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28 agosto 2026

Cenário geopolítico em perspectiva

Nas últimas semanas, o cenário geopolítico apresentou sensível deterioração, com novas medidas e ações que tornaram ainda mais difícil uma possível evolução no sentido da distensão e do fim das crises.

Foto: Casa Branca

Nas últimas semanas, o cenário geopolítico apresentou sensível deterioração, com novas medidas e ações que tornaram ainda mais difícil uma possível evolução no sentido da distensão e do fim das crises.

A Guerra na Ucrânia se intensificou com repetidos ataques de drones nas cidades ucranianas e russas com crescente número de mortes entre civis. A Coreia do Norte, ampliou seu apoio à Rússia, com o envio de perto de 10.000 soldados para a frente de batalha.

Israel manteve seus ataques ao sul do Líbano contra o Hamas, apesar das tentativas de suspensão das hostilidades. O governo de Netanyhau anunciou a ampliação das construções na Cisjordânia, com continuados ataque aos palestinos que ali moram. Nove países europeus condenaram essa medida ameaçando sanções e pedindo sua revogação, pois caso efetivada, ficaria totalmente inviabilizada a futura constituição de um Estado Palestino. Israel declarou a Turquia como inimiga por condenar essa política de ocupação.

O conflito dos EUA com o Irã continua escalando com novas sanções comerciais e financeiras contra Teerã anunciadas por Washington, inclusive com a ameaça de consequências para países que mantiverem relações financeiras e comerciais com o país persa. A China, cujos bancos poderão ser afetados, mas não deverão entrar nos alvos norte-americanos, criticou publicamente a medida e ameaça retaliar, se empresas chinesas forem afetadas. E países, como o Brasil, que importam ou exportam para o Irã, poderão ser afetados com sansões secundárias.

O impasse nas negociações comerciais entre os EUA e o Canadá, por imposições de última hora do governo Trump, acarretaram o anúncio da imposição de 50% de tarifas sobre US$ 20 bilhões de bens exportados para os EUA, inclusive automóveis. O Canadá anunciou que irá retaliar “dólar por dólar” contra mais de 700 produtos americanos e denunciou que os EUA colocaram como condição a proibição do Canadá negociar acordos comerciais com qualquer outro país. A guerra comercial afetará seriamente as economias do Canada e algumas regiões dos EUA.

A perda de credibilidade dos EUA como potência que garantiria a estabilidade no Oriente Médio pode explicar a assinatura do Acordo de Meca entre a Arábia Saudita, a Turquia e Paquistão, nos moldes da Otan, com o compromisso de, se um país for atacado, todos agirão como se tivessem sido atacados.

Os EUA assinaram acordo de cooperação nuclear com a Arábia Saudita, mas condicionaram sua implementação ao reconhecimento de Israel pelos sauditas e a entrada no pacto econômico dos Acordos de Abraão, que normalizariam as relações entre Israel e os países árabes.

A China abriu uma nova rota de navegação no Ártico, possível pelo aquecimento global e o degelo na região. Novas rotas de navegação estão sendo buscadas pelos países do Golfo para permitir a exportação de seus produtos e evitar o Estreito de Ormuz.

Novas medidas restritivas dos EUA contra Cuba, isolada e sem possibilidade de receber combustíveis, tem efeitos políticos e humanos. Foram estabelecidos canais de conversação entre Havana e Washington, com um dos netos de Fidel Castro surgindo como interlocutor. O conflito com o Irã está adiando uma ação intervencionista do governo Trump, sob a liderança de Marco Rubio, para substituir o atual governo cubano.

O estreito de Magalhães, na América do Sul, virou objeto de disputa geopolítica entre Chile e Argentina, depois de declarações do ministro da Defesa argentino, segundo as quais a Argentina deveria estar presente no Estreito, insinuando ameaça a soberania chilena.

No caso do Brasil, depois de telefonema de Lula a Trump, foram retomadas as conversas sobre as tarifas impostas aos produtos brasileiros, sem perspectiva de solução imediata em função do período eleitoral.

Simultaneamente, para tornar claro o envolvimento do governo de Washington, o Pentágono anunciou investimento de US$ 750 milhões, em parceria com a Secretaria da Guerra de Políticas de Base Industrial, para apoiar financeiramente empresa norte-americana que está comprando companhia Serra Verde, que explora mina de minério raro no norte de Goiás.

Segundo informações do Palácio do Planalto, Lula pretenderia editar decreto vetando a operação de compra, o que, se efetivado, poderia escalar o confronto político-diplomático com os EUA.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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