada instância do processo judicial. Apenas o veredito final foi transmitido ao vivo e com som.

Nem a mídia radiofônica teve permissão para transmitir –embora assim pareça no filme–. Assim, a população só tinha acesso às sessões por meio daquele breve resumo diário e da história da mídia gráfica até que, em 1998, o documentário produzido com as horas inicialmente registradas pudesse ser veiculado na TV.

A pesquisadora Verónica Garibotto se pergunta: por que o governo decidiria fazer audiências públicas se iria estipular uma transmissão sem som? Por que o governo Alfonsín exigiria 500 horas de gravação, mas permitiria apenas três minutos de transmissão por dia? Qual é o sentido de dar voz aos sobreviventes e às famílias das vítimas se suas histórias permanecem em silêncio e seus rostos ocultos?

Como sugerido por estudos sobre o assunto, a razão para a supressão do som e a aparente ocultação das imagens do público parecia estar baseada, por um lado, na fragilidade da nascente democracia, que continuou enfrentando possíveis retrocessos autoritários até 1990 e, por outro, na decisão de evitar a espetacularização. As imagens, embora poucas e mudas, deram ampla prova da realidade do julgamento e mostraram que o fato inédito de um tribunal civil julgar o alto comando militar por crimes contra a humanidade estava realmente acontecendo.

Hoje, o filme substitui as imagens vistas e as escondidas. O filme revela a face oculta dessa imagem de arquivo dos anos 1980. Os depoimentos, como as testemunhas, olham o público nos olhos, nos confrontam e nos questionam. O diálogo com as imagens do passado dá corpo ao filme, imprime a marca da história na ficção. Não faltará quem questione o gesto de preencher aquelas lacunas que a história nos legou, a intromissão das megaproduções nas dobras da memória.

A história do passado e o sucesso do presente

Sabemos há muitos anos que o passado não é algo dado, fixo para sempre. Da mesma forma, entendemos que cada vez que aquele passado é revisitado teórica ou culturalmente, uma nova atualização da história se produz em um presente com o qual necessariamente dialoga.

Argentina, 1985 é –nem mais, nem menos– isso, uma versão, um recorte, uma história sobre o julgamento das juntas militares.

Claudia Feld, autora do livro Del estrado a la pantalla: Las imágenes del juicio a los ex comandantes en Argentina, de 2002, escreveu um artigo interessante após o sucesso comercial do filme e a ampla repercussão que gerou. Nele, analisa a construção da figura de Strassera como herói solitário. Além de reconhecer a importância de Argentina, 1985, Feld aponta uma série de omissões e decisões de representação que levam a refletir sobre a ideia de fato histórico (que o filme propõe) versus a ideia de processo histórico.

O promotor Strassera e sua equipe são representados no filme com todo o peso do processo judicial em seus ombros (e não nego nem desmereço seu trabalho tenaz e difícil) sem explicar o valor determinante de outros atores para o julgamento se desenvolver e que o ônus da prova seja conclusivo. A incansável tarefa das organizações de Direitos Humanos que têm desempenhado um papel fundamental desde a ditadura mal se delineia.

Da mesma forma, o julgamento trabalhado desta forma subtrai a representação do processo histórico. Omite que foi julgado porque já havia elementos para o fazer, porque, apesar dos riscos e pressões, houve decisão política de julgar.

Dos nove julgados, cinco receberam condenações. Jorge Rafael Videla e Emilio Eduardo Massera foram condenados à prisão perpétua, Orlando Ramón Agosti a quatro anos e seis meses de prisão, Roberto Eduardo Viola a dezessete anos e Armando Lambruschini a oito. Omar Graffigna, Leopoldo Fortunato Galtieri, Basilio Lami Dozo e Jorge Anaya foram absolvidos por diferentes motivos. Nos anos seguintes, as leis Punto Final (1986) e Obediência Devida (1987) limitaram o andamento da justiça e, entre 1989 e 1990, Carlos Menem perdoou os condenados, espalhando um manto de impunidade. Em 21 de agosto de 2003, durante o governo de Néstor Kirchner, essas leis foram anuladas e foram reabertos os julgamentos dos responsáveis ​​pelo Terrorismo de Estado, obtendo avanços verdadeiramente significativos.

Nas informações incluídas no final do filme, poderiam ser substituídas informações que contextualizassem o evento. Mas nenhum dado histórico aparece neles, apenas uma menção sutil às leis e à continuidade dos julgamentos. A ênfase maior está a serviço de sublinhar a continuidade ininterrupta da vida democrática desde 1983 até o presente.

O filme

Argentina, 1985 foi proposto para representar a Argentina no Oscar e aguarda ansiosamente para saber se fará parte da lista que premia o melhor filme estrangeiro. A história oficial (Luis Puenzo, 1985) e O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella, 2009), filmes também ligados à Memória, receberam o mesmo prêmio.

Cena do filme ‘Argentina, 1985’, de Santiago Mitre (IMDB)

Por outro lado, é inegável o enorme interesse que o filme desperta, com um elevado número de espectadores nas salas de cinema e a sua chegada ao público internacional através das plataformas de streaming num momento em que assistimos com preocupação à emergência de discursos neofascistas. e negacionistas.

Em 1983, dias depois de assumir o cargo de director do Instituto Nacional de Cinematografia, Manuel Antín declarou: “O futuro governo está muito interessado em apoiar o cinema, porque o considera não só um veículo de cultura mas também uma comunicação com o mundo, um janela aberta ao exterior para atestar a democracia que conquistamos”.

Hoje, o cinema argentino continua demonstrando suas conquistas históricas e o Julgamento das Juntas Militares obtém um lugar absolutamente merecido na história e na tela.


*Viviana Andrea Montes é professora de Artes, doutoranda em história e teoria das artes na Universidad de Buenos Aires


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em espanhol.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Daniel Buarque é editor-executivo do portal Interesse Nacional. Pesquisador no pós-doutorado do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP), doutor em relações internacionais pelo programa de PhD conjunto do King’s College London (KCL) e do IRI/USP. Jornalista, tem mestrado em Brazil in Global Perspective pelo KCL e é autor de livros como "Brazil’s international status and recognition as an emerging power: inconsistencies and complexities" (Palgrave Macmillan), "Brazil, um país do presente" (Alameda Editorial), "O Brazil é um país sério?" (Pioneira) e "o Brasil voltou?" (Pioneira)

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

Cadastre-se para receber nossa Newsletter