12 setembro 2023

Como a Rússia está mudando para uma economia de guerra diante das sanções internacionais

País entra em um momento econômico delicado devido às sanções internacionais, e a solução tomada foi de, aos poucos, caminhar para um modelo de economia de guerra total. Para professor, Kremlin aparenta já estar redirecionando seus gastos para os setores militares

País entra em um momento econômico delicado devido às sanções internacionais, e a solução tomada foi de, aos poucos, caminhar para um modelo de economia de guerra total. Para professor, Kremlin aparenta já estar redirecionando seus gastos para os setores militares

Por Christoph Bluth*

Como o progresso da Rússia na Ucrânia está estagnado, com enormes perdas materiais e pessoais, o frustrado chefe da força mercenária Wagner, Yevgeny Prigozhin, pediu a mudança da Rússia para uma economia de guerra total:

“O Kremlin deve declarar uma nova onda de mobilização para convocar mais combatentes, declarar a lei marcial e forçar ‘todos os possíveis’ a participar dos esforços de produção de munição do país. Devemos parar de construir novas estradas e instalações de infraestrutura e trabalhar apenas para a guerra.”

Suas palavras ecoam sentimentos semelhantes expressos pela chefe da emissora estatal russa RT, Margarita Simonyan – uma influente apoiadora do presidente russo, Vladimir Putin – que disse recentemente:

“Nossos homens estão arriscando suas vidas e sangue todos os dias. Nós estamos sentados aqui em casa. Se o nosso setor não está acompanhando, é melhor nos controlarmos! Pergunte a qualquer um. Não estamos todos prontos para ajudar por duas horas depois do trabalho?”

‘Já enfrentando sanções ocidentais desde a anexação da Crimeia e a ocupação do território nas províncias do leste da Ucrânia em 2014, a Rússia teve que se adaptar à vida sob uma série cada vez mais severa de punições econômicas’

Já enfrentando sanções ocidentais desde a anexação da Crimeia e a ocupação do território nas províncias do leste da Ucrânia em 2014, a Rússia teve que se adaptar à vida sob uma série cada vez mais severa de punições econômicas. E, embora Putin aparentemente tenha planejado uma “operação militar especial” relativamente curta, esse conflito se tornou uma guerra prolongada e cara.

A revista The Economist estimou os gastos militares russos em 5 trilhões de rublos (R$ 300 bilhões) por ano, ou 3% do PIB, um número que a revista descreve como “uma quantia insignificante” em comparação com os gastos na Segunda Guerra Mundial. Outras estimativas são mais altas – o Conselho Alemão de Relações Exteriores (GDAP) estima US$ 90 bilhões (R$ 450 bilhões), ou seja, mais de 5% do PIB.

Mas as sanções internacionais atingiram duramente a economia. Elas afetaram o acesso aos mercados internacionais e a capacidade de acessar moeda e produtos estrangeiros. E a velocidade com que os militares russos estão adquirindo equipamentos e munições está pressionando o setor de defesa do país.

‘O Kremlin enfrenta uma escolha: aumentar maciçamente seus esforços de guerra para obter um avanço decisivo ou continuar sua guerra desgastante’

Portanto, o Kremlin enfrenta uma escolha: aumentar maciçamente seus esforços de guerra para obter um avanço decisivo ou continuar sua guerra desgastante. A última opção teria como objetivo durar mais que a Ucrânia, na esperança de que o apoio internacional possa vacilar diante de uma crise global de custo de vida.

Escassez de equipamentos

A Rússia perdeu quantidades substanciais de armas e munições. Em março de 2023, o ministro das forças armadas do Reino Unido, James Heappey, estimou que a Rússia havia perdido 1.900 tanques de batalha principais, 3.300 outros veículos de combate blindados, 73 aeronaves de asa fixa com tripulação, várias centenas de veículos aéreos não tripulados (UAVs) de todos os tipos, 78 helicópteros, 550 sistemas de artilharia de tubo, 190 sistemas de artilharia de foguete e oito embarcações navais.

A Rússia precisa enfrentar vários desafios militares-industriais importantes. Por um lado, suas armas de alta tecnologia guiadas com precisão exigem acesso à tecnologia estrangeira.

Atualmente, isso não está disponível ou está restrito a acordos de sanções que só podem fornecer uma fração do que é necessário. A maioria dos componentes eletrônicos de alta tecnologia usados pelos militares russos é fabricada por empresas norte-americanas.

Portanto, é preciso substituí-los por componentes domésticos de qualidade inferior, o que provavelmente é o motivo pelo qual os militares russos estão usando seu armamento de alta tecnologia com moderação. Mas os projéteis de artilharia com os quais têm contado estão se esgotando.

‘As sanções também forçaram as principais instalações industriais de defesa a interromper a produção e causaram escassez de componentes essenciais para tanques e aeronaves, entre outros materiais’

O centro de estudos americano Center for Security and International Studies divulgou estimativas da inteligência dos EUA de que, desde fevereiro de 2022, os controles de exportação reduziram a capacidade da Rússia de substituir mais de 6.000 peças de equipamento militar. As sanções também forçaram as principais instalações industriais de defesa a interromper a produção e causaram escassez de componentes essenciais para tanques e aeronaves, entre outros materiais.

Fazer, consertar e gastar

Há sinais claros de esforços crescentes para lidar com a escassez. De acordo com uma reportagem da revista The Economist, Dmitri Medvedev, vice-presidente do conselho de segurança da Rússia, anunciou recentemente planos para a produção de 1.500 tanques modernos em 2023. A agência de notícias russa Tass informou há pouco tempo que Medvedev também planeja supervisionar o aumento da produção em massa de drones.

O governo está concedendo empréstimos substanciais aos fabricantes de armas e até mesmo dando ordens aos bancos para que façam o mesmo. As estatísticas oficiais indicam que a produção de “bens metálicos terminados” em janeiro e fevereiro foi 20% maior em comparação com o ano anterior.

O GDAP informou em fevereiro: “Em janeiro de 2023, várias fábricas de armas russas estavam trabalhando em três turnos, seis ou sete dias por semana, e oferecendo salários competitivos. Assim, elas podem aumentar a produção dos sistemas de armas que a Rússia ainda pode fabricar apesar das sanções”.

‘Parece que o Kremlin está fazendo um delicado exercício de equilíbrio ao redirecionar recursos significativos para os setores militares e afins e, ao mesmo tempo, tentando minimizar a interrupção da economia em geral’

Portanto, parece que o Kremlin está fazendo um delicado exercício de equilíbrio ao redirecionar recursos significativos para os setores militares e afins e, ao mesmo tempo, tentando minimizar a interrupção da economia em geral, o que arriscaria perder o apoio de grandes setores da população.

O Fundo Monetário Internacional projetou que a economia da Rússia crescerá 0,7% este ano (o que superaria o crescimento projetado do Reino Unido de 0,4%). Isso será sustentado, em grande parte, pelas receitas de exportação de hidrocarbonetos, bem como pela venda de armas para vários países clientes que ignoram as sanções ocidentais.

Enquanto isso, a diversificação das fontes de importação manteve os estoques abastecidos. No entanto, Romir, pesquisador de opinião pública russo, relatou que, embora a maioria das pessoas não esteja preocupada com a ausência de produtos sancionados, cerca de metade reclamou que a qualidade dos produtos substituídos havia se deteriorado.

Portanto, os russos comuns – aqueles que não perderam entes queridos no campo de batalha ou no exílio – permanecem relativamente otimistas em relação à vida cotidiana. Mas um conflito mais longo e mais intenso, que exija uma mudança para uma economia de guerra total, pode ser uma questão completamente diferente.


*Christoph Bluth, Professor of International Relations and Security, University of Bradford


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original, em inglês.


Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional


Este texto é uma republicação do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original em https://theconversation.com/br

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